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Crítica | O Homem Que Se Vendeu

por Iann Jeliel
165 views (a partir de agosto de 2020)

O Homem Que Se Vendeu

Política e corrupção são basicamente sinônimos. Independentemente do local ou cargo, a sistemática que coloca alguém em posição de representante do povo é a mesma, um caminho recheado de escolhas “fáceis” onde a busca por poder sempre fala mais alto. Em O Homem Que Se Vendeu, Prestron Struges inicia sua carreira como diretor, satirizando essa normatização do ilícito num cenário político recortado, através de uma screwball comedy, ou comédia “louca”, subgênero característico da Hollywood clássica, sustentada sobre um humor vigente a situações inesperadas.

Vejam só o contraste, não há nada de realmente “inesperado” no caminho que leva Dan McGinty (Brian Donlevy – excelente!) rapidamente ao cargo de governador. A escalada de atitudes absurdas que foram lhe concedendo o poder serem plenamente plausíveis é a graça do deboche inicialmente bem presente no roteiro de Sturges. O Homem Que Se Vendeu foi o primeiro filme da história a receber o prêmio de melhor roteiro original no Oscar, além do primeiro a explicitamente ser dirigido e roteirizado por um mesmo alguém, denominado os créditos para “escrito e dirigido por”. Não é pouca coisa. Esse pioneirismo de dirigir a própria história certamente rendeu méritos, principalmente na primeira metade do longa, genuinamente voltada para a comédia.

Sturges parecia saber como lidar com o próprio estilo de escrita de humor, muito puxada para o teatral que planejava antecipadamente as gags visuais a serem utilizadas nas situações cômicas, para que elas não atrapalhassem a contagem linear da narrativa que importava – por isso que há poucas piadas no filme. Sua direção, diferente de outros nomes como Frank Capra ou Ernst Lubitsch, não era tão robusta ou sofisticada. Seus planos eram muito simples e pensados nesse complemento ao texto, onde a miss en scene se modificava conforme as pausas do seu texto, eliminando-as naturalmente, tornando o filme bem ágil e estimulante em ritmo.

Acontece que existe também um lado dramático aflorado no filme, fundamental no tecer do comentário crítico da narrativa. E é aqui onde se encontram os problemas. A virada de bom moço do Senhor McGinty soa tão repentina quanto a forma que ele se tornou governador. Diria que esse efeito não é nem culpa do roteiro, que vai implementando pontos no seu desenvolvimento e personalidade que vão dando brecha para ela acontecer em algum momento e mais consequência de um mesmo artificio de montagem para promovê-la. Na primeira parte funciona muito bem como auxílio da comicidade, na segunda um tanto que prejudica nesse encaminhamento dramático, principalmente porque tudo ainda é uma grande história de bar, que Sturges faz questão de ressaltar, pausando a história somente nesses momentos, relembrando da linha temporal que começou.

Também diria, que falta desenvolvimento da química do personagem com Catherine (Muriel Angelus), sua esposa inicialmente forjada para campanha política e que de uma hora para outra passa a ser uma paixão platônica que o faz jogar tudo por alto. Como dito, isso não anula a bela alfinetada do texto no desabamento do poder quando se tem a honestidade, mas sem um tratamento cômico correspondente a primeira parte, ela não parece tão (brincadeiras à parte) honesta. Isso fica bem evidente na dinâmica de McGinty com seu “chefe” (Akim Tamiroff), no início do filme responsável pelos melhores e mais engraçados momentos, quando vira motriz climática, recebe um outro tratamento, que já não funciona tanto. Apesar do fechamento mesmo, ser bastante satisfatório nesse sentido.

O Homem Que Se Vendeu é uma meia sátira bem inteligente quando quer e deveria querer mais durante a projeção, ou pelo menos, sem ficar tímida com a necessidade de um tratamento dramático para a conclusão da mensagem. Contudo, dado os fatos curiosos do filme é uma pedida obrigatória para qualquer cinéfilo, principalmente porque Sturges ficou esquecido conforme o tempo e tem um talento que merece ser redescoberto.

O Homem Que Se Vendeu (The Great McGinty | EUA, 1940)
Direção: Preston Sturges
Roteiro: Preston Sturges
Elenco: Brian Donlevy, Muriel Angelus, Akim Tamiroff, Allyn Joslyn, William Demarest, Louis Jean Heydt, Harry Rosenthal, Arthur Hoyt, Libby Taylor, Thurston Hall
Duração: 82 minutos

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