Crítica | O Inferno de Dante

Hollywood é uma amante do cinema-catástrofe, pois é neste tipo de narrativa que expurgamos os nossos medos e inseguranças, tal como nas incursões em filmes de terror. Tudo acontece do lado de lá da tela, enquanto nós, apenas espectadores, contemplamos os acontecimentos num misto de medo e pavor, na torcida para os protagonistas encontrarem a salvação contra o antagonista, às vezes uma serpente gigantesca, um tornado, um tsunami, uma enchente ou no caso de O Inferno de Dante, um vulcão em plena fúria.

Dirigido por Roger Donaldson, cineasta que teve como guia o roteiro de Leslie Bohem, O Inferno de Dante aborda uma história que já conhecemos com base em sua estrutura, com algumas diferenças entre um ponto e outro. Ao longo dos 108 minutos de projeção, a narrativa nos apresenta Harry Dalton (Pierce Brosnan), um geólogo especialista em vulcões que precisa arranjar uma maneira de conter os problemas em Dante’s Speak, cidade situada à beira de um vulcão supostamente adormecido, mas que promete uma explosão furiosa dentro de pouco tempo. Sua missão? Salvar todos do monstro, tal como o protagonista de Tubarão, tendo ainda que afastar do seu caminho os interesses públicos e outros obstáculos.

Com título de segundo lugar do mundo para morar, a cidade agora será colocada à prova. Harry, ao ter perdido a sua companheira numa explosão vulcânica há quatro anos, decide que desta vez fará o seu melhor. O problema é que a única pessoa ao seu favor é a prefeita Rachel Wando (Linda Hamilton), mulher empenhada em ajuda-lo na investigação. Mãe batalhadora que precisa cuidar os interesses municipais e dos filhos, Lauren (Jamie Reneé-Smith) e Graham (Jeremy Foley), Wando vai embarcar numa aventura que mudará para sempre a vida de sua família.

Para trazer mais densidade aos conflitos, o roteiro insere Ruth (Elizabeth Hoffman), uma idosa rabugenta que serve como parâmetro para a bondade da protagonista. Ela é chata, desagradável, falastrona e reclama demasiadamente, mas possui papel preponderante em determinado trecho, sendo uma adjuvante da família em frangalhos. Ela arrisca o que pode para salvar os netos e a nora indesejada, estereótipo comum no cinema hollywoodiano.

Visualmente eficiente, a narrativa traz planos gerais que funcionam bem, ao nos permitir ver a tragédia numa perspectiva ampla, setor que também não faz feio quando precisa se aproximar dos personagens e explorar os seus medos e anseios. Assinada por Andrzej Bartkowiak, a direção de fotografia também é ágil em sua movimentação pelos cenários e objetos que compõem o design de produção de J. Dennis Washington. A trilha de John Frizzell cumpre os requisitos básicos dos filmes de ação e aventura, setor que junto ao design de som da equipe de Richard L. Anderson, cumpre o papel de imersão numa zona que mescla o clima de uma guerra, desta vez, sem nações hegemônicas em conflito, mas o homem diante da fúria de um vulcão que emite lava, sacode a terra e promove o horror entre os que buscam sobreviver.

Segmento necessário para o funcionamento das propostas mais básicas da narrativa, o som trabalha bem desde as explosões aos detalhes mais discretos, como uma gota de enxofre a corroer uma superfície qualquer.  Os setores responsáveis pelos efeitos visuais e especiais fazem um excelente trabalho, muito antes do advento de tecnologias que permitem a transformação de situações imaginárias em algo que não se apresente artificial. Mimi Abers, supervisora dos efeitos visuais, comandou uma equipe diante da liberdade criativa, mesclou nas cenas catastróficas diversos tipos de explosões vulcânicas, isto é, a estromboliana (erupção com presença de cinzas, gases e pequenos fragmentos de rocha quente, responsáveis pela demarcação de arcos luminosos no céu), a tipliana (presença de lava viscosa e extensa coluna de fumaça e gás) e o tipo havaiana (erupção com lava fluída, calma, com escorrimento de lava numa velocidade média de 30km/h). Em suma, temos um pastiche de vulcões, mixagem bem a cara do cinema pós-moderno.

Lançado em 1997, no mesmo ano de Volcano – A Fúria, O Inferno de Dante não é necessariamente um filme sobre os vulcões numa perspectiva exatamente científica, presa aos livros de geografia, mas uma representação ficcional, o que permite determinadas liberdades, principalmente ao se tratar de um digno de bem feito exemplar do cinema-catástrofe. No final das contas, a parte geológica serve apenas como pano de fundo para dramas humanos. Há também as críticas aos membros que ocupam cargos políticos, ao alvoroço da mídia, catalisadora do pânico, talvez mais eficaz que a própria lava de vulcão que escorre, junto aos temíveis e assustadores terremotos. Se você assistir como entretenimento, conseguirá a diversão que procura, mas se for apenas como material exclusivo para a sua prova de geografia, tendo em vista fugir as leituras e análises dos livros didáticos, esqueça!

O Inferno de Dante  — (Dante’s Peak) Estados Unidos, 1997.
Direção: Roger Donaldson
Roteiro: Leslie Bohem
Elenco: Charles Hallahan, Elizabeth Hoffman, Grant Heslov, Jamie Renée Smith, Jeremy Foley, Linda Hamilton, Pierce Brosnan
Duração: 108 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.