Crítica | O Homem Invisível (1933)

estrelas 3

Fazer um filme como O Homem Invisível em 1933 não foi uma tarefa nada fácil. Além das sobreposições das imagens, os truques para esconder os fios que seguravam as roupas de Claude Rains e a inteligente forma de criar o homem invisível a partir de um chroma-key primitivo — com uso de veludo preto no corpo do ator ou dos dublês (porque Rains tinha claustrofobia do traje), que se colocavam à frente de um veludo também preto para que a cena fosse filmada, um processo combinado com a técnica de matte painting, onde se preenchiam as “máscaras opacas” da filmagem –, o longa ainda mostra ousadas cenas de acidentes com carros, trem e pessoas que complementam bem o escopo dos efeitos visuais e especiais deixando uma expressão no mínimo respeitosa no espectador.

Adaptação da obra de H.G. Wells, O Homem Invisível mistura elementos de terror, comédia e ficção científica, enquadrando-se na linha dos inúmeros filmes de “maravilhas medonhas e impossíveis” aos quais a Universal se entregou nos anos 1930. O diretor James Whale, conhecido pela forma elegante de abordar temas de caráter “B”, foi escolhido pelo produtor Carl Laemmle Jr. para dirigir a fita, tarefa que cumpriu com competência e transformou O Homem Invisível em um grande sucesso de bilheteria, o maior no (sub)gênero terror que a Universal teve desde 1931. Whale já havia provado seu valor em obras de terror e/ou ficção científica como Frankenstein (1931) e A Casa Sinistra (1932), portanto, sabia muito bem o tipo de produto que tinha em mãos. O seu único inimigo aqui eram as regras pré-definidas do estúdio para o que deveria ser o produto final.

Talvez este controle tenha gerado o ponto realmente fraco do filme, que muitas vezes cai em uma simplificação bipolar desinteressante, com a oposição clichê entre bem e mal, algo que a obra tinha de tudo para não ser. A própria criação de H.G. Wells apontava para algo mais profundo, trazendo à tona o drama de um homem que, perdendo a forma corpórea visível, tinha consigo o grande dilema filosófico das referências morais e éticas em sua vida. A pergunta fica: se alguém pudesse fazer qualquer coisa sem ser notado ou capturado facilmente, o que esta pessoa faria? Haveria um limite para suas ações? O roteiro de O Homem Invisível tenta visitar essas questões, mas a causa final acaba sendo uma experiência laboratorial mal sucedida, e esta é toda a justificativa para as ações maléficas do protagonista. Nada profundo demais, apenas uma reação química que desequilibrou mentalmente o protagonista.

A despeito desse elemento dispensável da fita, é importante ressaltar que estamos diante de um filme inteligente e plural em emoções. Da histeria cômica da senhora que gerencia o Hotel à risada maléfica do Dr. Jack Griffin (o homem invisível), os crimes horrendos que ele comete, a ineficiência também cômica da polícia e o suspense emotivo e intrigante visto nas poucas relações pessoais de Griffin, especialmente em relação a Flora (Gloria Stuart, a “Rose velha” de Titanic, aqui com 23 anos), o longa aborda seus temas de forma objetiva e possui na montagem um ritmo muitíssimo adequado. Algumas cenas até podem ser rápidas para o contexto geral, mas não há correria excessiva ou enrolação em cenas que nada acrescentam à história.

Mesmo que a trilha sonora não tenha uma tão bem pensada participação no filme (apesar de ter uma boa composição) e o elenco não seja exatamente maravilhoso, o filme agrada pela exploração ao menos razoável de seus elementos, no conteúdo ou na técnica, com destaque para os já citados ótimos efeitos especiais e a belíssima fotografia de Arthur Edeson, parceiro de James Whale em 4 filmes antes de O Homem Invisível.

Para um longa de 1933, esta adaptação da obra de H.G. Wells envelheceu muito bem. O espectador não consegue conter o riso ou balançar a cabeça em simpática desaprovação ao que vê na tela. A despeito de seu roteiro visivelmente guiado para um desenvolvimento e desfecho caros ao estúdio — ou seja, fácies demais, em contraste com o conteúdo do próprio filme — O Homem Invisível consegue se manter entre os notáveis longas de ficção científica, ou do horror relacionado à ciência, um casamento cinematográfico que já à época dava muitos frutos e que poucas décadas depois povoaria o cinema dos mais bizarros e numerosos monstros saídos do laboratório de algum cientista desajeitado ou mal intencionado.

O Homem Invisível (The Invisible Man) — EUA, 1933
Direção: James Whale
Roteiro: R.C. Sherriff (e as colaborações não creditadas de Preston Sturges e Philip Wylie).
Elenco: Claude Rains, Gloria Stuart, William Harrigan, Henry Travers, Una O’Connor, Forrester Harvey, Holmes Herbert, E.E. Clive, Dudley Digges, Harry Stubbs, Donald Stuart, Merle Tottenham
Duração: 77 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.