Crítica | O Inferno de Mickey

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Publicada originalmente nas edições #7 a 12 da revista italiana Topolino, entre outubro de 1949 e março de 1950, O Inferno de Mickey é uma adaptação dos cantos do Inferno d’A Divina Comédia de Dante. Com roteiro de Guido Martina e arte de Angelo Bioletto, a clássica história elenca um grande número de personagens dos Estúdios Walt Disney com maior relevância nos quadrinhos daquele período, fazendo com que alguns deles fossem submetidos aos tormentos dantescos de cada Círculo, enquanto outros protagonizavam cenas de expiação, provação e arrependimento, ganhando, algumas vezes, passe livre para o Paraíso.

A história é curiosa sob muitos aspectos. A adaptação, como é de se imaginar, tinha como público-alvo as crianças e, mesmo que o autor faça uma série de suavizações e troque um bom número de castigos dados aos pecadores (como era de se esperar), é um pouco perturbador ver uma história de 1949 colocar crianças no Inferno sendo punidas por alguma coisa. Claro que o ambiente onde a história surgiu era propício a esse tipo de visão mais “livre” no trato com as condenações bíblicas (o famoso peso do catolicismo na Itália) e é justamente isso que torna marcante essa saga de Mickey Mouse (Dante) ao lado de Pateta (Virgílio). Ela surpreende e nos faz olhar de maneira diferente para o poema épico, tendo, inclusive, diversas inserções metalinguísticas ao longo do processo. Nem todas elas funcionam bem, é verdade, mas a maioria está colocada no lugar certo, especialmente aquela que traz o encerramento da obra.

Em cada uma das edições originais temos, à parte as repetições, a presença de personagens diferentes, sempre com uma carinha nova em alguma posição de ajuda ou empecilho para os dois poetas ao longo da difícil jornada pelo Inferno. Assim, na original edição #7, temos João Bafo-de-Onça, Mickey, Minnie e Pateta, seguindo-se, na edição #8, com Dumbo, Huguinho, Zezinho, Luisinho, Latrique e Pluto; na edição #9, com Clarabela, Dunga, Grande Chefe, João Honesto, Panchito, Pato Donald, Zé Carioca e Zé Grandão; na edição #10, com Primo Bertie, Fada Azul, Gato Gideão, Gepeto, Grilo Falante, João Honesto de Pinóquio e Mestre; na edição #11, com Cícero, Esquálidus, Heitor, Lobinho, Porquinho Prático e Quincas; e na edição #12, com Lobão e Pflip.

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O maior peso negativo do roteiro é a forma como ele dá o início da jornada e, ao fim, não esquematiza um ciclo narrativo coerente, deixando uma concepção já complicada parecer ainda mais solta e sem sentido. Começamos com Mickey e Pateta fazendo uma apresentação teatral da obra de Dante, e então são hipnotizados por Abdul, o hipnotizador do Cafundistão, parceiro de Bafo. A partir daí, os dois atores não deveriam “sair de seus personagens“, mas o roteiro parece não entender a própria piada, pois quebra o tempo inteiro com a ideia de hipnose, fator piorado pela ida da dupla até à Biblioteca, onde, vejam só, leem A Divina Comédia. A partir desse momento tudo muda para melhor, porque o cerne da HQ, que é a viagem ao lugar de tormento, é bem estruturado e o texto mostra a que veio. Curiosamente, o final, se visto de forma isolada, também é incrível. Ele traz um inesperado encontro com uma boa dose de humor e metalinguagem, criando uma boa justificativa para a saída do Inferno. Mas ao mesmo tempo falta uma maior noção de unidade em toda a história, pois a base inicial do roteiro é abandonada, como se fizesse parte de uma outra aventura. Por sorte temos um bom final isolado, não dá para ficar insatisfeito demais com isso.

Com uma arte amedrontadora e ao mesmo tempo “fofa” de Angelo Bioletto e momentos visuais interessantes, especialmente no encontro entre grandes personagens, O Inferno de Mickey é uma daquelas adaptações charmosas que supera os seus próprios problemas e dá o recado que veio dar. Funciona para crianças e para adultos, além de ter uma inteligente transposição de motivos infernais para punir os mais diversos pecados, como professores que tornam matérias chatas na escola, alunos que passam cola para os colegas e por aí vai. Quanto aos versos, o roteirista não tentou ser um prodígio nem nada, não adianta cobrar dele a veia poética de Dante — esta nem é a proposta da HQ, vale dizer. Aliás, há uma brincadeira com isso no final, sendo os versos infantis perfeitamente coerentes com a proposta. Se Dante estaria orgulhoso, eu não sei, mas que esta versão do Mickey para o Inferno da Divina Comédia é divertida, ah, isso é.

O Inferno De Mickey (L’inferno di Topolino) — Itália, 1949 – 1950
Publicação original: Topolino #7 a 12 (Arnoldo Mondadori Editore, outubro de 1949 a março de 1950)
No Brasil: Clássicos da Literatura Disney #13 (Editora Abril, 2010)
Nos EUA: Walt Disney’s Comics and Stories #666 (2006)
Roteiro: Guido Martina (adaptação de A Divina Comédia, de Dante Alighieri)
Arte: Angelo Bioletto
78 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.