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Crítica | O Incrível Exército de Brancaleone

por Iann Jeliel
750 views (a partir de agosto de 2020)

O Incrível Exército de Brancaleone

O mais legal é que O Incrível Exército de Brancaleone nem parece uma comédia, ou ao menos não tende a se assumir como uma explicitamente – como seu primo britânico famoso, Monty Python e o Cálice Sagrado fez – porque a piada já está na própria fisicalidade de uma época em que novos interesses sempre surgiam por conveniências. A trama de L’armata Brancaleone é uma espécie de road movie do medievo, em que dezenas de situações aleatórias vão se amarrando aos personagens em meio a um percurso pré-definido constantemente modificado.

Cada parada revela novas camadas socialmente problemáticas daquela estrutura, e a partir da encenação meio “tosca”, a sátira ganha forma naturalmente ao preenchimento dos espaços cênicos. Espaços que não têm vergonha de sujarem as mãos, aliás, de deixá-las imundas. É um filme sujo no melhor sentido que a palavra pode ter para uma comédia sutilmente escrachada. Mas espera, como ser sutil e explícito ao mesmo tempo? O italiano Mario Monicelli é categórico na dosagem de tom, ele acredita na história que está narrando ao mesmo tempo em que debocha dela através de recursos inesperados, gerando a quebra de expectativa de onde se origina um bom humor. Exemplifico essa dualidade com uma das primeiras cenas que estabelece bem a tipificação da comédia que ele adota.

Brancaleone encontra outro cavaleiro aleatório e os dois começam a travar uma batalha crua, tão crua que dentro de um aspecto realista não romantizado, considerando as condições do clima, desconforto das roupas e peso das armas, vai cansando os dois oponentes que concordam em fazer pequenas tréguas durante a luta, que vai sendo somente observada pelo cineasta à longa distância com um plano aberto, de vez em quando mostrando a reação de seus companheiros enquanto olham a luta. Sem trilha, sem pausas planejadas para fazerem tiradas engraçadas, a comicidade surge da ridicularização imagética da situação, contextualizada de uma forma engraçada pelo absurdo de ser verossímil.

Por isso o filme já inicia dentro de uma batalha sanguinária, ele não quer abandonar a veracidade daquela época só pra fazer tirada, pelo contrário, quer usá-la para fortalecer a camada humorística crítica que acaba dentro da proposta tendo uma liberdade imensurável de brincadeiras a cada novo desvio tomado pelos personagens. É corajoso e, portanto, sujo, pois permite ao politicamente incorreto ácido adentrar como algumas resoluções criativas de novas situações – visto a representação época -, mas não se prende a isso e procura subverter algumas dessas representações, graças à escolha de abordagem não romântica das caracterizações, especialmente nas figuras femininas, no protagonista e lógico, no cenário.

Da fotografia empoeirada aos figurinos rasgados, maquiagem desbotada, perucas fora do lugar e design de produção inteiramente destroçado e lamacento, o vínculo fidedigno àquele contexto se torna mais poderoso ao longo da aventura, mesmo com os elementos mais exagerados, propositalmente tomando a tela no automático pela intenção satírica de visualizá-los. É uma mistureba estimulantemente original de comentários que parecem vagos separadamente, mas que constituem todo um estudo temporal bastante rico. A peste negra, os missionários católicos, a ameaça estrangeira, as políticas feudalistas, monárquicas, são algumas das zombadas mais escrachadas que atravessam o tempo ao serem guiadas por arquétipos ficcionais divertidíssimos.

Por mais que nesse aspecto O Incrível Exército de Brancaleone fique devendo um pouco, especificamente falando dos secundários que parecem realmente somente figurações simbólicas de piada ao invés de personagens densos e engajantes como o protagonista, pensando no aspecto macro do passeio, acaba que esse desenvolvimento escanteado de cada um nem faz tanta falta, já que o “Exército” por si só se transforma num personagem único que centra em seu líder uma divindade quase mitológica. Isso acaba sendo a cartada final da sátira, afinal, depois de tantas perambulâncias inóspitas e de objetivos maleáveis, aonde eles chegaram e o que conseguiram? O herói simbólico por eles seguido, no fim das contas, só estava sendo seguido pela promessa.

O Incrível Exército de Brancaleone (L’armata Brancaleone / Itália, 1966)
Direção:
Mario Monicelli
Roteiro:
Mario Monicelli, Agenore Incrocci, Furio Scarpelli.
Elenco:
Vittorio Gassman, Catherine Spaak, Folco Lulli, Gian Maria Volontè, Maria Grazia Buccella, Carlo Pisacane, Ugo Fangareggi, Gianluigi Crescenzi, Alfio Caltabiano, Pippo Starnazza, Luigi Sangiorgi, Fulvia Franco, Tito García.
Duração:
120 minutos

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4 comentários

Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 8 de julho de 2020 - 22:07

Eu adorava esse filme quando era mais novo. Revi há poucos meses e ele perdeu muito de seu brilho para mim, mas ainda acho que é uma boa obra e o trabalho do Monicelli para brincar com a Idade Média é sensacional. A cena em que Brancaleone e os seus seguidores chega na cidade, não tem ninguém e depois descobrem que a peste matou todo mundo é uma das minhas favoritas do filme.

Mesmo hoje gostando da obra bem menos que você, é impossível não rir e não admirar essa chacota inteligente para a sociedade medieval.

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Iann Jeliel Pinto Lima 9 de julho de 2020 - 16:18

Essa cena é ótima! Também adoro aquela cena que ele cai na própria armadilha lá pro final do filme, além da que mencionei. Entendo bem essa sensação de brilho perdido, mas nesse caso, eu adorei de verdade, acho que revendo só tendo a gostar ainda mais, principalmente considerando um aspecto histórico.

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Beto Magnun 8 de julho de 2020 - 13:13

Cucurucu?

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Iann Jeliel Pinto Lima 9 de julho de 2020 - 16:17

Cucurucu

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