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Crítica | O Homem de Chicago

O Secret Six contra o crime.

por Luiz Santiago
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O nome “Secret Six” tem uma origem jornalística. Cunhado pelo repórter americano James Doherty, do Chicago Tribune, o termo se referia a 6 influentes empresários de Chicago que organizaram uma frente de luta legal contra Al Capone e os mafiosos a seu serviço, lidando com casos de sequestro, extorsão, roubo e os muito conhecidos desvios de impostos. O grupo impediu que muita coisa fosse desviada e sonegada, conseguindo ainda com que uma grande quantia fosse restituída aos cofres públicos. Nesta 12ª edição da série Um Homem, Uma Aventura, publicada em 1977, o roteirista Giancarlo Alessandrini toma este fato histórico e o retrabalha com uma boa dose de mistério em torno dos membros do grupo, criando novas origens para eles e fazendo com que fossem usados por um “chefe oculto”, num cenário mais sombrio e viciado do que o real.

Há um certo fundo de E Não Sobrou Nenhum aqui, mas o enredo não intenta eliminar os personagens por crimes cometidos no passado. Ao contrário. O chefe oculto é um manipulador que utiliza dessas informações para empregar o sexteto como um grupo “eliminador de criminosos“. É uma relação opressiva, manipuladora, mas que serve a um propósito teoricamente benéfico para a sociedade: através das ações do sexteto, a cidade iria se ver livre de policiais corruptos e de gângsters. Dá uma boa discussão, não dá? A trama se passa em Chicago, em 1929, e o autor começa a sua narrativa com um excelente contexto histórico, falando da dinâmica dos “loucos anos 20“, citando o cinema, a sociedade, a música e os meses antes da quebra da Bolsa de Valores de Nova York como indicadores de uma Era que estava prestes a terminar.

Esta mudança prometida surge, ironicamente, também para os personagens do quadrinho; tanto para o chefe oculto, quanto para o sexteto. O roteiro não avança em nenhum tipo de discussão moral sobre eles, apenas expõe a situação de cada um, o que os levou àquele tipo de escravidão e como encontram o seu fim — ou chegam perto dele. Apesar de gostar muito do começo, o desenvolvimento da história não traz nada que seja imensamente chamativo ou inovador, mas o roteiro ganha um excelente impulsionador quando introduz um personagem chamado Mabuse. Aqui, o autor faz referência ao fantástico personagem criado pelo escritor Norbert Jacques e imortalizado pelo diretor Fritz Lang nos cinemas, com os filmes Dr. Mabuse, o Jogador (1922), O Testamento do Dr. Mabuse (1933) e Os Mil Olhos do Dr. Mabuse (1960) — vale dizer que houve outros filmes com o personagem, mas esses de Fritz Lang são os mais importantes.

Quando Mabuse aparece, a narrativa ganha uma força tremenda, justamente porque o homem é imbatível. Ele é um manipulador imparável, um exímio provocador, capaz de fazer com que as pessoas matem a si mesmas pelos mais absurdos descuidos. Mesmo que não haja uma preparação adequada ou um real propósito para a presença de alguém como Mabuse nesse tipo de aventura, a colocação dele aqui tem sim um grande impacto e é realmente muito boa. O que me frustrou foi o desfecho, pela maneira como esse homem tão inteligente se deixou levar pela vaidade e acabou encontrando um patético fim. Nos traços de Alfredo Castelli, o drama encontra uma boa representação estética, inclusive de movimentação dos personagens, de bons momentos de fuga e boas cenas de morte. Mas o final deixa um gosto amargo, consideravelmente aquém daquilo que esse tipo de trama poderia ter sido, especialmente se considerarmos quem o indivíduo por trás de tudo estava tentando imitar.

Un uomo un’avventura: L’uomo di Chicago (Itália, dezembro de 1977)
Roteiro: Giancarlo Alessandrini
Arte: Alfredo Castelli
No Brasil: Editora Tortuga (2022)
52 páginas

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