Crítica | Entre a Lei e o Coração (O Ilhéu)

estrelas 2,5

Na gravação das entrevistas com François Truffaut, Hitchcock chegou a dizer que achava O Ilhéu um filme muito banal e que o seu único ponto interessante era o fato de ser sua última produção silenciosa. Bem, o mestre estava certo ao classificar a película como “banal”, mas apesar de ser um filme medíocre, ainda é possível encontrar coisas interessantes nele.

O Ilhéu é uma obra complicada de se falar a respeito, porque guarda pontos muito diferentes em toda a sua duração. O roteiro, que teve colaboração não creditada de Alfred Hitchcock, é a adaptação de um romance muito popular no Reino Unido e talvez por isso o filme tenha tido um relativo sucesso, sendo melhor recebido que o subestimado Champagne. Tendo novamente o simpático dinamarquês Carl Brisson no elenco (que diga-se de passagem foi a alma de O Ringue), o diretor conseguiu criar uma história que gera fascínio no espectador, trazendo à tona a problemática da traição dentro de uma intricada rede de eventos — algo vindo da literatura, mas que recebeu colocação relativamente satisfatória no filme.

Pete e Philip são amigos de infância, mas de condições sociais bem diferentes. O primeiro é um pescador e o segundo um famoso advogado da Ilha de Man, que por tradição familiar, espera ser nomeado juiz. Sem saber, ambos fazem corte à mesma garota, mas nos momentos iniciais do filme vemos Pete levando a melhor. Kate (Anny Ondra, uma atriz polonesa — na época que ela nasceu, sua terra natal era uma região da Áustria-Hungria, o que pode gerar algumas confusões em relação à sua nacionalidade — que voltaria a trabalhar com Hitchcock em Chantagem e Confissão) parece retribuir o flerte e, numa sequência de eventos que não é lícito explicitarmos aqui, acaba se casando com o pobre e apaixonado pescador. Nesse ínterim, descobrimos que Philip não é o homem que julgamos negativamente no início da projeção e que tanto ele quanto Kate amargarão um grande desejo em prol da felicidade de Pete.

A relação de amizade aqui trabalhada é interessante, mais próxima de um amor fraterno do que os amigos vistos em Downhill. Para que Pete fosse feliz com Kate, Philip renuncia o amor da garota, que acaba sendo levada pela maré das conveniências e se casa com um homem de quem ela gostava não como esposo e sim como amigo. Perceba que esses elementos, por mais batidos que sejam em termos de trama cinematográfica, possuem um apelo notável e com certeza prendem a nossa atenção. Mas em toda essa saga de amores negados e desejos escondidos, há uma montanha de falhas.

No plano narrativo, existe o problema da fácil aceitação de eventos complexos e a falta de triagem de Stannard e Hitchcock para o que funcionaria na tela ou não. Exemplo: num dado momento do filme, Pete, que está na África trabalhando para juntar dinheiro e conseguir se casar com Kate, é dado como morto. Tudo bem que seu amigo e sua pretendente já estavam apaixonados à essa altura, mas a morte dele é aceita de forma constrangedoramente fácil, da mesma forma que é desmentida às pressas, numa reviravolta barata do texto, que obviamente tinha um outro caminho para seguir. Na maior parte das vezes é nessa relação entre densidade do fato e recepção fraca a ele que o roteiro do filme falha, e isso não seria assim tão sério se o tema fosse mais leve, o que não é o caso.

No campo técnico, existe a tenebrosa montagem. É estranho ver Hitchcock em fraca performance técnica nesse ponto da carreira, considerando sua direção e experimentos estéticos em filmes como O Ringue e Champagne, isso só pra citar os melhores até aqui. Até a ousadia visual do diretor é vista em menor grau, com apenas dois bons momentos de câmera e metáforas visuais.

Seguindo uma óbvia reação negativa dos vizinhos da Ilha de Man, o filme termina com um amargo final feliz, tendo Philip, Kate e a criança se afastando da casa de Pete, sob xingamentos do povo. Particularmente gosto do lado crítico que isso representa (os valores tradicionais sendo pisoteados, principalmente os valores religiosos de família), mas não gosto do acontecimento final em si. O paradoxo também é válido para a minha opinião sobre o filme: embora tenha partes muito ruins, em nenhum momento me senti fatigado ou entendiado com o que via na tela, mesmo que risse dos erros de montagem e do andamento da história.

Para finalizar, cito o óbvio título em português que nos faz perder a ironia e o trocadilho do título original: Man X Man: Manxman. Essa relação tanto pode ser entre os dois amigos quanto de Philip contra a Ilha de Man, que de certa forma o prende em uma cadeia social, fazendo-o perder anos de sua vida só para agradar a uma tradição.

  • Crítica originalmente publicada em 30 de novembro de 2013. Revisada para republicação em 01/10/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

O Ilhéu (The Manxman) – UK, 1929
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Eliot Stannard (adaptação do romance de Hall Caine)
Elenco: Anny Ondra, Carl Brisson, Malcolm Keen, Randle Ayrton, Clare Greet
Duração: 110 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.