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Crítica | O Inquilino (1976)

por Fernando Campos
1646 views (a partir de agosto de 2020)

Poucos sabem trabalhar tão bem o terror psicológico como Roman Polanski, o diretor tem por característica construir histórias sombrias e tensas, onde é ressaltado o conflito psicológico de seus personagens. Esse seu estilo fica exemplificado na Trilogia do Apartamento, composta pelos filmes Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary e por último O Inquilino. As duas primeiras obras são marcantes na filmografia de Polanski e ressaltam toda a sua maestria em conduzir suspenses. Será que o terceiro longa da trilogia conseguiu alcançar o mesmo nível dos demais?

A obra mostra um imigrante polonês, chamado Trelkovsky (Roman Polaski), que está vivendo na França e aluga um apartamento em um estranho e antigo edifício residencial, onde seus vizinhos o olham com desprezo e suspeita. Ao conhecer o local, descobre que a última inquilina se atirou da janela e, com essa descoberta, torna-se obcecado pela mulher, fazendo com que se aproxime de Stella (Isabelle Adjani), uma amiga da vítima. Porém, com o tempo, ele se convence que os moradores pretendem matá-lo, passando a suspeitar de todos ao seu redor.

Logo nos créditos iniciais, através de um belo plano de grua, o diretor estabelece o local onde grande parte da trama acontece, um prédio com vários apartamentos, destacando como é um lugar descuidado, escuro e com paredes gastas, ou seja, uma escolha acertada em mostrar como aquele universo não é receptivo nem aconchegante. A sequência inicial também mostra algumas pessoas espiando pela janela, causando instantaneamente uma sensação de estranheza no público, ficando claro que aquele não é um ambiente normal.

A fotografia, feita por Sven Nykvist, ressalta ainda mais o tom sombrio da história, criando cenários com uma paleta de cores escura, muitos tons pastéis, mas principalmente, utilizando sombras, dando a sensação de obscuridade naquele local, como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento. Outro recurso brilhantemente utilizado é o som, criando suspense e inquietação, primeiro com a trilha sonora, composta por Philippe Sarde, que ressalta toda a melancolia da história, também adicionando momentos de tensão; mas principalmente com a edição e mixagem de som, que através de sons diegéticos, como, rangidos no piso ou sons desagradáveis toda vez que uma torneira é aberta, ressalta o quão perturbador é aquele apartamento.

O protagonista desse universo melancólico é Trelkovsky, interpretado de forma surpreendentemente boa pelo próprio Polanski. Apesar de não ser uma atuação para receber indicações a prêmios, ele consegue ser competente em transmitir as transformações que seu personagem passa, indo de um rapaz pacífico e que não gosta de perturbar ninguém à uma pessoa desconfiada e neurótica.

O ponto alto do filme é justamente a forma como o roteiro, escrito por Gérard Brach e Polanski, aborda a perturbação do personagem principal. O problema central que Trelkovsky sofre é a perda de identidade; e os roteiristas são inteligentes em desenvolver isso lentamente, ao natural, através de diálogos minuciosos, como um que ocorre com Stella na cama. Claro que, ao questionar sua própria identidade, ele passa a buscar outra, encontrando-a na imagem da antiga proprietária do apartamento, a suicida Simone Choule, e essa transformação também é brilhantemente conduzida, começando com a repetição de hábitos simples dela, como tomar chocolate ao invés de café ou fumando a mesma marca de cigarros, para depois chegar ao ápice de se vestir como ela.

A história tem alguns furos, como o fato de Trelkovsky ter vários amigos (que frequentavam a casa dele inclusive) no início do longa e no fim não ser procurado por eles mesmo tendo desaparecido do trabalho. Além disso, a obra cria várias dúvidas na mente do público e não dá uma explicação satisfatória, como, por exemplo, se os vizinhos realmente tramavam algo contra o protagonista ou tudo era fruto do estado mental dele? Mas o filme explora tão bem a psicologia do personagem e provoca tanto a imaginação de quem assiste que essas falhas diminuem frente as qualidades da obra.

A história de O Inquilino incita mais perguntas do que responde, acentuado ainda mais pela cena final que deixa confuso qualquer espectador. Porém, o filme não destoa das demais obras da Trilogia do Apartamento, sendo um belo estudo de personagem e competente em desenvolver o arco dramático em torno dele, conduzido não somente por uma ótima direção de Polanski, como também por uma atuação satisfatória. Ainda ressaltando que se perdermos nossa identidade, buscaremos em outro lugar e o resultado não será dos mais saudáveis, mas num mundo cada vez mais globalizado, onde tudo é padronizado, está cada vez mais difícil encontrar a própria, servindo, às vezes, de incentivo para a loucura.

O Inquilino (Le Locataire) – França, 1976
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Gérarg Brach, Roman Polanski (baseado na obra de Roland Topor)
Elenco: Roman Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Jo Fan Fleet, Bernard Fresson, Shelley Winters, Lila Kedrova, Claude Dauphin, Claude Piéplu, Jacques Monod, Patrice Alexsandre
Duração: 125 min.

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11 comentários

Alessandro 6 de junho de 2020 - 13:17

“O Inquilino” é realmente um filme intrigante que não oferece respostas fáceis ao espectador, principalmente no seu desfecho.
Será que tudo o que vimos pelo olhar não confiável do protagonista é resultado de um contínuo processo de enlouquecimento que resultou na perda da sua identidade? Ou então, será que de alguma forma o espírito de Simone Choule – no filme, é sugerido que ela é lésbica e sutilmente é aventada a possibilidade que ela pode ter tido um relacionamento com Stella-, sofreu ou achou que sofreu algum tipo de assédio por parte dos vizinhos e, por não ter suportado isso, se matou, mas antes de fazer isso encontrou uma forma de “reencarnar” em um corpo masculino (Trelkovsky), – essa bizarra possibilidade está sugerida na cena em o protagonista encontra um dente, que é uma parte do corpo de Simone. Além disso, ela trabalha em um museu na área de Egiptologia, o que sugere seu interesse pela tema da reencarnação, que é reforçado em cenas em que Trelvovsky encontra vários livros dela todos eles relacionados com o Egito, assim como o cartão postal enviado por seu colega que tem uma paixão platônica e não correspondida por ela.
Também o final enigmático, sugere que a alma de Simone está presa no corpo de Trelvovky, que por sua vez, reencenou os mesmos acontecimentos bizarros da existência anterior da moça. Assim, é Simone e não Trevolvky quem grita,- esse grito em alguns aspectos, remete ao quadro “O grito”, de Munch- uma vez que ela está condenada a repetir seu destino trágico.
Enfim, “O Inquilino” é um filme estranho que até mesmo é um objeto estranho na filmografia de Polanski. Talvez, justamente pelo seu aspecto estranho, ou melhor insólito, no qual a realidade gradativamente se desfigura e torna-se assustadora e pertubadora para o protagonista, é uma das obras mais interessantes do cineasta.

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Fernando Campos 9 de junho de 2020 - 18:20

São todas ótimas interpretações e coerentes com a proposta da obra. É daqueles filmes enigmáticos que deixam a gente pensando bastante tempo. Deu até vontade de rever hahaha. Enfim, boa sua análise.

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valentina 30 de outubro de 2017 - 21:57

spoiler alert: Outra interpretação possível (entre as infinitas) é a que Trelkovsky É Simone!! E o filme, assim como o livro, nos é apresentado como uma elipse deliciosa onde no início Trelkovsky visita a si mesmo no hospital (ainda num corpo feminino, que almeja não possuir mas antes SER, pois me parece que existe um subtexto transsexual nesse personagem, tanto em “Simone” que se imagina um homem-Trelkovsky- ou Trelkovsky que vai se tornando, lenta mas inexoravelmente uma mulher”Simone”, em ambos os casos temos um ser que se sente um “inquilino” no seu próprio corpo, não o proprietário dele) daí o grito de terror de “Simone”, pois reconhece a si mesma(o) no visitante. O personagem, dessa forma, pode ser o “ego” de Simone que falhando em tentar “escapar de si mesma” termina voltando para o ponto de partida no final do filme (seu corpo estropiado no hospital) após esse tour imaginário. O título do livro em que o filme se baseou, “Le Locataire chimérique” (numa tradução literal “O inquilino quimérico”) também corrobora essa tese: o personagem principal seria alguém “sonhado” por outro alguém, no caso ele(a) mesmo(a)!! Importante dizer que essa tese não descarta nenhuma outra, mesmo as contrárias a ela pois, numa obra de arte (e esse é um dos grandes baratos do fazer artístico) teorias contraditórias NÃO são necessariamente excludentes 😉

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Thiago Paz 10 de janeiro de 2018 - 04:29

Achei perfeita essa explicação, tive a mesma impressão. Só que agora ampliei o horizonte dessa hipotese com essa explicação sua, ele poderia ser ela imaginando.

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Fernando Campos 10 de janeiro de 2018 - 15:58

Realmente é uma interpretação ótima da Valentina, dá vontade de conferir o filme mais uma vez.

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valentina 18 de junho de 2018 - 00:11

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Fernando Campos 10 de janeiro de 2018 - 15:57

Que interpretação maravilhosa de O Inquilino. Faz todo o sentido e enriquece ainda mais a narrativa. Me deixou com vontade de assistir de novo! Aliás, bacana seu respeito pelas teorias contraditórias.

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valentina 18 de junho de 2018 - 00:08

poxa Fe, valeu! e “contraditória” é meu nome do meio 😉

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ddb 4 de março de 2017 - 05:08

Na realidade a dúvida plantada no público não é um furo do filme e sim um mérito. Quem conhece Polanski entende. Ele convida o público a ser o personagem. E sendo o personagem, não se sabe ao certo o motivo de tudo que acontece. Nos dá a liberdade das próprias impressões. Existem influências espirituais malignas no apartamento, e o personagem é suscetível com sua frágil sexualidade, pouca auto estima e constante rejeição anti semita. A neurose típica da metrópole e o estresse dos condôminos, além de problemas mentais e solidão completam o quadro.
Mas se a vizinha anterior também se suicidou, então existe uma assombração no apartamento. Ou será outro o motivo que atingiu a ambos?
Brilhante diretor.

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ddb 4 de março de 2017 - 05:08

Na realidade a dúvida plantada no público não é um furo do filme e sim um mérito. Quem conhece Polanski entende. Ele convida o público a ser o personagem. E sendo o personagem, não se sabe ao certo o motivo de tudo que acontece. Nos dá a liberdade das próprias impressões. Existem influências espirituais malignas no apartamento, e o personagem é suscetível com sua frágil sexualidade, pouca auto estima e constante rejeição anti semita. A neurose típica da metrópole e o estresse dos condôminos, além de problemas mentais e solidão completam o quadro.
Mas se a vizinha anterior também se suicidou, então existe uma assombração no apartamento. Ou será outro o motivo que atingiu a ambos?
Brilhante diretor.

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Fernando Campos 9 de março de 2017 - 20:56

Esse é um grande ponto de vista e que torna o filme mais interessante. Não apenas respeito sua opinião, mas confesso que tive vontade de revisitar a obra para analisá-la de novo. O fato é que Polanski é um diretor maravilhoso que nos presenteia com filmes capazes de gerar interpretações destoantes, mas ainda assim elogiosas. Aliás, espero que ele ainda lance vários longas para podermos analisar não é mesmo haha.

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