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Crítica | O Homem Que Matou Dom Quixote

por Luiz Santiago
423 views (a partir de agosto de 2020)

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Do momento em que o diretor Terry Gilliam leu Dom Quixote, em 1989, até o lançamento oficial do filme, em maio de 2018, muita coisa ruim aconteceu. Diante de tantos inícios, cancelamentos, reinícios, novos cancelamentos, falsos inícios e inúmeros problemas de produção, o amaldiçoado projeto de Terry Gilliam enfim viu a luz. Para quem deseja saber mais sobre o segundo processo de produção do longa iniciado em 1998, vale muitíssimo a pena assistir ao documentário Perdido em La Mancha (2002), onde todos os dissabores possíveis que podemos imaginar para uma produção cinematográfica, de desastres naturais a doença do protagonista, aconteceram. Mas este é apenas um capítulo da saga quixotesca do próprio Gilliam para realizar o seu sonho de dirigir O Homem Que Matou Dom Quixote.

Resultado do fracasso da produção de 1998, os direitos do filme ficaram nas mãos da seguradora. O passo seguinte do diretor foi reaver esses direitos, algo só concluído em 2008, embora o artista viesse trabalhando nisso desde 2003, inclusive entrando em contato com atores, atrizes e equipe técnica para a “nova-nova produção de Quixote“. Houve uma terceira tentativa em 2010: não foi pra frente. Houve uma quarta tentativa em 2014: não foi para frente, dessa vez, por outro problema de saúde de um personagem principal: John Hurt. Houve uma quinta tentativa em 2016, que não foi para frente por divergências hercúleas entre Gilliam e o produtor português Paulo Branco, num processo que rendeu acusação à equipe de produção do filme por ter danificado um Convento considerado patrimônio histórico pela UNESCO. A investigação acabou dando em “danos insignificantes”, mas as filmagens foram interrompidas ali.

Apenas em 2017, vinte e sete anos anos depois da primeira tentativa, Terry Gilliam realmente conseguiu produzir e filmar O Homem Que Matou Dom Quixote, agora com Jonathan PryceAdam Driver nos papéis de Quixote e Toby/Sancho Pança, respectivamente, ambos com interpretações dignas de se aplaudir de pé. Em essência, o roteiro segue a base da produção iniciada em 1998, inspirado em Um Ianque Na Corte Do Rei Artur, de Mark Twain, e que Gilliam escreveu ao lado de Tony Grisoni. Na trama, Toby é um cínico publicitário considerado um gênio em sua área, mas que se vê atacado por uma crise de criatividade. Ele está filmando um comercial na Espanha, onde já estivera, muitos anos antes, fazendo um projeto para a Universidade. O nome desse seu projeto da juventude? O Homem Que Matou Dom Quixote. Já no primeiros momentos o diretor usa marcantes estilos da música tradicional espanhola, para guiar sequências marcantes e também o que trazem de consequência para os personagens, especialmente em momentos de teor cômico (a essência do filme) e romântico.

Para Terry Gilliam, Quixote não foi apenas o seu “filme dos seus sonhos”, mas também uma maneira de experimentar coisas novas como diretor. Desta vez, estamos diante de seu primeiro filme rodado em digital e de seu primeiro filme capturado por lentes anamórficas, uma empreitada visual da qual o cineasta fez um excelente uso, fortalecendo a interação de personagens ao mesmo tempo contemporâneos e que nos remetem aos romances de cavalaria, mais os grandiosos cenários das Ilhas Canárias, Castilla-La Mancha e Navarra, em Espanha, e do Convento de Cristo, em Tomar, Portugal. Envolvido no projeto desde a versão de 98, o fotógrafo italiano Nicola Pecorini nos mergulha em Universos fantasiosos dominados pelas mais diversas paletas de cores e presença de luz, espaços que ora abraçam a realidade, ora enganam público e os personagens diante de sua característica alucinatória. E coroando essa pintura em luz temos a direção de arte e os figurinos, que se destacam especialmente nas cenas dentro do “castelo”, onde as grandes provações de Dom Quixote acontecem.

Há uma forte conexão temática entre este filme e Oito e Meio, de Fellini, tanto na proposta metalinguística aliada às ilusões e alucinações mais as questões sociais, laços amorosos e valores pessoais e artísticos que parecem mudar a cada sequência. Isso ocorre porque o roteiro não nega em nenhum momento a sua proposta de integrar visões da realidade, como uma espécie de matrioska fílmica, onde um sapateiro espanhol que acredita ser Dom Quixote entra na vida de um publicitário-estrela e faz com que um projeto de filmagens conheça um atraso cronograma, indisposição de elenco, problemas de financiamento e pressão dos Executivos. Igualzinho ao que aconteceu com o próprio Terry Gilliam. O filme é provocativo em uma grande quantidade de sentidos e se vende sozinho como uma crônica fantasiosa sobre o processo de produção cinematográfica (mas pode ser de qualquer arte em que o artista não consegue realizar e/ou divulgar seu trabalho sozinho), sobre a concepção de uma boa história e sobre sonhos pessoais.

O espectador precisa entender que não se trata de um filme comum. Estamos falando de Terry Gilliam, certo? A proposital loucura e a liberdade criativa do diretor seguem em alta e nos traz não uma adaptação fiel do famoso livro de Miguel de Cervantes, mas uma leitura que, sem dúvida nenhuma, captura a alma do livro. Algumas “corridas para a liberdade da mente“, no miolo da fita, até poderiam ser facilmente cortadas da edição, mas esta é uma observação zelosa demais frente à organicidade, o que não atrapalha o andamento do filme, embora tire algumas lascas de seu brilho. Se alguém algum dia perguntar “por quê” filmar Dom Quixote e “por quê” logo em uma Era onde novos representantes da loucura e da fantasia são tão mais atrativos para o grande público, que seja mostrado esse filme como justificativa. A jornada de um homem que quanto mais louco e que quanto mais sofre, mais gostamos dele. A jornada de um sonhador. Alguém com quem dividimos, ao menos por um momento, a forma infantil e criativa de olhar o mundo. O olhar nada comum de Terry Gilliam para aquele que envelhece, aquele que imagina, aquele que cria. Já a racionalidade que não permite a viagem para este mundo é a entidade incapaz de incorporar o fantástico em sua persona. A verdadeira identidade do homem que matou Dom Quixote.

O Homem Que Matou Dom Quixote (The Man Who Killed Don Quixote) — Espanha, Bélgica, França, Portugal, Reino Unido, 2018
Direção: Terry Gilliam
Roteiro: Terry Gilliam, Tony Grisoni
Elenco: Adam Driver, Jonathan Pryce, Stellan Skarsgård, Olga Kurylenko, Joana Ribeiro, Óscar Jaenada, Jason Watkins, Sergi López, Jordi Mollà, Diogo Andrade, Eva Basteiro-Bertoli, Paloma Bloyd, Jorge Calvo, Jimmy Castro, Maria d’Aires
Duração: 132 min.

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30 comentários

Felipe Augusto 15 de março de 2020 - 22:50

Achei sensacional, o filme mais engraçado do Gilliam q já assisti, me diverti mto! Jonathan Pryce tá soberbo, q ator fantástico, entrega um Quixote apaixonante, divertido e dramático, nos faz rir e se emocionar mto. Adam Driver ótimo tbm. Achei o filme mais pé no chão dentre os q já assisti do diretor, o q não quer dizer q não seja louco rsrs. Enfim, tinha tempo q não me divertia tanto com um filme, gostei muuuuuito!

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 16 de março de 2020 - 13:21

Um filmaço mesmo, daqueles coisas insanas e maravilhosas que a gente ficar besta quando termina a sessão…

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Alessandro 3 de fevereiro de 2020 - 10:24

Eu gostei do filme, com algumas reservas. A dupla Adam Driver e Jonathan Price está excelente, principalmente o segundo que encarna com perfeição a loucura do protagonista. O filme começa bem, mas do meio para o final para mim ficou muito delirante a ponto de tornar-se inverossímel -acho que Gillian sempre peca pelo excesso. De qualquer forma, vale a pena ver.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de fevereiro de 2020 - 11:48

O delírio faz parte não apenas da composição dos personagens envolvidos e do Universo que o inspira, como também da própria identidade/estilo do diretor. Para mim, estava maravilhosamente dentro do esperado.

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Reinaldo Barbosa 13 de junho de 2019 - 20:25

Creio que esse filme demorou para ser filmado devido à intervenção sobrenatural do fantasma invejoso de Lope de Vega, rival de Cervantes.Embora na época Vega fosse bem mais sucedido do que Cervantes (escreveu mais de mil peças de teatro), ao longo dos séculos sua fama foi sendo eclipsada pela de Cervantes.

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Luiz Santi🐂GADO 13 de junho de 2019 - 21:05

Na verdade foram problemas de grana mesmo, juntamente com desastres naturais, com atores doentes no processo, problemas jurídicos, e mais uma porrada de outros problemas. Sugiro fortemente que veja o documentário Perdido em La Mancha (2002).

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Big Boss 64 13 de junho de 2019 - 20:01

“O espectador precisa entender que não se trata de um filme comum. Estamos falando de Terry Gilliam…”

Porra, até hoje não entendi se o que aconteceu em “Brazil” era um sonho do protagonista ou não.

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Luiz Santi🐂GADO 13 de junho de 2019 - 20:01

Pois é! Gilliam não veio pra brincar não! O cara bagunça nossa cabeça mesmo.

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Big Boss 64 13 de junho de 2019 - 19:33

Maldito Terry Gilliam que só confia em gente errada.

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Luiz Santi🐂GADO 13 de junho de 2019 - 20:02

Ele é campeão nisso.

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Jose Claudio Gomes de Souza 6 de junho de 2019 - 21:32

Assisti ao filme acho q no início do ano e achei maravilhoso. Aliás, como tudo do Terry Gillian. E apesar de não ser fã do Adam Driver, reconheço o trabalho excelente dele no filme.

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Luiz Santi🐂GADO 6 de junho de 2019 - 23:55

Ele está ótimo nesse filme, que é realmente uma coisa linda de se ver!

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vince 5 de junho de 2019 - 19:15

Eu achei que esse filme nem ia sair é incrível como o Terry Gillian se lasca e tem problemas com os filmes dele desde Brazil e as Aventuras do Barão Munchausen passando por perder o Heath Ledger no Dr Parnassus e finalmente todo o imbróglio para gravar esse Don Quixote mas pelo menos saiu finalmente e vou poder assistir mais uma doidice desse cara.

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Luiz Santi🐂GADO 5 de junho de 2019 - 19:47

E vale a pena, viu!

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Cahê Gündel 5 de junho de 2019 - 18:11

Esse filme já entrou em cartaz ou entrará na quinta? Aqui em Porto Alegre não vi ele em lugar nenhum e na internet não tem muita informação sobre (!!!), só o que falta ficar na mão como fiquei com Suspiria.

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Luiz Santi🐂GADO 5 de junho de 2019 - 19:47

Entra nos cinemas na quinta-feira! A distribuição nacional é feita pela Elite Filmes, então pode ser que entre em circuito bem menor do que se fosse por outra distribuidora.

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Érica Pazzi 5 de junho de 2019 - 13:02

Nossa eu esperei muito esse filme… Depois com todas as notícias de cancelamento acabei esquecendo dele.
Obrigada por me lembrar vou ver com certeza.

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Luiz Santi🐂GADO 5 de junho de 2019 - 13:12

Veja sim! Eu também estava na espera por esse filme há tanto tempo! É muito bom ver a obra enfim pronta!

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Érica Pazzi 5 de junho de 2019 - 13:32

Já está na lista do fds

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Luiz Santi🐂GADO 5 de junho de 2019 - 13:33

Divirta-se!

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Érica Pazzi 5 de junho de 2019 - 13:33

Obrigada

Abduljamais 5 de junho de 2019 - 10:51

Não é o lugar apropriado, mas…
… cadê a crítica a Chernobyl?
Que série! Que direção! Que trilha (angustiante como deve ser nessa série)!
Merece uma atenção adequada e a avaliação de voces

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Luiz Santi🐂GADO 5 de junho de 2019 - 12:18

Em breve.

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planocritico 5 de junho de 2019 - 12:31

Chernobyl não terminou de ir ao ar no Brasil. Isso acontecerá na sexta. A crítica sai no dia seguinte.

Abs,
Ritter.

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Caio Xaua 5 de junho de 2019 - 10:51

Vai ter crítica de Brightburn?

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Luiz Santi🐂GADO 5 de junho de 2019 - 12:18

Vai, mas não por agora.

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CrazyDany 5 de junho de 2019 - 23:38

Devo confessar que também estou com uma imensa curiosidade algo mórbida de ler a crítica do PC sobre esse filme

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William O. Costa 31 de outubro de 2018 - 13:24

Baita crítica! Eu estava extremamente curioso com a qualidade desse filme, e como eu fico feliz em saber que ele é realmente bom. Cheguei a ver ontem mesmo uma crítica curta em algum lugar que falava muito mal do filme, o que me preocupou por alguns momentos, mas logo pensei: “é melhor esperar a do Plano Crítico”. E que diferença! Essa aqui realmente apresenta vários pontos do filme e os discute da melhor forma. Por isso tenho tanta confiança nas críticas daqui em comparação com qualquer outro lugar.

Quase o mesmo aconteceu com a 2ª temporada de Punho de Ferro. Tantos sites falando bem dela, dando cerca de 4 estrelas, e quando surge a crítica do Plano Crítico, diz que é pouco melhor que a 1ª temporada. E assim foi, assisti (com muita dificuldade) e confirmei o que já sabia, a do Plano Crítico era a única totalmente correta. Com certeza, embora felizmente de forma oposta, esse é o caso aqui também.

Ansioso demais pela oportunidade de ver esse filme! Novamente, crítica muito boa, e como eu fiquei feliz em ler!

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Luiz Santiago 31 de outubro de 2018 - 15:58

@WilliamAbsoluto:disqus em primeiro lugar, muitíssimo obrigado pelo prestígio! De verdade! E sobre o filme, eu estava conversando com um amigo a respeito: não consigo entender o hate da crítica em geral (lá fora foi a mesma coisa. O filme foi ovacionado em Cannes, com 15 minutos de aplausos em pé e tal, mas as críticas que saíram depois não foram tão animadoras). Para mim, a obra é a essência do livro, ou seja, uma jornada que envolve comédia, MUITA loucura, realidades falsas dentro de realidades reais e variantes de romance. E Terry Gilliam matou a pau! Estou ansioso para saber tua opinião final sobre o filme, mesmo que seja para discordar. Nesse caso, estou curioso para saber o que não gostou hehehehehehehe. Não deixe de vir comentar aqui quando assistir pra gente trocar ideias!

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Carlos Alexandre 18 de janeiro de 2019 - 14:49

Que eu saiba este filme só foi exibido em Sampa.

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