Crítica | O Homem Invisível, de H. G. Wells

Ao longo de nossa extensa tradição narrativa, a invisibilidade esteve presente em muitos momentos de conflitos entre personagens e suas necessidades dramáticas. Como deixa claro o personagem principal de O Homem Invisível, clássico de H. G. Wells, “um homem invisível é um homem que tem poder”. Hades sabia muito bem disso quando recebeu esse poder e com as suas oportunidades, roubou as armas de seu pai, Cronos, para juntamente com Poseidon e Zeus, ambos com tridente e raios, dominar “a cena grega”. Desprotegido, o pai do trio de deuses perde o comando segundo os registros históricos da mitologia na antiguidade. Guy de Maupassant e Fitz James O’Brien, autores de Horla e Whats Was It, respectivamente, flertaram com o tema poucos anos antes de H. G. Wells, o que nos leva a imaginar que haja elementos dessas obras a ressoar na invisibilidade do personagem central do romance em questão.

Publicado originalmente numa revista, no formato serializado, O Homem Invisível tornou-se romance no mesmo ano de veiculação jornalística. A trama segue o padrão in media res, isto é, começa com os acontecimentos já em andamento, explicitados aos poucos, ao passo que a história avança. Griffin, petulante e muito impaciente, chega na pequena cidade de Iping e se hospeda na Coach and Horses, pousada frequentada por pessoas curiosas, sedentas em descobrir o que há por detrás do misterioso homem coberto por bandagens, chapéu, luvas e outros adereços que escondem algo a ser desvendado. Ele é taxativo, não rende muita conversa e pede um quarto onde não seja incomodado por ninguém, numa busca obsessiva por privacidade, haja vista a sua condição que somente nós, leitores, sabemos.

A sua presença assusta as pessoas que não compreendem o seu jeito exótico de se comportar. Egoísta e um tanto grosseiro, Griffin se revela um hóspede pouco agradável de se recolher. Mas, afinal, quem é esse cara? Somos informados pelo narrador que ele é subversivo e possui temperamento difícil, mas o que o tornou assim? Será o efeito colateral do soro que o transformou em um homem sem visibilidade? Sim, é isso também. Com o tempo, no entanto, o que era curiosidade se metamorfoseia para medo e pavor e a proposta é eliminar a figura misteriosa, algo típico da sociedade ainda hoje, ceifadora de qualquer coisa que seja diferente do que é definido como parte integrante dos padrões.

O que vamos saber é que ele é um cientista responsável por um experimento envolvendo a invisibilidade, tendo como conflito o fato de não encontrar o antídoto para reverter o processo. A sua pesquisa sobre sistemas óticos avançou para uma etapa onde o cientista conseguiu modificar o índice de refração do corpo, para assim, não absorver nem refletir luz esse tornar invisível. A estrutura narrativa busca manter algumas relações com elementos da realidade, em especial, os lugares por onde Griffin circula ou conta que já circulou, numa estratégia do autor em dar maior veracidade aos relatos e aproximá-lo de ambientes e situações de conhecimento do público leitor.

H. G. Wells, em sua longa a badalada carreira de escritor, teve várias experiências anteriores que colaboraram com a sua formação cultural. Foi Farmacêutico durante um período, logo depois, assumiu a vaga de Professor Assistente da Midhurst Grammar School. Das Crônicas Argonautas, após modificações constantes, o escritor transformou no clássico A Máquina do Tempo, conquista seguida do diploma em Zoologia e Geologia pela Universidade de Londres. Os seus clássicos, todos transformados em filmes, começam a se enfileirar: A Ilha do Dr. Moreau, em 1896, O Homem Invisível, em 1987, e A Guerra dos Mundos, em 1898. Com postura visionária, H. G. Wells prenunciou questões como as guerras nucleares, além de outros tópicos polêmicos no campo da ciência, como a ética na manipulação de animais.

O projeto editorial da edição comentada da Editora Zahar é um excelente trabalho de veiculação de obras clássicas para o público contemporâneo. A capa assinada por Rafael Nobre, parte integrante da Babilônia Cultural Editorial é bastante informativa e com elementos atrativos por conta de sua encadernação sofisticada. As notas e traduções da dupla formada por Alexandre Barbosa de Souza e Rodrigo Lacerda resolvem algumas incongruências dos desdobramentos de alguns acontecimentos ao longo dos 28 capítulos, seguidos de um epílogo. A edição ainda traz um prefácio intitulado As Desvantagens de Ser Invisível, de Thiago Lins, reflexão elucidativa ao nos apresentar o conteúdo do romance em paralelo aos temas da carreira literária de H. G. Wells. Tradutor e com vários projetos para o Instituto Moreira Salles, o prefaciador é detalhista, sem deixar a sua apresentação cansativa, num mergulho que nos deixa ainda mais interessados em mergulhar na seara narrativa do livro, empolgante e cheio de diálogos bem construídos.

O legado do autor e de seu personagem é parte integrante da boa recepção do livro em simbiose com a tradução intersemiótica para outros suportes narrativos, em especial, o cinema, campo de produção que em 1933, integrou o icônico Griffin como parte integrante do Ciclo de Monstros da Universal. Continuações, versões livres, paródias, séries televisivas, adaptações não creditadas e outras formas de reaparecer na mídia fizeram de O Homem Invisível um clássico erguido pela força da cultura pop e seus processos reprodutivos. A versão mais recente, por exemplo, utiliza a invisibilidade para alegorizar a violência enfrentada por mulheres em seus relacionamentos abusivos, um mal que pode estar à espreita em qualquer lugar. Ademais, a adaptação para HQ por Allan Moore atualizou Griffin para o público mais recente, versão que também ganhou olhar cinematográfica no filme A Liga Extraordinária, com Sean Connery.

O Homem Invisível (The Invisible Man/Estados Unidos, 1897)
Autor: H. G. Wells
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza, Rodrigo Lacerda
Editora no Brasil: Zahar (2017)
Páginas: 200

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.