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Crítica | O Homem Errado

por Luiz Santiago
231 views (a partir de agosto de 2020)

O prólogo que o próprio Alfred Hitchcock faz neste filme — único cameo de sua filmografia em que ele fala alguma coisa — deixa claro para o espectador que esta é uma história baseada em fatos e o roteiro irá nos levar pelo inferno pessoal e jurídico de Manny Balestrero (Henry Fonda) que de um dia para noite viu sua vida transformada após ter sido confundido com um assaltante de lojas na região onde morava. Identificado pelas vítimas como sendo o bandido, preso e julgado, Manny atravessa aqui, juntamente com o espectador, um mar de angústia. E tudo piora quando temos em vista que ele de fato é inocente.

Temas caros ao diretor como o da falsa acusação a alguém ou o da importância psicológica na trama voltam a aparecer, reforçados por um medo bastante conhecido que Hitchcock tinha da polícia e pelo receio que sempre carregou em torno do princípio da presunção da inocência e de como isso é algo muito frágil dependendo dos agentes legais ou políticos em jogo. Em muitos de seus filmes, o diretor fez jogos acusatórios ou cercou personagens de crimes para poder explorar melhor esse lado, fazendo alguns estudos interessantes sobre quem comete e temporariamente escapa das mãos da lei e também sobre inocentes que parecem receber punições imediatas.

Notem que nos anos 1950, a maioria dos filmes do diretor tinham como essência esse tipo de tratamento. Vemos isso como foco do mistério de Pavor nos Bastidores a O Terceiro Tiro, passando por Pacto Sinistro, A Tortura do Silêncio e Disque M Para Matar. Neste O Homem Errado, encontramos a finalização desse ciclo em escala módica, já que o cineasta terminaria a década com dois títulos muito intensos e com um foco ou dinâmica que flertavam mais com outros caminhos dramáticos. Em todos esses casos, porém, vemos Hitchcock fazendo com que pessoas sejam arrancadas de seu cotidiano mais ou menos ordinário para uma cadeia de eventos que mudarão para sempre suas vidas, e nem sempre para melhor. O Homem Errado talvez seja o mais tocante e incômodo desses casos.

O diretor procura nos fazer entender o cotidiano de Manny e não demora para termos uma boa noção de sua ordinária e pacata vida. Ele é um indivíduo religioso, bem ligado à esposa e aos filhos, trabalha como músico e tem dificuldades financeiras, apesar de viver bem. Há um princípio de identificação do público com esse indivíduo e o prólogo do diretor já nos faz esperar pelo pior. Quando a acusação é feita e a prisão acontece, nossa identificação também gera um rápido sentimento de indignação frente às autoridades, e o diretor tem tudo em mãos para manipular esses sentimentos e intensificar o sofrimento, sem cair no melodrama. A interpretação de Henry Fonda nos indica um indivíduo em choque, mas o comportamento não é “gratuitamente paralisante”. Entendemos que faz parte da personalidade desse homem (porque o acompanhamos no início do filme) e em alguns momentos o diretor intensifica a brincadeira nos fazendo sentir uma espécie de “raiva” pelo personagem pela falta de uma reação mais enérgica frente àquilo que ele está passando.

E o filme corre bem diante desse mistério onde se discute questões jurídicas e prisionais, até que o roteiro faz um desvio do qual jamais consegue retornar. Numa das cenas marcantes da obra, contendo a quebra de um espelho, vemos quebrar-se também a sanidade de Rose (Vera Miles), a esposa de Manny, e se o filme já sinalizava uma série de problemas devido a essa condição emocional da mulher, a partir desse momento, uma parcela dos esforços do texto é direcionada a isso. Não bastasse a alteração da atmosfera, a maneira como se guia o julgamento de Manny é uma jornada parcialmente bagunçada e marcada por decisões abruptas, como se o filme se desligasse do mar de angústia no qual estava mergulhado para direcionar o olhar a diversos pontos do horizonte, quebrando a marcante imersão e finalizando com um ciclo à maneira cronista, que tem, todavia, uma aparência didática forte demais para ser ignorada.

Mantendo precisão dramática na primeira parte, cercando os fatos de maneira compassada e mostrando diferentes influências para as mais diversas pessoas ao longo dos estragos da falsa acusação, O Homem Errado não termina em uma nota feliz e nos faz pensar bastante sobre o mote de “justiça para todos“. Uma obra para ficar tenso e se indignar.

O Homem Errado (The Wrong Man) — EUA, 1956
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Maxwell Anderson, Angus MacPhail
Elenco: Henry Fonda, Vera Miles, Anthony Quayle, Harold J. Stone, Charles Cooper, John Heldabrand, Esther Minciotti, Doreen Lang, Laurinda Barrett, Norma Connolly, Nehemiah Persoff, Lola D’Annunzio, Kippy Campbell, Robert Essen, Richard Robbins
Duração: 105 min.

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4 comentários

Rafael Lima 19 de junho de 2020 - 15:23

Concordo com você que o filme cai bastante na segunda metade, mas acho a primeira sublime. E ao mesmo tempo que, como você bem disse, tem tudo a ver com as temáticas que tanto interessavam o diretor na problemática do “falso culpado”, é também uma desconstrução do que ele havia feito até então devido ao tratamento mais realista. Esse protagonista não vai fazer a polícia de trouxa e sair correndo em uma empolgante fuga pelo país. Não, esse protagonista acredita no sistema, que vai fazer muito pouco para ajuda-lo. Toda a sequência da prisão do Manny desde ele sendo levado pra longe de casa até perceber que está em uma cela é de uma angustia excrucitante. Pena que a metade final não fique a altura do que veio antes.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 19 de junho de 2020 - 15:46

Estou sentindo alguém alfinetando Os 39 Degraus ou é impressão minha? HAUAHUAHUAHUAHUAHUAHAUHAUAHUAHAUHA

Cara, essa fé do Manny no sistema é mesmo algo interessante aqui, traz um aspecto diferente de abordagem do diretor para a culpa e também para o trabalho da polícia. Ele também muda o foco de atenção do mistério em si para um ambiente mais pessoal, onde a nossa raiva impera, e que aos poucos a gente dirigir para diferentes agentes. É um filme muito doloroso de se assistir.

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Rafael Lima 22 de junho de 2020 - 12:52

Hahahahaha. Mais ou menos. Eu adoro “Os 39 Degraus”, mas “O Homem Errado” ainda que trabalhe com a mesma temática é a total antítese do filme britânico.

E de fato, a gente se pega sentindo raiva de um monte de gente no filme, e como você coloca na resenha, até do próprio protagonista em certo ponto pela falta de reação. E até da mulher do Manny pela “fraqueza” que ela apresenta (embora essa queda seja mal construída).

Em resumo, o que aprendemos com os filmes de Hitchcock. Confie na justiça e na lei, e você vai passar por uma experiência traumática e sua esposa vai terminar louca. Fuja da polícia, e viole muitas leis para provar a sua inocência, e você tem um final feliz.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 22 de junho de 2020 - 13:20

Esse tal de Hitch é a amizade que a nossa mãe dizia para a gente ter cuidado! HAUAHUAHAUAHUAHUAHAUHAUAH

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