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Crítica | O Halloween do Hubie

por Ritter Fan
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Adam Sandler já provou que sabe atuar pelo menos em duas ocasiões, nos ótimos Embriagado de Amor e Joias Brutas, sendo que, em tom jocoso, ele afirmou, no programa de Howard Stern, que, se não levasse o Oscar por seu papel no longa dos Irmãos Safdie, ele faria algo muito ruim de propósito em seguida. Com o filme completamente esquecido na cerimônia, eis que o ator cumpriu sua promessa com O Halloween do Hubie. Na verdade, ele cumpriu pela metade (ou dois terços, talvez três quartos), pois a nova obra dele em parceria com o Netflix poderia ser muito pior. Do jeito que ficou, trata-se apenas de mais uma bobagem que mesmo o espectador mais cegamente fã do ator esquece antes de os créditos terminarem de rolar.

Dirigido por Steven Brill, que vem trabalhando com Sandler desde Um Diabo Diferente, O Halloween do Hubie é um filme festivo do Dia das Bruxas americano que foca no personagem titular, o idiota local da mítica cidade de Salem, em Massachusetts, que sofre bullying de praticamente todo mundo, mas cujo enorme coração faz dele uma pessoa altruísta e bondosa. Equipado com sua garrafa térmica com mais utilidades que Bombril e atuando como monitor das atividades festivas, ele acaba envolvendo-se em um mistério quando cidadãos começam a desaparecer.

O roteiro, co-escrito por Sandler e Tim Herlihy (outro parceiro de longa data do ator), esgota a temática principal e a moral da história em menos de dois minutos de projeção, levando outros três para entrar no ciclo da repetição incessantes das piadas e gags, o que deixa evidente que o material que eles tinham à disposição não daria nem para a abertura de um Saturday Night Live da vida. Com isso, o que passa a sustentar o filme é a caça às celebridades, como em um Onde Está Wally? de 102 minutos, facilmente 65 minutos a mais do que o necessário. É para os espectadores de todas as idades fazerem como o saudoso Rubens Ewald Filho e apontar para a tela a cada três a cinco minutos para dizer o nome de quem apareceu, além de alguns filmes ou séries em que a pessoa estrelou ou coadjuvou e isso sem que se perca o fio da meada já que não há meada (e nem fio…).

A própria construção do personagem de Sandler é paupérrima. Se ele pretendia encarnar apenas alguém muito idiota, ele errou na dose, parecendo mais uma pálida tentativa de imitar Jim Carrey na base da gritaria incessante, como se ele tivesse criado o personagem trailer da produção alguns minutos antes do início da fotografia principal. Se ele tentou viver alguém com algum tipo de transtorno mental, como uma criança em corpo de adulto, diria que o resultado é um desserviço a quem é portador desse transtorno, além de ser uma chacota a um sem-número de outros atores que efetivamente mergulharam fundo no desenvolvimento de um papel complexo dessa natureza mesmo quando o humor é da essência (Steve Martin em Os Safados consegue ser infinitamente melhor). Por mais que seja uma comédia, o que para muitos é licença para fazer o que quer que seja, Sandler poderia ter pelo menos tentado algo mais sólido, mais digno e não essa sombra distante de uma tentativa porca de se criar um personagem identificável e capaz de gerar empatia.

Aliás, é muito interessante e sintomático de seu quase anti-personagem que o roteiro tenha que reiterar quase que a cada nova nova (velha) sequência o sofrimento diário por que passa Hubie, com direito a diálogos expositivos constantes e, talvez mais constrangedoramente ainda, olhares de pena e de tristeza por aquelas poucas pessoas que não o detonam como parte do cotidiano. É algo como “olha como ele é bonzinho, como ele ajuda todo mundo pensando sempre nos outros; ele não merece levar ovos na cara toda vez que pedala sua bicicleta”. Compaixão for dummies não explica esse didatismo…

Entre intermináveis repetições, momentos de vergonha alheia, escatologia aleatória e diálogos constrangedores, além de um Sandler invariavelmente irritante, são justamente as pontas ilustres que mantêm o longa minimamente acima do lodaçal que ele poderia ser. Os leitores que chegaram até aqui sem revirar os olhos e me chamar de “crítico chato, bobo e feio” perceberam que fiz de tudo para não mencionar quaisquer outros nomes além do de Sandler (e da imagem acima que conta com Julie Bowen, mas ela não faz ponta), pois o divertimento que se pode ter em O Halloween do Hubie é exatamente a procura de celebridades, sejam elas veteranas ou jovens. Sugiro até mesmo que sequer passem perto da ficha técnica abaixo, onde todos os nomes aparecem, para que pelo menos algumas surpresas simpáticas sejam mantidas.

O Halloween do Hubie, no final das contas, é mais uma comediazinha rasteira de um humorista que mostrou qualidade no começo de sua carreira, chegou a levantar sobrancelhas de interesse para além dos confins do gênero, mas que, como seu colega Nicolas Cage, preferiu contentar-se com mediocridades. A diferença é que Cage foi esperto e garantiu seu Oscar antes de transformar sua carreira em pastiche.

O Halloween do Hubie (Hubie Halloween, EUA – 07 de outubro de 2020)
Direção: Steven Brill
Roteiro: Tim Herlihy, Adam Sandler
Elenco: Adam Sandler, Kevin James, Julie Bowen, Maya Rudolph, Ray Liotta, Noah Schnapp, Peyton List, China Anne McClain, Paris Berelc, Karan Brar, Bradley Steven, Steve Buscemi, Kenan Thompson, Tim Meadows, Colin Quinn, Rob Schneider, Michael Chiklis, June Squibb, Shaquille O’Neal, Kelli Berglund, Mikey Day, Melissa Villaseñor, Kym Whitley, Lavell Crawford, Betsy Sodaro, George Wallace, Blake Clark, John Flanagan, Brendan Carroll, Ben Stiller, Jackie Sandler, Sadie Sandler, Sunny Sandler, Ella Stiller, Jared Sandler, Karsen Liotta
Duração: 102 min.

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