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Crítica | O Homem Mosca (1923)

por Fernando JG
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A facilidade, e a felicidade, com que Harold Lloyd se diverte atuando, e atua como se brincasse em cena, é impressionante. Com direção de Fred C. Newmeyer e codireção do roteirista, Sam Taylor, o filme vai da comédia ao drama, do humor ao romance com muita inteligência e capricho. A escolha do argumentista em tratar da comédia no percurso de uma odisseia é extremamente inteligente e relembra os primórdios da comédia ainda enquanto gênero literário, como em Cândido, ou O Otimismo, de Voltaire. A propósito, os enredos são bem parecidos, e não duvidaria de que Sam Taylor tenha lido o Cândido e nele tenha se inspirado para construir as viagens e os desarranjos de Harold, o protagonista – também apelidado de O Garoto. 

O filme conta, ainda, com a participação de Mildred Davis, que acabou se casando com Lloyd logo após as filmagens. Ela está ótima no filme e sempre aparece na hora exata, oferecendo uma dose de inocência no meio de tanta malícia, mentiras e trapaças, contrapondo o ritmo frenético e malandro de seu namorado. As cenas do filme, do começo ao fim, se fazem memoráveis pelos inteligentes insights, pela atuação de Lloyd e pela forma como a direção opta por trabalhar a comédia, utilizando de todos os artifícios possíveis para produzir o humor, que funciona brilhantemente. A movimentação de câmera também contribui para a produção do riso e basta lembrar da cena de entrada para confirmar essa hipótese: ao início, vemos, em um plano fechado, Lloyd atrás das grades.

Do outro lado das grades, está sua namorada e família o consolando por um motivo que ainda não sabemos. Repentinamente, o plano se abre e vemos que, na verdade, Lloyd não estava preso, mas, sim, do outro lado da plataforma de trem, que é dividida por grades do chão ao teto. Neste momento, a direção faz uma transição surpreendente, indo do drama à comédia. Toda a primeira cena é hilária e o filme avança com doses refinadas de humor mudo. A atuação de Lloyd, de como-quem-não-quer-nada,  ajuda o filme a ter um impulso ainda maior.

Essa ideia do homem sair do campo para tentar a vida na cidade grande, e chegando lá atrapalha-se todo em confusão, é típica dessa fase pré-era de ouro do cinema norte-americano. Na comédia em questão, Harold é um mentiroso de mão cheia, enrolado, que se perde na própria mentira. No momento em que toda essa máscara ameaça cair – já que Mildreds sai do campo para ir visitá-lo de surpresa, assim, com o risco de acabar descobrindo tudo -, Lloyd tenta compensar a mentira com outra mentira, criando uma bola de neve. Billy Liar (1965), de John Schlesinger, repete esse mesmo roteiro e faz uma obra-prima da comédia inglesa quarenta anos depois. 

Um aspecto interessante do filme é a sua estrutura: ele tem diversos pré-clímax. A todo momento, ele, Harold Lloyd, é “quase” desmascarado. É sempre uma situação limítrofe, em que parece que seu plano vai dar errado. Mas ele sempre se safa, dando combustível para a narrativa. O fato é que todos esses pré-clímax contribuem para o clímax, que é a escalada do edifício. Na cena final, em que Lloyd, depois de se enrolar tramando mais uma malandragem, acaba tendo de escalar um arranha-céu, a trilha faz um papel integrador, e é possível sentir a tensão e o suspense que o momento exige. A cena em questão, do protagonista pendurado em um relógio no ponto mais alto do edifício, é um clássico e foi rememorada em A Invenção de Hugo Cabret (2011). O ato final impressiona pelas belíssimas imagens suspensas, evidenciando a altura de onde Lloyd está pendurado. 

A tradução do título tenta captar alguma essência, dada a última cena em que Lloyd parece estar se agarrando, voando pelo edifício acima. Mas não achei interessante e não acho que condiz com o filme. No inglês é “Safety Last!”, uma brincadeira com a expressão “Safety First”. O longa brinca com a ideia de “Segurança em primeiro lugar”, levando-o para “Segurança em último lugar”, dado o perigo que o personagem correu ao escalar o edifício. A tradução brasileira não vinga.

O longa é rápido e diverte, sobretudo, pela narrativa em estilo corrido, veloz, típico da comédia. Diverte em todos os momentos pelas sacadas inteligentes, pelas piadas visuais e pelo ótimo entrosamento entre Lloyd e a direção do filme, que encerra um enredo completo, fechado, em 70 minutos de rodagem.

O Homem Mosca (Safety Last! EUA, 1923)
Direção: Fred C. Newmeyer, Sam Taylor
Roteiro: Hal Roach, Sam Taylor, Tim Whelan
Elenco: Mickey Daniels, Earl Mohan, Fred C. Newmeyer, Harold Lloyd, Mildred Davis, Noah Young, Sam Lufkin
Duração: 70 min.

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2 comentários

Kevin Rick 2 de fevereiro de 2021 - 13:01

Eu tive uma época uns anos atrás que fiquei viciado nessas comédias slapstick, com filmes do Lloyd, Buster Keaton e Chaplin. Eu sinto uma tremenda ansiedade vendo os stunts e as cenas cômicas perigosas. Essa do relógio em questão que você cita, é sensacional! Para mim, só perde para a casa caindo no Keaton (só de pensar, credo…)

Bela crítica, meu caro! Bateu uma vontade de rever obras do gênero hehehe

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Fernando JG 2 de fevereiro de 2021 - 13:29

Muito obrigado, Rick! Eu acho todos os três divertidíssimos. Assisti bastante numa época em que meu pai via muito Mazzaropi, aí eu acabava vendo essas comédias dos anos 20 porque as vezes vinha num combo junto *banquinhas de dvd pirata nos anos 2000*. Keaton é um viciado em fazer cenas assim, hora ou outra ele traz uma bizarrice dessas, as vezes sem dublê, sem nada hahahahahahahaha.
Reveja! É bom rir um pouco nesses tempos!

Abraço!

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