Crítica | O Homem Sem Sombra

A invisibilidade é uma das maiores fantasias a habitar mentes na história da humanidade. Em nossa memória relativa aos acontecimentos da infância, muitas vezes nos pegamos na luta entre o bem o mal, ora no papel de mocinho, ora no exercício da vilania. Recurso que transformaria o mundo num caos, haja vista a falta de habilidade dos seres humanos em administrar o poder que lhe é concedido em muitas ocasiões, a invisibilidade e sua possibilidade caótica já foi representada no romance O Homem Invisível, de H.Q. Wells, base para o clássico da Universal de 1933 e outras versões posteriores, algumas interessantes, outras dramaticamente abomináveis. Apesar de O Homem Sem Sombra não ser uma tradução intersemiótica exata do livro publicado em 1897, é de se esperar que a ficha técnica ao menos aponte a sua provável “inspiração”. Não há.

Sob a direção do veterano Paul Verhoeven, cineasta guiado pelo roteiro escrito pela dupla formada por Andrew W. Marlowe e Gary Scott Thomson, a narrativa toma alguns elementos do clássico e não descreve adequadamente os créditos, falha ética que não é o único problema de um filme que possui alguns desvios, mas é um manancial para discussões pungentes sobre impunidade, comportamento humano, os limites da pesquisa científica, dentre outros tópicos que o revestem de camadas, responsáveis por elevar as discussões para algo além dos fabulosos e eficientes efeitos visuais, um espetáculo em 2000, época de seu lançamento. Ao longo de seus 119 minutos, vários questionamentos são estabelecidos, sendo o primeiro deles a duvida sobre o que de fato faríamos se pudéssemos portar a invisibilidade.

Nós, como espectadores, temos as nossas respostas pessoais. O filme, no entanto, trata de demonstrar uma das catastróficas possibilidades. Na trama, acompanhamos a trajetória de Sebastian Caine (Kevin Bacon), um pesquisador brilhante no exercício de sua profissão, eclipsada por alguns rompantes de prepotência que sinalizam a sua falta de tato com a possibilidade de gerenciamento de poder. Ele trabalha como líder de um experimento com o soro da invisibilidade, aplicado inicialmente em animais que servem de cobaias no laboratório. A prática é parte de um investimento governamental para aplicação pelas Forças Armadas, pois a ideia tornar os soldados estadunidenses invisíveis nos combates. Logo, dos animais para si mesmo, Caine decide se transformar em parte mais integrante desta história.

Decidido a aplicar o soro em si, sob a supervisão e apoio da equipe, o pesquisador inicialmente não pensa nas consequências, pois conforme algumas falas breves, mas pontuais, ele diz que “os interessados em fazer História não seguem regras”. O seu impulso se estabelece depois que a aplicação do soro num gorila apresenta resultados. A equipe, antes, não conseguia achar uma alternativa de reversão do efeito, mas depois que consegue pela primeira vez, Sebastian Caine se coloca como a próxima experimentação. Se no filme clássico o comportamento é explicado como parte dos efeitos colaterais do soro, na versão não creditada em questão, o nosso personagem já possui predisposição para agir de maneira criminosa. Ele em nada é o homem virtuoso de Platão, alguém que sabe como realizar boas ações com o poder que lhe foi concedido.

É assim que o personagem parte da arrogância para colocar os seus impulsos violentos em prática. Ele estupra, numa cena fortíssima, típica do cinema de Paul Verhoeven, cineasta que busca exaurir todos os limites possíveis para extração da carga dramática desejada. Mais adiante, quando acuado, resolve agir e rende todos os participantes da pesquisa no laboratório, presos em sua sabotagem que transforma o espaço num tabuleiro de jogo onde lutar pela vida é a ação mais inteligente para os participantes. Num clima de contagem de corpos, os personagens são mortos conforme a cartilha slasher. Sabemos, desde já, quem são os protagonistas e quem vai se tornar vítima para ilustrar o tom macabro da história. Linda McKay (Elisabeth Shue) e Matthew Kensington (Josh Brolin) ocupam o espaço de protagonismo, acompanhados da veterinária Sarah Kennedy (Kim Dickens) e dos pesquisadores Carton Abbey (Greg Grunnberg), e Frank Chase (Joey Slotnick), todos integrantes da lista de eliminação estabelecida por Sebastian Caine.

O grupo é composto de tipos clichês, comuns ao cinema hollywoodiano que gosta de estabelecer a conexão entre filme e público, isto é, ousar, mas sem deixar as pessoas em sua zona de conforto. Na seara estética, Jerry Goldsmith estabelece mais uma parceria com o cineasta. O resultado é a entrega de uma música menos impactante que as experiências anteriores, mas ainda assim, atmosférica e intrigante. Captados pela direção de fotografia de Jost Vacano, os personagens circulam pelos espaços mais realistas, isto é, apartamentos e ambientes externos ao laboratório, dirigidos artisticamente por Dale Allen Pelton, a responsável por preencher os cenários do design de produção assinado por Allan Cameron, eficiente, em especial, na construção do local de pesquisa, imersivo e funcional para os melhores momentos do desfecho. Scott Hecker é quem supervisiona os ótimos elementos do design de som, bem conectados com os efeitos visuais da equipe de Scott E. Anderson, setor importante para o estabelecimento da eficácia narrativa.

Apesar de ser alvo de opiniões que versam apenas sobre os seus efeitos visuais, O Homem Sem Sombra é um filme que se permite ir muito além. O problema é que muita gente ainda não consegue ir atravessar o limiar que a proposta cinematográfica oferta, numa demonstração da passividade do espectador comum que é apenas receptáculo das informações que lhe são enviadas. Como arte da conexão com o público, o cinema é a mais pura estética da recepção e pede espectadores que interajam com os seus conteúdos. Digo isso com tranquilidade porque lembro, há 20 anos, das críticas apressadas sobre o filme, voltadas exclusivamente aos efeitos especiais, em detrimento das possibilidades filosóficas que a trama permite. No território acadêmico, há alguns textos, em especial, as considerações do italiano Giorgio Agamben, um mestre da sabedoria que nos reforça a necessidade de algumas pessoas em se afastar do contemporâneo para compreender alguns fenômenos. É uma afirmação envolta numa lucidez hedionda. Lucidez essa que falta no inicialmente herói de O Homem Sem Sombra, transformado em monstro antagonista de sua própria história, comprovação cabal da falta de articulação da humanidade diante do poder e da glória

O Homem Sem Sombra (Hollow Man) — Alemanha/Estados Unidos, 2000
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: Andrew W. Marlowe
Elenco: Elizabeth Shue, Greg Grunberg, Josh Brolin, Kevin Bacon, Kim Dickens
Duração: 110 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.