Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | O Homem da Máscara de Ferro

Crítica | O Homem da Máscara de Ferro

por Marcelo Sobrinho
657 views (a partir de agosto de 2020)

As adaptações dos romances de Alexandre Dumas já não são uma novidade no cinema há muitas décadas. Desde a adaptação de O Três Mosqueteiros em 1948 e passando pelo icônico O Conde de Monte Cristo de 1975 (ou na versão mais recente, de 2002), temos à disposição uma variedade de longas-metragens que se dedicaram a trazer as histórias de Dumas para a grande tela. Uma das empreitadas mais conhecidas pelo grande público data de 1998 e é uma adaptação de O Homem da Máscara de Ferro, dirigida por Randall Wallace (roteirista de Coração Valente) e protagonizada por um elenco estelar – Leonardo DiCaprio, Gérard Depardieu, Jeremy Irons e John Malkovich. Contudo, apesar de todas as promessas, o filme de Wallace decepciona bastante e nem os atores principais, que fazem sim um bom trabalho, conseguem salvá-lo.

Em primeiro lugar, é estranho notar como um romance da fase romântica da literatura ganhou matizes emocionais tão pálidos com a adaptação de Wallace. O maior exemplo disso se dá na cena em que Phillipe tem sua máscara retirada após anos de clausura e de ostracismo. O personagem não esboça sequer um choro, um espanto ou algo que o valha. Apenas olha para frente impassível. Talvez fosse essa a grande inflexão emocional do filme e a grande cena que viria à cabeça de todo espectador quando alguém lhe perguntasse sobre O Homem da Máscara de Ferro. Mas a cena esmorece e a condução absolutamente convencional do diretor não lhe dá nenhum brilho. É o que, inclusive, ocorre durante toda a projeção, em que Wallace não tem qualquer ousadia ou inspiração em nenhum enquadramento ou movimento de câmera.

Possivelmente, a única exceção seja mesmo o plano de conjunto que registra em um leve slow motion a entrada dos velhos mosqueteiros prontos para a luta contra os guardas de Luís XIV, rememorando as glórias que tiveram no passado. Mas esse é apenas um momento de brilho isolado em meio a um filme que transcorre de forma absolutamente medíocre. O roteiro nem parece escrito pelo mesmo Randall Wallace, que anos antes escrevera uma verdadeira obra-prima dos roteiros para cinema. Todos os personagens são rasos demais para que se compreenda por que fazem o que fazem. A motivação de D’Artagnan em sua fidelidade a Luís XIV parece um grande clichê retirado de qualquer filme tolo de aventura exibido em sessões vespertinas da TV aberta. Essa é só uma das soluções previsíveis e desgastadas do roteiro, que não compõe os verdadeiros sentimentos dos personagens. Mesmo o rei, que deveria ser o mais genuinamente vilanesco dos personagens (o maior monarca absolutista que já existiu) não consegue ir além de maneirismos surrados e esgares que não convencem a ninguém que já tenha saído da infância. Esse, certamente, não é o Luís XIV de Alexandre Dumas.

O problema, é bom que se diga novamente, não está com os atores, que até tentam salvar seus personagens da inexpressividade. DiCaprio provaria ser um grande ator nos anos vindouros (estamos falando de 1998). Os demais atores principais também salvam o que pode ser salvo em outros momentos. O personagem de Depardieu, por exemplo, garante um bom alívio cômico andando nu enquanto vai tentar se enforcar na madeira que Aramis havia propositalmente serrado. Ainda é possível sentir, pelo entrosamento e talento natural dos atores principais, que ali estão os carismáticos e heroicos mosqueteiros, por mais que a direção e o roteiro tentem boicotá-los a todo momento. A trilha sonora também poderia ser outro sustentáculo eficiente para O Homem da Máscara de Ferro, especialmente por se tratar de um filme épico e de aventura. Sempre foi um ponto de apoio em vários filmes congêneres, incluindo o próprio O Conde de Montecristo (incluindo a adaptação que viria quatro anos depois). Mas nem isso funciona no filme de Wallace. Saímos da projeção sem lembrarmos sequer de uma frase ou motivo musical dessa trilha.

Penso que esse seja mesmo o grande problema em adaptar preguiçosamente ao cinema uma obra do Romantismo literário. Por mais que se tente focar na face aventureira dessas histórias, só isso não bastará para construir um grande filme, uma vez que faltará o caráter passional dos protagonistas. É preciso dimensionar melhor quem são os homens, pelo que lutam, onde querem chegar e os sofrimentos que carregam. Caso contrário, os três célebres mosqueteiros serão apenas esboços pálidos dos grandes personagens que são e um novo e interessante personagem será apenas um homem com a face escondida por pesado apetrecho de metal. Se o quinteto de grandes atores merecia material melhor em mãos, o que dizer da adaptação que merecia um nome da envergadura de Alexandre Dumas.

O Homem da Máscara de Ferro (The Man in the Iron Mask – EUA, 1998)
Direção: Randall Wallace
Roteiro: Randal Wallace (baseado em obra de Alexandre Dumas)
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jeremy Irons, John Malkovich, Gérard Depardieu, Anne Parillaud, Judith Godrèche, Edward Atterton
Duração: 132 min.

Você Também pode curtir

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais