Crítica | O Homem-Coisa: A Natureza do Medo

A adaptação de Homem-Coisa, personagem pantanoso da Marvel Comics que surgiu pela primeira vez em maio de 1971, mas que, com exceção do famoso run de Steve Gerber, nunca realmente recebeu atenção da editora, fez parte do mesmo pacote de filmes que o braço de entretenimento da editora fez à época com a Artisan, produtora que, depois, se fundiria à Lionsgate, e que já havia trazido o Justiceiro para as telonas. Com baixo orçamento e lançamento originalmente previsto nos cinemas, o que acabou só acontecendo em alguns poucos mercados fora dos EUA, onde o filme foi lançado na TV pelo Sci-Fi Channel (hoje SyFy), o longa é uma verdadeira surpresa positiva se o espectador souber dosar as expectativas.

Muito diferente das adaptações cinematográficas camp do Monstro do Pântano na década de 80, o tratamento que o Homem-Coisa recebeu foi efetivamente o de filme de horror, com todo o gore explícito e partes de corpos humanos que normalmente vem em conjunto, algo que o fez receber a tão temida – mas hoje tão cobiçada pelos fãs – classificação R da MPA. Mais ainda, certamente por restrições orçamentárias, o roteiro de Hans Rodionoff (que tem um currículo nada brilhante) e a direção de Brett Leonard (que, de mais famoso, só havia feito O Passageiro do Futuro) fizeram das tripas coração para transformar o personagem do título em uma “entidade” representativa do pântano em si, quase lembrando a ameaça invisível que é o peixe assassino em Tubarão, de Steven Spielberg.

E, mesmo que esses aspectos possam frustrar quem esperava um filme de origem de “super-herói” padrão ou a presença constante do monstrão na tela, a grande verdade é que eles são o verdadeiro diferencial da obra que, de outra forma, seria apenas mais um filme que amontoa clichês em uma história padrão de homem versus natureza tendo Kyle Williams (Matthew Le Nevez), o novo xerife da cidadezinha de Bywater investigando uma série de assassinatos brutais na região tendo a bela professora e ativista ambiental  Teri Elizabeth Richards (Rachael Taylor, que um dia voltaria à Marvel em Jessica Jones) à tira-colo e a sombra de uma refinaria de petróleo comandada pelo vilanesco Frederick Schist (Jack Thompson) como símbolo da invasão de terras sagradas pela ganância. Claro que nem de longe o filme tem a sutileza da obra de Spielberg, estando muito mais para a versão vegetal de um slasher movie, com o personagem-título aparecendo, apenas, por um ou dois minutos na sequência climática, além de por alguns segundos antes, aqui e ali, mas a ausência do bicho é bem preenchida com o xerife mergulhando de cabeça e inevitavelmente no imbróglio violento que também lida com nativos da região que ganham bom destaque dentro da trama, de certa forma trazendo para o filme o lado sobrenatural que Gerber criou para o Homem-Coisa.

A ambientação da produção, inteiramente filmada em locação na Austrália, é outro elemento de destaque, com o uso do pântano efetivamente como um personagem vivo e como palco para as várias mortes “despedaçantes” que o filme não economiza em mostrar. O monstro em si também ganhou cuidado e investimento com a construção de uma versão não digital que é apenas amplificada pelo CGI em uma fusão que, para 1995 e para o orçamento de apenas 30 milhões de dólares, não deixa muito a desejar.

O que infelizmente realmente faltou foi um roteiro menos burocrático que talvez amplificasse o lado sobrenatural da fita e tornasse o comentário ecológico um pouco menos explícito e didático e uma direção de elenco eficiente, que conseguisse tirar dos atores algo mais do que apenas estereótipos unidimensionais do “xerife bonzinho”, da “loira bonita” e do “vilão que só falta dar risada maquiavélica e esfregar as mãos”. E falo especificamente da direção de atores, pois a direção geral de Leonard, especialmente de tudo que não é, digamos, humano longa, mostra qualidade, com efeitos de transição interessantes, uma fotografia noturna de Steve Arnold que faz diferença, além de uma montagem Martin Connor muito eficiente para a proposta.

Havia, em O Homem-Coisa: A Natureza do Medo (devo dizer que o subtítulo brasileiro até que ficou bom…), um filme excelente. Mas a obra nunca consegue chegar a esse ponto quase que por uma insegurança em realmente confiar no material disponível e soltar as amarras que mantém o filme preso a clichês que pelo menos poderiam ter sido mais bem desenvolvidos. Mesmo assim, o resultado final consegue surpreender.

O Homem-Coisa: A Natureza do Medo (Man-Thing, EUA/Alemanha/Austrália – 2005)
Direção: Brett Leonard
Roteiro: Hans Rodionoff (baseado em criação de Stan Lee, Roy Thomas, Gerry Conway e Gray Morrow e em versão de Steve Gerber)
Elenco: Matthew Le Nevez, Rachael Taylor, Jack Thompson, Rawiri Paratene, Alex O’Loughlin, Steve Bastoni, Robert Mammone, Pat Thompson, William Zappa, John Batchelor, Ian Bliss, Brett Leonard, Imogen Bailey, James Coyne, Cheryl Craig, Conan Stevens
Duração: 97 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.