Crítica | O Homem Invisível (2020)

Bendita Blumhouse! Depois de tantas retomadas clássicas e produções originais que têm mantido o campo dos filmes de terror aquecido, O Homem Invisível chegou reforçar a possibilidade de alguns monstros do passado ganharem retorno com dignidade, adaptado para as necessidades contextuais das plateias contemporâneas, diferente do fiasco com Tom Cruise em A Múmia, bobagem voltada para os excessivos efeitos visuais, em detrimento das questões dramáticas. Como apontou Jason Blum em entrevistas para promoção do filme, a versão mais recente de H. G. Wells evita excesso de efeitos visuais, além dos clichês básicos dos filmes de horror, como teias de aranha e ambientes com aparência de abandono. O design de produção é bastante clean, contemporâneo, excessivamente iluminado e conectado com as tecnologias mais atuais.

O protagonismo voltado para Elisabeth Moss, juntamente com as questões apontadas, torna O Homem Invisível versão 2020 um acerto instantâneo. Trajada pelos figurinos de Emily Seresin, Cecília Kass (Moss) abre o filme numa trajetória in media res, isto é, alguém com uma história anterior que já adivinhamos pelo formato como a história é contada, num clima bastante próximo do suspense Dormindo Com O Inimigo. Troca-se Julia Roberts por Moss num desempenho dramático que mescla medo e pavor diante da sua maior ameaça, Adrian (Olivier Jackson-Cohen), seu companheiro que dorme enquanto ela planeja a fuga com passos calculados para não despertar o “monstro” do seu sono aparentemente profundo. Ela consegue. Ele reage. Há um breve embate, mas a sua irmã Emily (Harriet Dyer) consegue resgatar Cecilia de carro e um novo rumo para a personagem é estabelecido. Parece que tudo vai se encaminhar na vida da jovem mulher.

Por causa da relação conflituosa com a irmã, Cecilia vai passar algum tempo com James (Aldis Hodge), um policial extremamente simpático e acolhedor, pai de Sydney (Storm Reid), adolescente que em alguns momentos flerta com situações humoradas para ajudar a heroína amargurada na sua caminhada para a vitória diante de tanto trauma e dor. Ela é a representação cabal da mulher oprimida por relacionamentos nocivos, aquelas que acompanhamos diariamente nos noticiários, perseguidas por homens misóginos que não aceitam suas decisões no que tange ao encerramento das relações. O destino de Cecília e de suas correlatas na realidade é único. Sofrer com as lembranças ruins e sentir-se ameaçada por forças que podem não estar fisicamente ao seu redor, mas que surgem como fantasmas aparentemente à espreita. Um horror que apenas quem vive sabe do que se trata. Uma realidade abominável que infelizmente é tema cotidiano nos noticiários.

Cecília tem medo de caminhar na rua, teme até mesmo sair para pegar as correspondências na caixa que fica defronte à sua moradia temporária. Ao ser noticiada sobre a morte de Adrian, uma brevíssima tranquilidade toma a sua vida, logo modificada com a sensação de que há uma sucessão de acontecimentos estranhos que comprovam uma realidade que apenas Cecilia parece perceber. Adrian não está morto. Premiado cientista em estudos óticos, a sua pesquisa mais recente envolve a possibilidade de se camuflar. Será como Kevin Bacon e sua invisibilidade no corpo físico, ou como Griffin da versão de 1933, cheio de bandagens, ou algum traje que permite isso? Há também o possível twist sobre a loucura da personagem diante do assustador cenário de insanidade em que está mergulhada. Será preciso assistir para constatar.

Que dá a notícia do suposto suicídio de Adrian é o seu irmão Tom (Michael Dorman), porta-voz da herança de U$5 milhões que Cecilia recebe, esmola que deve ser encarada com muita desconfiança, principalmente depois que e-mails são enviados de sua caixa de mensagens, pessoas são agredidas bem diante da abalada mulher, dentre outras estranhezas que nos faz mergulhar no clima de horror e mistério dirigido por Leigh Whannell, também responsável pelo roteiro, oriundo do já citado ponto de partida, o romance homônimo de H. G. Wells, clássico da ficção científica publicado na virada do século XIX para o XX, material com tópicos temáticos que dialogam organicamente com as celeumas da contemporaneidade.

Para o bem ou para o mal, o roteiro traz duas reviravoltas no desfecho que mexem com as nossas expectativas comuns. Esperamos uma história linear, com início, meio e fim em medidas exatas, na fuga, embate e regozijo da heroína, onde o bem acaba com o mal e as coisas adentram a zona de conforto. A história segue um pouco estes passos, bem característico da era #metoo, com mulheres colocando homens opressivos e manipuladores em seus devidos lugares. Longe da possível anacronia se mantivesse o tom da tradução intersemiótica de 1933, O Homem Invisível tinha bastante potencial para ser, digamos, um resgate excepcional do clássico. Consegue fazer dar certo, mas a edição poderia priorizar mais dinamismo em algumas passagens, bem como o roteiro, um texto que permitia mais profundidade psicológica.

Para quem se recorda da versão não creditada do romance de H. G. Wells dirigida por Paul Verhoeven em 200, tendo Kevin Bacon como o homem nada virtuoso do roteiro, os efeitos visuais eram tópicos das pautas de análise fílmica mais comentados em relação à narrativa, haja vista algumas novidades estonteantes no campo da visualidade para a época. Desta vez, os efeitos da equipe de Jonathan Dearing fazem um excelente trabalho, mas a produção não fica refém deste setor. O ponto alto aqui é a formidável direção de fotografia de Stefan Duscio, focada na aritmética de cada plano, no movimento de cada enquadramento, no deslocamento dos personagens diante da ameaça que não se vê, mas se pressente. A profundidade de campo e a iluminação também trabalham em prol do aumento da tensão, sem necessidade de jumpscare em excesso.

Ainda na seara dos elementos de construção que vão além da dramaturgia, a trilha sonora de Benjamin Wallfisch é um dos pontos mais altos da produção. Com uso rítmico atordoante, a composição repleta de cordas é uma grata e atualizada homenagem ao som de Bernard Hermann em Psicose, o clássico absoluto de Alfred Hitchcock. O tema de Cecília, acompanhado por violoncelos e alguns toques de piano mesclam o horror e o drama de sua situação opressiva. Para o monstro da história, Wallfisch trouxe sons eletrônicos pesados, voltados para a força maligna do personagem dotado da visibilidade portátil assustadora. É uma composição musical conduzida diante dos personagens que atravessam os espaços erguidos pelo design de produção de Alex Holmes, bastante contemporâneo, sem tons comuns para este tipo de narrativa, tais como ambientes assombrados, teias de aranha, portas rangentes, etc.

Ademais, a recepção sadia do filme entre o público e a crítica permite que já se discuta um resgate de outros monstros clássicos do cinema, todos em diálogos com o contexto histórico atual, tomado por crises já comuns à existência humana desde sempre. Dor, trauma, tristeza, violência, opressão, machismo, etc. São temas que fazem parte das nossas vidas há eras, alguns tratados em O Homem Invisível trazido para 2020 e tópicos que provavelmente emergirão das próximas narrativas sobre criaturas aberrantes do cinema.

O Homem Invisível (The Invisible Man) — Estados Unidos, 2020
Direção: Leigh Whannell
Roteiro: Leigh Whannell
Elenco: Elisabeth Moss, Storm Reid, Aldis Hodge, Harriet Dyer, Zara Michales, Oliver Jackson-Cohen, Nash Edgerton, Bianca Pomponio, Anthony Brandon Wong, Benedict Hardie, Serag Mohamed
Duração: 110 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.