Crítica | O Homem do Terno Marrom, de Agatha Christie

Pegando carona na ação intensa que explorou dois anos antes em O Adversário Secreto (1922), Agatha Christie criou em O Homem do Terno Marrom uma outra saga de espionagem, mas dessa vez com contornos políticos um pouco mais frouxos (o que não quer dizer ruins, veja bem) e grande demonstração de apreço por algumas de suas paixões, como a arqueologia — algo que cultivava mesmo antes do casamento com Sir Max Mallowan — e viagens para lugares considerados “exóticos” — denominação que pelo menos até meados do século XX, poderia ser qualquer lugar que não fossem os países da Europa Ocidental e os Estados Unidos.

O livro acompanha a jovem Anne Beddingfeld, que após a morte do pai — um renomado arqueólogo sem dinheiro, tirada sarcástica da autora para a profissão — decide ir para Londres, ter uma vida agitada, cosmopolita, cheia de aventuras, algo bem diferente do que ela tinha na pequena cidade onde morava e onde revisava e datilografava todo o material teórico do pai, adquirindo aí um bom conhecimento da área, algo que seria bem importante para ela em sua jornada futura. Ao retornar de uma entrevista de emprego, Anne testemunha um homem se assustar e cair nos trilhos da estação Hyde Park Corner, morte que dá início àquilo que ela realmente procurava encontrar: uma grande aventura, especialmente após o médico que examinou o homem na plataforma ter saído correndo e deixando atrás um papel com a enigmática mensagem “17.1 22 Kilmorden Castle“.

Há uma boa semelhança entre Anne e Tuppence (de Adversário Secreto), assim como na base geral da trama, até mesmo nos pontos negativos (a extensão um tantinho maior do que deveria do livro e cenas de absurda coincidência, um pouco simpáticas porque a autora tinha plena consciência delas e tira sarro desses momentos no próprio livro). Todavia, o nível de ação e a costura da história em The Man in the Brown Suit são mais ricos e interessantes, partindo de uma posição de detetive amadora — Anne procurando algo diferente para sua vida e a partir de determinado momento, procurando ganhar algum dinheiro — e então ganhando os mares numa longa viagem de navio até a África do Sul, onde muita coisa acontece.

Historicamente falando, a obra representa com clareza o imaginário de certa classe social britânica (a da autora) para com a colonização e sobre o trabalho do povo negro nas colônias. Notem que a abolição da escravidão na Inglaterra (o Slavery Abolition Act, aprovado em 1833) passou a valer em 1834, tanto na Grã Bretanha quanto em suas possessões, mas isso não significava um tratamento exatamente preocupado e inclusivo no mercado para os negros, algo que vemos representado de maneira até bastante real nesse romance. No meio do caminho são citadas vendas de produtos artesanais e também o trabalho dos nativos em diversos ramos, inclusive nas minas de diamantes, além de bons detalhes sobre relações políticas e de classe em todo o livro, o que mostra um olhar consciente de Agatha Christie para o mundo em que vivia, algo que comprovamos, na verdade, desde o início de sua caminhada literária, em O Misterioso Caso de Styles.

Eu não diria que há um verdadeiro amadurecimento da protagonista aqui, apenas uma revelação de quem ela era de fato. Essa demonstração, todavia, está marcada de forma bastante curiosa pela mentalidade social de como se tratavam as mulheres nos anos 1920. É um pouco confuso analisar esses aspectos de expressão e visão da mulher e de como os homens as tratavam. Em certo momento, as declarações de Anne em relação ao bandido que a atrai parece um fetiche, de tão romantizada e dada ao prazer, mas ao mesmo tempo entendemos que esta não era a intenção da autora. A Rainha do Crime tinha um pensamento bem à frente, não temia colocar heroínas protagonizando algumas histórias, mas ao mesmo tempo se via reproduzindo certos ideais de época, o que é algo muito interessante de se observar na literatura. De todo modo, eu passaria muito bem sem alguns arroubos sentimentais da protagonista, especialmente no início, embora tenha me agradado o romance posteriormente desenvolvido, por ser algo que vemos acontecer organicamente no decorrer da obra, não apenas exposto de forma desengonçada, como em Assassinato no Campo de Golfe.

Após a apresentação da personagem e a chegada de sua orfandade, toda a narrativa se torna ágil, daquelas que o leitor tem pouco tempo para respirar. Esses pequenos momentos são conseguidos com os excertos do diário de Sir Eustace Pedler, que trazem bons trechos cômicos, mas nunca alheios ao restante da trama, de modo que o leitor está acompanhando algo mais leve e divertido, e ainda assim envolvido com a investigação, pois o diário nos apresenta um outro ponto de vista dos passos de diversos suspeitos. No jogo de revelações, o que me agradou aqui não foi a surpresa quando tudo se revela, mas a naturalidade com que certos personagens guiaram seus papéis, enquanto outros mudaram de lado ou fizeram um número bem grande de coisas suspeitas, nos desviando do verdadeiro ‘cabeça’ da operação. De um grande chefe do crime conhecido como O Coronel até peões disfarçados e pelo menos três camadas investigativas em voga (eu adorei o tratamento dado à trama dos grevistas), a autora nos entrega neste Homem do Terno Marrom um genuíno romance de aventura com investigação, da Europa para a África e da busca por uma vida agitada até conveniências absurdas que no final acabam sendo mais ou menos perdoadas pela grandeza do todo.

Em tempo: o Coronel Race, primo distante de Sir Laurence Eardsley, voltaria a aparecer em outros livros da autora, como Cartas na Mesa (1936), Morte no Nilo (1937) e Um Brinde de Cianureto (1945).

O Homem do Terno Marrom (The Man in the Brown Suit) —  Reino Unido, 22 de agosto de 1924
Autor: Agatha Christie
Editora original: Bodley Head
Tradução: Petrucia Finkler
Edição lida para esta crítica: L&PM (outubro de 2016)
304 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.