Crítica | O Homem que Matou Hitler e Depois o Pé Grande

A combinação irresistível do título com o protagonismo do carismático ator Sam Elliott foi o que me atraiu para O Homem que Matou Hitler e Depois o Pé Grande, mas o que me fez mergulhar de verdade na narrativa foi a surpresa que essa obra, lançada diretamente em vídeo sob demanda e, só para constar, em alguns poucos cinemas nos EUA, proporciona ao simultaneamente não trair o que promete fazer e apresentar um intrigante estudo de personagem e uma rasteira na estrutura clássica de construção de mito. É, sob todos os aspectos, um filme corajoso ao trafegar por caminhos pouco usuais em seu conteúdo e mantendo uma capa enganosa de filme B que pode levar alguns espectadores a sentirem-se decepcionados.

Escrito e dirigido pelo desconhecido Robert D. Krzykowski, em seu début em longas, a película tem sua trama descrita pelo título, pelo que não é necessário elaborar uma sinopse. Sim, Hitler dá as caras em sequências de flashback em oposição a um Calvin Barr mais novo vivido por Aidan Turner da mesma forma que o Pé Grande (Mark Steger) está lá, só que enfrentando o mesmo Barr em final de carreira, nos anos 80, já como o simpático bigodudo Elliott. É uma costura inteligente de thriller de espionagem nazista com porralouquice tosca apocalíptica, mas ambos bem trabalhados não só em termos de design de produção, aí incluídos figurinos e ambientação de época (tanto os anos 40 quanto os 80) e uma maquiagem prostética de respeito para o monstro, como também pela forma como esses assuntos são conectados e utilizados para dar estofo ao protagonista.

Como disse, porém, os elementos acima são meros chamarizes para o filme, como armadilhas para o espectador, que ficam constantemente em segundo plano, ao mesmo tempo sempre presentes, mas pouco intrusivos, com o mérito de todos os arcos serem satisfatoriamente concluídos. Barr é, em uma análise superficial, o típico herói durão americano, não muito diferente dos brucutus cinematográficos dos anos 80. Quieto, solitário, de poucas palavras e violento quando precisa ser, Barr é erguido como um super-agente que, mesmo na terceira idade, mantém seu verniz de invencível.

Mas o roteiro não demora em relativizar esse aspecto e a corroer esse verniz, desnudando Barr como um homem que luta contra o arrependimento, contra a culpa, contra tudo que o levou a se tornar o que se tornou, um homem solitário, que mal fala com seu irmão mais novo barbeiro (Larry Miller) e que vive remoendo o pouquíssimo tempo que teve com o amor de sua vida (Caitlin FitzGerald). Ele vê sua  vida como um enorme, longo e tortuoso desperdício e não sabe lidar com isso para além de sua rotina diária que inclui embebedar-se em um bar, conversar com seu cachorro e comer comida pronta. A melancolia estabelece o tom de toda a obra, mesmo quando ela parte para a ação. É o herói americano verdadeiro talvez, um homem que fez o que tinha que fazer e que continua fazendo o que tem que fazer não por querer, mas por receber ordens, mesmo que elas, no final, não signifiquem muita coisa.

Sam Elliott, que deveria ter levado o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2019 (por Nasce uma Estrela), mereceria esse reconhecimento também por sua performance aqui que carrega em micro-expressões e na forma como engole o cenário sem fazer esforço todo o peso de uma vida, segundo sua percepção, mal vivida, literalmente jogada no lixo como uma caixa cheia de cartas nostálgicas. E o melhor é que Krzykowski não subestima o espectador com respostas fáceis do tipo “sim, a vida dele foi desperdiçada” ou “não, ele viveu do jeito que tinha que viver”, ainda que por uma vez descambe para um diálogo um pouco didático demais, mas que cumpre a função narrativa de estabelecer o rapport dele com o agente americano (Ron Livingston), deixando o canadense (Rizwan Manji) estupefato e perdido.

A conclusão ou, na verdade, tudo o que acontece a partir da missão no Canadá, diria, corre um pouco demais sem necessidade, quebrando o ritmo tranquilo e cadenciado estabelecido ao longo de toda a fita, além de sendo mais explícito visualmente do que o necessário. Tudo funciona dentro da lógica criada, mas por vezes parece ser outro filme e um outro Calvin Barr ali, que precisa chegar no final da jornada na sofreguidão, como se estivesse atrasado para alguma coisa.

O Homem que Matou Hitler e Depois o Pé Grande entrega o que promete, mas o que o filme promete é apenas um detalhe dentro de uma história ao mesmo tempo muito mais mundana e interessante. Calvin Barr é, para todos os efeitos, o herói em quem podemos acreditar e por quem podemos verdadeiramente torcer.

O Homem que Matou Hitler e Depois o Pé Grande (The Man Who Killed Hitler and Then the Bigfoot, EUA – 2018)
Direção: Robert D. Krzykowski
Roteiro: Robert D. Krzykowski
Elenco: Sam Elliott, Aidan Turner, Caitlin FitzGerald, Sean Bridgers, Ron Livingston, Larry Miller, Ellar Coltrane, Rizwan Manji, Anastasia Tsikhanava, Mark Steger
Duração: 98 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.