Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | O Homem de Palha (1973)

Crítica | O Homem de Palha (1973)

por Luis Eduardo Bertotto
1411 views (a partir de agosto de 2020)

SPOILERS!

A década de 1970 se mostrou muito produtiva para o cinema de terror, cujas obras exploravam diversas vertentes que tal gênero permite se desenvolver. Assim, uma destas vertentes foi o terror com temática sobrenatural, que por vezes se mesclava com assuntos ligados à religião, o que resultou em diversos trabalhos com atmosferas macabras e horripilantes. Se O Bebê de Rosemary abriu as portas para esta possibilidade de se fazer cinema, o sucesso de O Exorcista a consolidou. Porém, simultaneamente, diversas obras menores e não tão conhecidas buscaram fazer estudos encima de tal subgênero, como é o caso deste O Homem de Palha.

Lançado em 1973 (mesmo ano do clássico sobre exorcismo citado acima) e dirigido por Robin Hardy, o filme conta a história do sargento Howie (Edward Woodward), que é enviado para uma ilha da Escócia que abriga um vilarejo comandado pelo lorde Summerisle (Christopher Lee), onde supostamente uma garota desapareceu; porém, ao chegar lá, os habitantes da ilha afirmam que a menina jamais existiu. Enquanto investiga tal mistério, o sargento começa a perceber a existência de uma série de rituais extravagantes e costumes anormais por parte dos moradores, o que lhe causa surpresa e espanto.

Por mais que O Homem de Palha possua como propulsor narrativo a investigação da garota desaparecida, o roteiro escrito por Anthony Shaffer trata, essencialmente, de religião. Assim, a forma com que o roteirista trabalha com um tema delicado como este é fundamental para o funcionamento da narrativa: não de maneira escrachada, mas sutil, Shaffer faz uso de músicas e coreografias, máscaras e fantasias, rituais e até mesmo de educação escolar para construir e compor a cultura daquele vilarejo, cuja, diga-se de passagem, gira em torno principalmente de assuntos relacionados a sexo e reprodução. E isto não deixa de ser uma escolha corajosa do roteiro, pois tal tema era – e continua sendo – um tabu para muitas religiões mundo afora.

Porém, evidentemente, o roteiro contrapõe o paganismo dos moradores com o cristianismo do Sargento Howie, que fica apavorado perante o erotismo que presencia na ilha. Assim, quando este encontra o Lorde Summerisle de Christopher Lee, a crescente fúria com que o cristão exige que o líder da população local abra mão de seus costumes o transforma praticamente em um fanático religioso – o que é uma estratégia certeira do roteiro e da interpretação de Woodward, pois isto encontra ecos na intolerância religiosa muito vista nos dias de hoje.

Mas a construção do universo pelo roteiro de Shaffer é auxiliada pela direção de Robin Hardy, que também aposta em delicadezas para incrementar a cultura local, como quando o sargento Howie vai até a escola e apaga parte do quadro, cujo contém explicações do que significa cada uma das pedras que estão no local onde alguns eventos do filme se passam – um detalhe sutil que, para o espectador atento, enriquece ainda mais a narrativa. Mas é claro que Hardy (que dirigiu apenas três filmes em toda a sua carreira) também é eficaz ao construir um clima de suspense em torno dos habitantes e dos estranhos costumes da ilha, bem como em torno do próprio sumiço da jovem garota. Da mesma forma, a atmosfera de suspense é apoiada pela forma natural com que o diretor exibe certas situações ao longo da projeção, como por exemplo, o ritual mostrado momentos antes do primeiro encontro do sargento com o Lorde que comanda a ilha.

E por falar no líder do vilarejo, é em tal personagem interpretado por Christopher Lee que se encontra o grande destaque do elenco. O Lorde Summerisle do veterano ator sempre surge em cena imponente e seguro de si, bem como com um ar macabro e misterioso – e veja que, antes mesmo de sua primeira aparição, o roteiro é hábil ao construí-lo como uma figura poderosa e extremamente influente naquele lugar. Deste modo, é uma pena que o longa deslize ao deixar algumas pontas soltas sobre os planos arquitetados pela população local envolvendo o sargento Howie, cujas ficam evidentes após a revelação que o personagem de Lee faz no terceiro ato – afinal, como eles supostamente controlaram todas as ações do protagonista, sendo que algumas delas se deram pelo acaso? Também, como os habitantes da ilha sabiam tanto sobre a personalidade do sargento, como sobre sua castidade?

Portanto, O Homem de Palha nos apresenta um universo riquíssimo construído ao longo da projeção, contando ainda com um final impiedoso, irreversível e memorável. De fato, o filme é classificado como pertencente ao gênero de terror; porém, para alguns, pode parecer que careça ao trabalho características que o classifiquem como tal – mas talvez o verdadeiro horror esteja em algumas ações contestáveis dos personagens concebidos por Shaffer. Não causou o mesmo impacto e não é tão popular como as obras que citei no começo deste texto, mas é um filme envolvente e reflexivo que vale a pena ser conferido.

O Homem de Palha (The Wicker Man, Reino Unido, 1973)
Direção: Robin Hardy
Roteiro: Anthony Shaffer
Elenco: Edward Woodward, Christopher Lee, Diane Cilento, Britt Ekland, Ingrid Pitt, Lindsay Kemp, Russell Waters, Aubrey Morris, Irene Sunters, Walter Carr, Gerry Cowper
Duração: 88 minutos.

Você Também pode curtir

9 comentários

Andressa Gomes 25 de novembro de 2020 - 16:57

Hehehehe, resolvi procurar a crítica desse filme porque uma pessoa me recomendou. Confesso que fico extremamente tensa com essa coisa de religião e terror, porque são coisas que ao mesmo tempo que conhecemos, em muitos fatos é uma incógnita para nós.
Me lembro que me recomendaram o bebê de Rosemary e assisti o mesmo em 2019 se não me engano pela TV fechada e foi muito assustador, tanto que fiquei igual uma garotinha perto da mãe. Alguns debocharam de mim na época por muitos não verem tanto horror. Mas na minha opinião, essa atmosfera de conspiração é o pior tipo de terror para minha pessoa. Estou pensando seriamente se assisto ou não. Adoro a crítica daqui ❤

Responder
ricardo klass 16 de junho de 2020 - 18:26 Responder
Rafael Lima 11 de março de 2018 - 00:09

Ótima resenha!

Concordo com os pontos apontados, inclusive sobre a personalidade cada vez mais intolerante do protagonista, que lentamente vai conduzindo-o a tragédia. O interessante é que a atmosfera que o diretor constrói na ilha causa grande estranhamento tanto em nós quanto no protagonista, mas está longe de ser lúgubre ou artificial, muito pelo contrário. Fora que trata-se quase de um musical de terror. Hehehe

E o final, nem tem o que dizer. Seco e poderoso.

Responder
Luis Eduardo Bertotto 12 de março de 2018 - 00:08

Muito bem colocado Rafael, o filme é praticamente um musical de terror e o seu final é poderosíssimo…
Certamente, a atmosfera construída em torno da ilha e de seus habitantes é complexa e muito bem feita, garantindo que nós encaremos as estranhezas da mesma de maneira genuína, o que é fundamental para que o filme funcione.

Responder
Luis Eduardo Bertotto 12 de março de 2018 - 00:08

Muito bem colocado Rafael, o filme é praticamente um musical de terror e o seu final é poderosíssimo…
Certamente, a atmosfera construída em torno da ilha e de seus habitantes é complexa e muito bem feita, garantindo que nós encaremos as estranhezas da mesma de maneira genuína, o que é fundamental para que o filme funcione.

Responder
Paulo Roberto 6 de março de 2018 - 15:44

Aguardando a resenha de “O Sacrifício”, uma refilmagem catastrófica e ao mesmo tempo hilariante com Nicolas “urso” Cage.

Responder
Luis Eduardo Bertotto 7 de março de 2018 - 13:07

Olá, Paulo!
Conheço a refilmagem, mas ainda não cheguei a vê-la; porém, certamente vou buscar assistir ao filme e escrever sobre ele o quanto antes.
Abraço!

Responder
Luis Eduardo Bertotto 7 de março de 2018 - 13:07

Olá, Paulo!
Conheço a refilmagem, mas ainda não cheguei a vê-la; porém, certamente vou buscar assistir ao filme e escrever sobre ele o quanto antes.
Abraço!

Responder
Paulo Roberto 6 de março de 2018 - 15:44

Aguardando a resenha de “O Sacrifício”, uma refilmagem catastrófica e ao mesmo tempo hilariante com Nicolas “urso” Cage.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais