Crítica | O Homem de Areia, de Lars Kepler

Hannibal Lecter é um dos mais memoráveis vilões que Hollywood já produziu. Originalmente criado para os livros, ele aparece em Caçador de Assassinos, de Michael Mann, mas ficou eternizado na pele de Anthony Hopkins como o assassino canibal altamente perigoso e frio da trilogia composta por O Silêncio dos Inocentes, Hannibal e Dragão Vermelho. Há não muito tempo atrás, em meados de 2013, uma adaptação televisiva com o mesmo nome do longa de 2001 ganhou vida e trouxe Mads Mikkelsen como protagonista da trama. Nesse instante, estimados leitores, devem estar se perguntando “mas que cargas d’água Hannibal tem a ver com o livro da crítica?”. E eu vos respondo: tudo. Absolutamente tudo.

Criação de Lars Kepler, pseudônimo do casal de escritores suecos Alexandra e Alexander Ahndoril, O Homem de Areia narra mais um caso empreendido pelo policial Joona Linna, um experiente detetive altamente treinado e com faro investigativo tão apurado quanto de Sherlock Holmes ou Hercule Poirot. Ele investiga o reaparecimento repentino de Mikael Kohler-Frost, filho de Reidar Frost, um escritor de extremo sucesso na Suécia, que, ainda criança, havia desaparecido há 13 anos e já era considerado morto. O jovem foi uma das diversas vítimas de Jurek Walter.

O retorno da morte do jovem filho do escritor deixa todos que estiveram minimamente envolvidos com a prisão do serial killer intrigados. Mais do que isso, Joona Linna fica perturbado com essa reviravolta em um caso que, para ele, nunca esteve, de fato, finalizado. Em busca de respostas e para resgatar a irmã de Mikael, Felicia Kohler-Frost, que também foi sequestrada junto ao irmão e permanece mantida em cativeiro, nosso protagonista reúne uma equipe para investigar o caso e infiltra a agente Saga Bauer dentro da prisão psiquiátrica de segurança máxima onde Jurek Walter é mantido preso e isolado há mais de uma década.

E é conforme vamos avançando na história que fica possível compreender o porquê falo na proximidade entre Hannibal Lecter e O Homem de Areia. Porque Jurek Walter é Hannibal Lecter. Entretanto, não uma cópia fajuta e caricata, mas uma personagem que encarna algumas das melhores características do referenciado sem deixar de construir uma personalidade própria.

Assim como o doutor canibal, Walter é frio, calculista e parece sempre estar, pelo menos, alguns passos à frente de tudo e todos. Mesmo a situação aparentemente mais desfavorável parece estar totalmente sob seu controle. O que os difere, e muito, é a forma como seus planos são executados.

Ao contrário do requinte e sofisticação de Lecter, Walter é muito mais brutal, resistente e, quando necessário, vai para o combate direto, mostrando-se uma verdadeira arma letal em corpo humano. Sua presença povoa nosso imaginário de maneira tão intensa que não paramos de pensar em sua figura em momento algum. Mesmo quando outros núcleos da narrativa são explorados, achamos que ele aparecerá a qualquer momento (provando a qualidade de Kepler na construção do suspense).

Ainda que algumas personagens tenham uma contribuição quase nula durante o livro, dando a impressão de estarmos perdendo tempo em alguns poucos momentos, a maior parte da obra flui muito naturalmente e suas mais de 450 páginas passam incrivelmente rápido. Com capítulos extremamente curtos, sendo poucos que ultrapassam três páginas, o que contribui muito com a fluidez da trama, O Homem de Areia é um suspense policial que prenderá sua atenção do início ao fim, trazendo reviravoltas impressionantes e um fim completamente inesperado.

O Homem de Areia (The Sandman) — Suécia, 2012
Autor: Lars Kepler
Publicação original: Editora Albert Bonniers Förlag (sob o título Sandmannen), 2012
Editora: Alfaguara, outubro de 2018
Tradução: Guilherme Miranda
462 páginas

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.