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Crítica | O Homem Que Quis Matar Hitler

por Iann Jeliel
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O Homem que Quis Matar Hitler

Mesmo que se encaixe em estruturas que o alemão Fritz Lang estava acostumado desde quando chegou em território americano (a fuga de um protagonista da autoria de um crime que não cometeu, contexto que se transformava em um romance proibido, dentre outras características), O Homem que Quis Matar Hitler se caracteriza como muitas outras histórias do início da década de 1940, uma mera propaganda antinazista envelopada em um filme genérico de gêneros populares à época. Nesse caso, ainda se agrava pela inserção de vários numa mistura de espionagem, drama, comédia e suspense  que simplesmente não funciona por carecer justamente de uma execução mais particular de Lang, que no papel parecia ser o cineasta ideal para dirigir o longa, uma vez que a fuga do diretor de seu país de origem muito se relacionou a essa crescente do regime autoritário por lá.

A história se passa antes do início da Segunda Guerra, e o filme foi lançado pouco antes dos EUA entrarem nela. Ou seja, o texto por si só já traz uma leitura de cenário um tanto afobada na premissa, admitindo, por exemplo, que existiria diálogo entre figuras do alto escalão nazista com alguém que acabara de ameaçar a vida de seu grande líder. Mesmo que não houvesse guerra ainda, o cenário de paranoia daquele contexto jamais permitiria que tal situação tivesse um diálogo tentando resolvê-la por um acordo. Para a desculpa do protagonista, Alan Thorndike (Walter Pidgeon), que se tratava apenas de uma “caçada impossível” para testar os limites de sua capacidade na caça esportiva, ser crível de alguma forma, estabelece a história de modo completamente inverossímil com a característica autoritária que ele denunciaria ao longo da duração.

Pode-se dizer que a intenção de Lang era não tornar os nazistas unidimensionais como geralmente se constituem nos filmes ideológicos da época, mas existe uma linha tênue entre isso e reconfigurar seus modos fora da realidade, ainda mais dentro de um objetivo panfletário. Se fosse uma tentativa de humanização específica, até caberia. Ok, o filme tem essa tentativa na figura do general (George Sanders) que interroga o protagonista, mas é de acordo com uma motivação completamente banal de algo somente mencionado, no caso, seu apreço pela fama do personagem ao seu histórico de caça, junto à possibilidade de manipulação política não contextualizada dos alemães em poderem colocar a Inglaterra como inimigos.

No máximo, isso é colocado na trama para deixar as autoridades inglesas também como um obstáculo ao personagem, senão a trama viveria uma digressão ainda maior no seu meio, com a inserção de um romance genérico e carnal do principal com uma personagem aleatória (Joan Bennett) que cruza seu caminho. Não dura dois olhares até que ela se apaixone por ele, e ele corresponda tratando-a com um mau cavalheirismo (cavalheiro na forma de tratá-la, mas fingindo não se importar ou ter atração pela moça). Lang até tenta inserir os dois num contexto de distanciamento de classes que pouco acrescenta ou faz sentido no contexto dramático da obra, essencialmente sendo um filme de perseguição. A mulher basicamente é atraída pelo risco em que ele a coloca por ser um “fora da lei”, mas diferente dele, ela não vive seu próprio arco de conscientização política para com a posição do que acha dos nazistas. É uma personagem completamente alheia de uma fala, e isso é bem incômodo dentro da narrativa.

Nos seus melhores momentos, o filme consegue configurar bem imageticamente o arco do protagonista. Se antes ele parecia indiferente ao que representava o regime nazista, após ser diretamente vítima dele passa a perceber e ressignificar seu sentimento de discordância para um repúdio que o levará à inevitável guerra. A virada é bem mais crível do que a partida, então mesmo que não compre sua desculpa de inocente por não querer matar Hitler quando teve a oportunidade, é comprável que ele queira matar depois de tudo que passou. Apesar de ser bastante óbvio, o caráter didático do arco tem seu bom desenvolvimento. O que não necessariamente tira o filme de uma zona chata em que ele se encontra na maior parte do tempo, um genérico exercício de gênero que não sobrevive ou se justifica fora desse contexto ideológico encenado de modo extremamente momentâneo.

Foi uma época em que Lang aceitou muitos projetos de estúdio, sendo esse possivelmente um dos que se encaixaram mais no objetivo comercial que o contexto exigia do que numa obra com intenções autorais por parte do diretor, ou mesmo um texto com brechas (que apesar de tudo, houve, e não foram correspondidas) para que ele deixasse sua assinatura com a substância que normalmente entregava. Em outros filmes mais à frente também com caráter de denúncia à crescente fascista da Segunda Guerra, como Os Carrascos Também Morrem e Quando Desceram as Trevas, isso foi melhor correspondido. Infelizmente, em O Homem Que Quis Matar Hitler não, consolidando um dos filmes mais fracos do gigantesco cineasta alemão.

O Homem que Quis Matar Hitler (Man Hunt | EUA, 1941)
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Dudley Nichols, Lamar Trotti (Baseado na obra homônima de Geoffrey Household)
Elenco: Walter Pidgeon, Joan Bennett, George Sanders, John Carradine, Roddy McDowall, Ludwig Stössel, Heather Thatcher, Frederick Worlock, Roger Imhof
Duração: 105 minutos

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