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Crítica | O Hospedeiro

por Ritter Fan
1059 views (a partir de agosto de 2020)

Quero dizer, ela morreu, mas ainda está viva.

Depois do sucesso de Memórias de um Assassino, um drama policial atmosférico e assombroso, Bong Joon Ho partiu para co-escrever e dirigir nada menos do que um filme de monstro na melhor tradição de seus vizinhos japoneses, mas com assinatura mais do que própria. Nascia, então, O Hospedeiro, que se tornou a maior bilheteria da época na Coréia do Sul e, de quebra, revelou o diretor de vez para o ocidente.

Há primeiro que se aplaudir um cineasta que não descansa em berço esplêndido e mantem-se apegado a um tema ou a um tipo de filme. O salto que Bong Joon Ho dá de sua obra anterior angustiante e intimista para sua abordagem no que essencialmente é a premissa de Spectreman – um monstro criado pelos efeitos da poluição! -, mas sem os elementos “espaciais” e com muita crítica social e ambiental, além de estocadas nada discretas nos EUA, foi obviamente muito arriscada, mas novamente muito bem-sucedida.

O maior risco de todos era a oposição do orçamento razoavelmente apertado (algo como 11 milhões de dólares) com a escolha deliberada do diretor de despudoradamente mostrar seu “peixe gigante terrestre carnívoro mutante acrobata” em extensas e explícitas tomadas em plena luz do dia logo de cara, sem fazer o menor suspense, algo que imediatamente já separa O Hospedeiro de praticamente todos os filmes do gênero. Convocando os trabalhos da WETA e da The Orphanage, porém, Bong Jooh Ho fez o máximo com o dinheiro que tinha e o CGI do peixão acabou impressionando mesmo os mais cínicos, especialmente considerando o tempo de exposição do bicharoco diante das câmeras e da interação com humanos, algo sempre difícil. Pode ser que muitos achem que ele não envelheceu bem e isso pode ser verdade, mas é mais verdade ainda que isso pouco importa para a apreciação da obra.

Assim como em todos os filmes de Bong Joon Ho, a premissa da superfície é apenas o estopim para comentários sociais ferinos que, aqui, claro, ganham uma embalagem ambiental poderosa e óbvia como por vezes precisa ser. O roteiro, que se inspirou em um artigo de jornal falando sobre um peixe mutante encontrado no rio Han e também em um incidente real – retratado na sequência de abertura da fita – em que um médico legista militar americano lotado na Coréia do Sul mandou derramar centenas de frascos de formaldeído no esgoto, é repleto de críticas fortes à incompetência e descaso do governo coreano e carrega ecos do processo democrático pelo qual o país passara 20 anos antes, incluindo ao próprio ativismo político quando o texto transforma Park Nam-il (Park Hae-il), irmão do protagonista, em um anacrônico “protestante profissional” sem eira nem beira. E é claro que os Estados Unidos, a “potência maléfica” preferida de todos, é alvo de toda sorte de espancamento audiovisual, notadamente o tal médico legista da abertura, depois o outro que adora uma lobotomia e chegando no nada discreto “agente laranja” e à surreal tentativa de enganar o mundo com a fake news do vírus. No entanto, engana-se quem interpreta o filme apenas como anti-americano, já que isso seria um reducionismo de primário e o diretor pode ser tudo, menos bobo desse jeito. A crítica, ao contrário, é geral, ampla e irrestrita.

Claro que o destaque da obra – além da quimera – fica mesmo com Park Gang-du (Song Kang-ho estrelando o segundo longa seguido do diretor), um vendedor simplório de cabelo pintado que tem sua filha Park Hyun-seo (Ko Asung) capturada pelo monstro. É essa conexão entre os dois, estabelecida de maneira muito eficiente em apenas poucos minutos de projeção, que sustenta o lado dramático do filme mesmo quando Gang-du é retratado de maneira comicamente exagerada e teatral pelo ator seguindo um roteiro que exige exatamente isso do personagem, com Hyun-seo sempre corajosa e inteligente em seu imundo cativeiro subterrâneo. Diria, da mesma forma, que toda a relação familiar dos Parks, que evolui muito claramente ao longo dos 120 minutos com os três irmãos, ao final, formando uma equipe heroica lindamente clichê, é um prazer de se acompanhar.

Muitos comparam O Hospedeiro com Tubarão, mas a única comparação que eu considero que realmente procede é a antitética: enquanto o filme de Steven Spielberg é de queima lenta, esconde seu monstro e o usa homeopaticamente, o de Bong Joon ho é o exato oposto. De similaridade fica mesmo só o ótimo uso das críticas sociais, ainda que de ordens bem diferentes e o sucesso de bilheteria que as obras tiveram. Seja como for, os dois filmes marcaram época e é possível que O Hospedeiro torne-se tão duradouro no imaginário popular quanto Tubarão, ainda que nem de longe tão revolucionário.

Sem contentar-se com mais do mesmo, Bong Joon Ho, em sua terceira produção, pegou o gênero de nicho de “filme de monstro” e o virou de cabeça para baixo, mostrando que é sempre possível renovar abordagens. Basta criatividade e esforço, algo que o cineasta parece ter para dar e vender.

O Hospedeiro (Gwoemul – Coréia do Sul, 2006)
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Won-jun Ha, Chul-hyun Baek
Elenco: Kang-ho Song, Hee-Bong Byun, Hae-il Park, Doona Bae, Ko Asung, Dal-su Oh, Jae-eung Lee, Dong-ho Lee, Je-mun Yun, David Anselmo, Martin Lord Cayce, Scott Wilson, Brian Rhee
Duração: 120 min.

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30 comentários

Gabriel Leão Buendía 4 de maio de 2020 - 12:39

É incrível a capacidade do diretor em variar diversos gêneros no mesmo filme, sem estragar a película, e ainda inserindo temas sociais. Preciso ver mais filmes dele.

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planocritico 4 de maio de 2020 - 13:50

Sim, ele é muito versátil. Sugiro ver a filmografia toda dele. Não tem nada nem remotamente ruim, além de ser ainda bem curtinha! Temos as críticas de todos os longas dele bem aqui: https://www.planocritico.com/tag/bong-joon-ho/

Abs,
Ritter.

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Sóstenes - Toty 16 de fevereiro de 2020 - 00:09

Graças ao Céus vcs fizeram a crítica dessa obra. Pensei que ia odiar o filme, o Memórias de um Assassinato é show, quando vemos o Hospedeiro achamos estranho, mas o filme nos surpreender em suas “reviravolta” e narrativa, o diretor sabe inserir análise social e por vezes sentimos pena do bixo e da fome de uma de suas vítimas.

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planocritico 16 de fevereiro de 2020 - 03:38

A mistura de gêneros é o que me deixa mais feliz com esse filme. Vai de comédia a drama com um pano de fundo de filme de monstro B que não tem preço!

Abs,
Ritter.

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Lucas Cardozo 15 de fevereiro de 2020 - 18:55

Ótima crítica. Filmão.

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planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 19:15

Obrigado!

Abs,
Ritter.

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João Victor 15 de fevereiro de 2020 - 18:18

Um filme de 2006, com baixo orçamento, da Coréia do Sul, consegue ser melhor que muito blockbuster hollywoodiano do mesmo gênero. Mesmo o roteiro tendo umas facilitações estranhas, é sensacional como ele passeia entre o humor, o suspense e o drama, ainda colocando umas pitadas de crítica social aqui e ali. Uma obra obrigatória pra quem gosta de filme de monstrengo!

Ótima crítica!!

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planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 19:15

Sim. Mas são propostas tão diferentes, para públicos tão diferentes que fica até complicado comparar. Aliás, diria que O Hospedeiro dá de 10×0 em 95% dos filmes de monstro japoneses também…

Abs,
Ritter.

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Cahê Gündel 🇦🇹 15 de fevereiro de 2020 - 15:22

Não gosto de filmes de monstro, mas esse aqui é espetacular! A sequência em que somos “apresentados” ao bichão é uma maravilha, um diretor mais, digamos, hollywoodiano, teria optado por fazer algo picotado, com uma câmera tremida, mas o mestre Bong Joon Ho fez da melhor maneira possível: um plano-sequência que acompanha o espanto do nosso herói. Aliás, essa deveria ser a utilidade do plano-sequência, e não a mera exibição, né?

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planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 19:15

Sim, aquela sequência é absolutamente espetacular. Um plano-sequência que mostra a que veio!

Abs,
Ritter.

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Rafael Lima 15 de fevereiro de 2020 - 15:17

Muito boa a resenha. O filme é fantástico mesmo. As críticas sociais que o diretor faz aqui, articulado com uma manipulação fantástica dos clichés do género rendem uma obra incrível. Adoro como o filme troca de chave do drama, para a comédia, para o terror puro, e depois para a aventura social com uma naturalidade digna de aplausos, já que não são transições fáceis de se fazer. Enfim, ótimo filme.

Responder
planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 19:15

Obrigado!

Essa “troca de chave” é literalmente a chave do cinema de Bong Joon Ho. O cara troca de tom como muito poucos conseguem!

Abs,
Ritter.

Responder
Érica Pazzi 15 de fevereiro de 2020 - 12:37

Eu adorei esse filme desde a primeira vez que eu vi. Me surpreendeu muito .
Como vc mesmo disse basta criatividade e esforço, pra contar uma ótima história.
Agora estou em uma busca de filmes coreanos pra conhecer já vi alguns e adorei mas acho que ainda tem outros para descobrir.
Vi a trilogia vingança, Eu vi o Diabo e Invasão zumbi.

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Lucas Cardozo 15 de fevereiro de 2020 - 18:55

Começou muito bem. Cinema coreano é ótimo. Tb busco novos filmes. Tem várias listas pela internet com ótimas recomendações.

Responder
planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 19:15

Sim!

Abs,
Ritter.

Responder
Érica Pazzi 15 de fevereiro de 2020 - 23:14

Com certeza Vou procurar essas listas valeu pela dica
se ver algum legal me conta.
Vc assistiu o Memória de um Assassino que o Ritter indicou?
Bom fds pra vc

Responder
Lucas Cardozo 16 de fevereiro de 2020 - 15:59

Vi sim, faz bastante tempo já. To querendo rever.

Filmes de assassinos os coreanos mandam muito bem. Recomendo tb O Flautista, Montagem, Assassino Profissional… Tenho que lembrar de mais rs

Tb curto algumas “dramédias românticas” como My Sassy Girl, Windstruck e The Classic.

Responder
Érica Pazzi 17 de fevereiro de 2020 - 20:10

Obrigada já coloquei na minha lista pra ver no Carnaval ♥️

Lucas Cardozo 22 de fevereiro de 2020 - 03:05

Lembrei de mais alguns: The Terror Live, Time Renegades, Confissões de Assassinato, Cidade Fabricada, O Motorista de Táxi, The Scarlet Letter, Children, Deranged, Midnight FM.

planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 19:15

É um baita filme, mas sugiro fortemente que veja o anterior do diretor, Memórias de um Assassino. É uma obra-prima!

Abs,
Ritter.

Responder
Érica Pazzi 15 de fevereiro de 2020 - 23:14

Vou procurar pra ver no fds obrigada pela dica
Bom fds pra vc

Responder
planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 23:14

Para você também!

Abs,
Ritter.

Responder
Alessandro 15 de fevereiro de 2020 - 12:18

Filme sensacional que demonstra bem o estilo incomum do diretor. Para mim, este já tem traços de sua genialidade como realizador, que também aparecem em “Parasita”, principalmente na mistura de gêneros e na crítica social.

Responder
planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 19:15

Acho que sua genialidade como cineasta apareceu antes, em Memórias de um Assassino.

Abs,
Ritter.

Responder
Joabe Ferreira 15 de fevereiro de 2020 - 11:28

Engraçado que esse filme é tão atual em algumas questões sociais e políticas. Essa parada do coronavírus que começou na China e toda essa ação de alarme ao mesmo tem de descaso (no caso do médico que alertou as autoridades e foi ignorado), lembra as próprias atrapalhadas das autoridades no filme, que busca uma maneira de deter o monstro, o caos e as possíveis contaminações.

Associei na hora com o filme do sul coreano.

E adoro esse longa por ser uma mistura louca de gêneros que vai do dramalhão a comédia em segundos (a cena do choro em família) e sem contar a doideira que é essa família de protagonistas (abracei a personalidade e a loucura de cada um, meu favorito ainda é o Gang-du).

e aquela frase popular (o internetês): Vocês criaram um monstro!is, Caiu tão bem na obra

Responder
planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 19:15

Sim, revendo esse filme o coronavírus foi tudo o que me passou pela cabeça!

Abs,
Ritter.

Responder
Krauser 15 de fevereiro de 2020 - 09:06

Primeiro filme que assisti do diretor. Que bom que ele está tendo o reconhecimento que merece.

Responder
planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 19:15

O cara é muito bom!

Abs,
Ritter.

Responder
Luan Pinheiro 15 de fevereiro de 2020 - 08:18

Todos os filmes coreanos que eu assisti foram dirigidos pelo mesmo cara e não sabia.
Foda.

Responder
planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 19:15

Sugiro diversificar! Pegue Oldboy para ver!

Abs,
Ritter.

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