Crítica | O Incal: O Que Está Em Cima

estrelas 5,0

Também publicado com o título O Incal: O Que Está No Alto, este volume de certa forma é o fechamento de toda a primeira parte da saga/space-opera até aqui, e a abertura de um outro capítulo para Difool (agora reencarnado) e seus companheiros. Após os eventos de O Que Está Embaixo, voltamos exatamente para onde precisávamos: o Planeta-prisão Aquaend, onde Raïmo de Kamar e seus amigos foram exilados.

Neste capítulo, Vitavil H2O, conhecemos as Medusas — que também protagonizam o tomo seguinte, A Estratégica Medusa — e percebemos o que elas podem fazer para o Universo nesse ponto da história. Como citei há pouco, Alejandro Jodorowsky tomou este livro como o fechamento de uma série de questões abertas desde O Incal Negro, tais como o por quê dos Bergs procurarem o Incal; qual foi o destino de Gorgo, o Pútrido; do Prezidente na forma de Holocâmera e dos planetas então governados brevemente pelo fascismo niilista-tecnicista-religioso-comercial de Iman Horlog. Agora parem um pouco para pensar na genialidade do autor que, ao mesmo tempo em que coloca uma espécie de “fim de linha” para essas questões primeiras, abre outras possibilidades para esses mesmos personagens, misturando mundos e afunilando o destino de cada um para um único momento-crítico.

moebius o que esta em cima

Como NÃO lidar com um Ovo Negro.

Normalmente, em tramas de guerra ou mesmo em cenário de space-opera, como é o caso do Incal, é comum encontrarmos a batalha como gerador de eventos e a constante busca pelo fim. É verdade que e alguns casos isso não resulta, necessariamente, em uma obra de má qualidade, mas nos coloca no mesmo caminho de sempre, onde as motivações e a busca são exatamente as mesmas. Ciente dessa armadilha que sua aventura, mesmo dentro do misticismo/filosofia/esoterismo poderia encontrar, o roteirista, ao lado de Moebius, resolveu valorizar o caminho até a luta, destacando a preparação, os muitos “antes da batalha” que quase nunca temos a oportunidade de saber. Aqui, temos. E eles são fascinantes.

No capítulo Via de Acesso!, todos os lados se organizam para mais uma batalha. A guerra não dá nenhum sinal de que acabará com uma vitória ou derrota de um dos lados, mas todos sabem que o vencedor parcial terá vantagem sobre o outro nas batalhas subsequentes. Os tecnos, serviçais do Iman e todo o pessoal oficial do Planeta Dourado e da Tecnogea possuem certa vantagem porque fizeram o primeiro movimento quando o Ovo Negro foi lançado pelo Tecnopapa em O Incal Luminoso, e Solune, agora como consciência da Nave Estelar, tem pouca experiência no que está fazendo, é cauteloso até demais em alguns pontos (excelente escolha narrativa do autor, já que estamos falando de uma criança, independente de sua constituição) e há certa divisão de opiniões no “lado bom” da história.

Um pouquinho de desespero não faz mal a ninguém...

Um pouquinho de desespero não faz mal a ninguém…

Esses pequenos detalhes nos prendem e nos ajudam a entender ainda melhor o comportamento dos personagens, que evidentemente se transformaram desde a primeira vez que os vimos, mas, querendo ou não, ainda são a mesma pessoa. Isso inclusive é dito por Animah a John Difool. A pergunta do leitor vai no funo da coisa: do que adianta todo o conhecimento, toda a experiência de vida e luta, todas as mudanças físicas e espirituais se, na verdade, ainda seremos o que sempre fomos? A pergunta não é feita pelo autor e nem quero adicionar camadas fatalistas à interpretação da obra, mas analise a forma como Jodorowsky desenvolve esse momento da saga e como o sexteto principal se comporta (Deepo está mesmo escanteado, mas não no sentido ruim) e os compare ao comportamento humano no mundo real. O que significa mudar de comportamento?

Expostos a situações como as que Difool é colocado em O Casamento Real ou o próprio grupo protagonista em Psicovírus, os personagens precisam deixar ainda mais o orgulho de lado pelo bem de uma luta. Só que — e é isso que me encanta cada vez mais em O Incal — tudo fica ainda mais difícil de se fazer! O mar de sensações é tão imenso e tão forte no texto que Moebius resolveu criar, em determinados pontos da história, quadros completamente imersos em uma cor-emoção principal, não havendo escolha para outro tipo de abordagem estética, a exemplo do reencontro de Difool com os amigos após voltar do planeta natal dos Bergs.

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Um abismo místico dentro de um poço sem fundo, dentro de um universo, dentro de um cenário sem fim…

Rejeitando a luta por ela mesma e escolhendo uma narrativa que se resolve em partes mas se torna cada vez mais difícil — não de entendimento, mas de dinâmica em si própria — Moebius e Jodorowsky criaram uma quase-vitória amarga nesse livro. É o clímax perfeito e mais perfeitamente anti-climático dos quadrinhos, um exagero confuso que define bem o estado das coisas após a contaminação do/a Imperadortriz pela Grande Escuridão. Se a situação estava ruim antes e se tudo parecia ter melhorado (como de fato, em alguns aspectos, melhorou) o final de O Que Está Em Cima nos mostra que toda ação, seja de derrota ou de vitória (parcial ou total) trará uma consequência Universal. Estar vivo e viver é que é o perigo.

O Incal: O Que Está Em Cima (Ce qui est en haut) — França, 1985
No Brasil: Editora Devir, 2011 (Incal Integral)
Roteiro: Alejandro Jodorowsky
Arte: Moebius
60 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.