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Crítica | O Incrível Exército de Brancaleone

por Iann Jeliel
33 views (a partir de agosto de 2020)

“Branca, Branca, Branca! León León León!”

O mais legal é que nem parece uma comédia, ou ao menos não tende a se assumir como uma explicitamente – como seu primo britânico famoso, Monty Python e o Cálice Sagrado fez – porque a piada já está na própria fisicalidade de uma época em que novos interesses sempre surgiam por conveniências. A trama de L’armata Brancaleone é uma espécie de road movie do medievo, em que dezenas de situações aleatórias vão se amarrando aos personagens em meio a um percurso pré-definido constantemente modificado.

Cada parada revela novas camadas socialmente problemáticas daquela estrutura, e a partir da encenação meio “tosca”, a sátira ganha forma naturalmente ao preenchimento dos espaços cênicos. Espaços que não têm vergonha de sujarem as mãos, aliás, de deixá-las imundas. É um filme sujo no melhor sentido que a palavra pode ter para uma comédia sutilmente escrachada. Mas espera, como ser sutil e explícito ao mesmo tempo? O italiano Mario Monicelli é categórico na dosagem de tom, ele acredita na história que está narrando ao mesmo tempo em que debocha dela através de recursos inesperados, gerando a quebra de expectativa de onde se origina um bom humor. Exemplifico essa dualidade com uma das primeiras cenas que estabelece bem a tipificação da comédia que ele adota.

Brancaleone encontra outro cavaleiro aleatório e os dois começam a travar uma batalha crua, tão crua que dentro de um aspecto realista não romantizado, considerando as condições do clima, desconforto das roupas e peso das armas, vai cansando os dois oponentes que concordam em fazer pequenas tréguas durante a luta, que vai sendo somente observada pelo cineasta à longa distância com um plano aberto, de vez em quando mostrando a reação de seus companheiros enquanto olham a luta. Sem trilha, sem pausas planejadas para fazerem tiradas engraçadas, a comicidade surge da ridicularização imagética da situação, contextualizada de uma forma engraçada pelo absurdo de ser verossímil.

Por isso o filme já inicia dentro de uma batalha sanguinária, ele não quer abandonar a veracidade daquela época só pra fazer tirada, pelo contrário, quer usá-la para fortalecer a camada humorística crítica que acaba dentro da proposta tendo uma liberdade imensurável de brincadeiras a cada novo desvio tomado pelos personagens. É corajoso e, portanto, sujo, pois permite ao politicamente incorreto ácido adentrar como algumas resoluções criativas de novas situações – visto a representação época -, mas não se prende a isso e procura subverter algumas dessas representações, graças à escolha de abordagem não romântica das caracterizações, especialmente nas figuras femininas, no protagonista e lógico, no cenário.

Da fotografia empoeirada aos figurinos rasgados, maquiagem desbotada, perucas fora do lugar e design de produção inteiramente destroçado e lamacento, o vínculo fidedigno àquele contexto se torna mais poderoso ao longo da aventura, mesmo com os elementos mais exagerados, propositalmente tomando a tela no automático pela intenção satírica de visualizá-los. É uma mistureba estimulantemente original de comentários que parecem vagos separadamente, mas que constituem todo um estudo temporal bastante rico. A peste negra, os missionários católicos, a ameaça estrangeira, as políticas feudalistas, monárquicas, são algumas das zombadas mais escrachadas que atravessam o tempo ao serem guiadas por arquétipos ficcionais divertidíssimos.

Por mais que nesse aspecto o filme fique devendo um pouco, especificamente falando dos secundários que parecem realmente somente figurações simbólicas de piada ao invés de personagens densos e engajantes como o protagonista, pensando no aspecto macro do passeio, acaba que esse desenvolvimento escanteado de cada um nem faz tanta falta, já que o “Exército” por si só se transforma num personagem único que centra em seu líder uma divindade quase mitológica. Isso acaba sendo a cartada final da sátira, afinal, depois de tantas perambulâncias inóspitas e de objetivos maleáveis, aonde eles chegaram e o que conseguiram? O herói simbólico por eles seguido, no fim das contas, só estava sendo seguido pela promessa.

O Incrível Exército de Brancaleone (L’armata Brancaleone / Itália, 1966)
Direção:
Mario Monicelli
Roteiro:
Mario Monicelli, Agenore Incrocci, Furio Scarpelli.
Elenco:
Vittorio Gassman, Catherine Spaak, Folco Lulli, Gian Maria Volontè, Maria Grazia Buccella, Carlo Pisacane, Ugo Fangareggi, Gianluigi Crescenzi, Alfio Caltabiano, Pippo Starnazza, Luigi Sangiorgi, Fulvia Franco, Tito García.
Duração:
120 minutos

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