Crítica | O Pensionista (O Inquilino Sinistro)

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estrelas 3

Este terceiro filme de Alfred Hitchcock foi distribuído em momentos diferentes aqui no Brasil, por isso constam dois títulos nacionais para a obra, O Inquilino Sinistro (ou só O Inquilino) e O Pensionista. O longa conta a história de um serial killer que se autodenomina “Avenger” e que inicia uma série de assassinatos em Londres, todos cometidos contra mulheres loiras, sempre à meia-noite de terças-feiras. Esses crimes anunciados geram pânico na cidade enevoada e criam uma macabra expectativa na população, que sempre está à espera da próxima vítima.

O título original do filme, The Lodger: A Story of the London Fog é bem específico na criação de um significado que nos remete a um conto fantástico, uma história tradicional ou mesmo uma crônica. Com efeito, o assassino do filme é a representação do famoso Jack, o Estripador, e o modo como Hitchcock filma sua ação e mostra os efeitos sociais causados por seus crimes — focando a imprensa, a polícia e as famílias — nos faz lembrar a dinâmica de qualquer assassino em série noticiado nos dias de hoje. O modus operandi do “Avenger” e a abordagem da mídia são dois focos de estrutura narrativa para os quais o diretor dispensa bastante atenção, fazendo-os aparecer na tela durante o filme inteiro.

Através de jornais, telegramas, bilhetes, cartas, letreiros públicos e cartazes temos uma visão sempre ameaçadora dos eventos. Mesmo que a população queira esquecer e viver uma vida normal, algo sempre a faz lembrar do assassino e do tipo de mulheres que ele mata. Todos têm medo. E é nesse momento que o diretor insere o seu personagem principal, interpretado por Ivor Novello, o inquilino. O roteiro do filme tem uma ótima sequência de eventos e a colocação de Novello em cena só depois de instaurar o pânico e deixar o espectador tenso e curioso para saber quem é o assassino foi uma escolha muitíssimo acertada.

Com a chegada do misterioso jovem, temos o núcleo motivador preferido de Hitchcok: a culpa. A eficiente construção do roteiro mais uma série de indicações imagéticas exploradas pelo diretor em todo o início do filme ajudam a tornar a acusação ao protagonista ainda mais forte, posto que evidências não faltam de que ele é o culpado (ou pelo menos é o que imaginamos). O espectador também é um algoz, assim como o noivo de Daisy, só que em momentos diferentes da projeção; e o modo como o diretor “conclui” o mistério é quase uma brincadeira macabra com o público, porque há uma forte dubiedade em tudo o que é mostrado. Não sabemos se nos sentimos culpados por acusarmos um inocente ou se mantemos a acusação ao óbvio criminoso – perceba que a culpa é uma faca de dois gumes.

Hitchcock procurou ao máximo explorar composições visuais inteligentes. Podemos destacar os passos de Novello filmados sobre um chão de vidro. Na montagem, podemos vê-lo em um momento tenso, quando ainda temos dúvidas sobre quem é o jovem misterioso que chegou ao hotel. A cena é bem filmada, em todos os sentidos, e é praticamente o único momento do filme em que a edição é boa. Temos a família no térreo da casa/hotel, um tanto apreensiva sobre o novo hóspede. Então eles ouvem os passos pesados do jovem no andar de cima (e sabemos disso por indicação visual, uma vez que se trata de um filme mudo). Ao mesmo tempo, temos uma fusão de imagem e vemos, de fato, o inquilino “andar no teto”! Uma ideia muito eficiente no sentido dramático e bastante inteligente também.

O ritmo do filme não é ruim (em O Jardim dos Prazeres tivemos um problema pior com isso), mas a montagem peca muitíssimo em combinação de sequências, repetições pouco imaginativas de letreiros e símbolos, uso de íris e outros elementos focais que tornam a obra um pouco cansativa e formalmente descuidada. A despeito disso, O Inquilino é um filme que já traz as marcas de Hitchcock, a tensão, a dúvida, a suspeita, a culpa, o sexo, o amor complicado, as relações familiares e uma tensão permanente costurando todos esses elementos. Mesmo tendo complicações técnicas (leia-se uma montagem defeituosa) trata-se de um bom filme, um fruto do suspense tipicamente hitchcockiano, só que um pouco mais amargo do que os frutos de suas melhores safras, o que não o impede de ser apreciado.

  • Crítica originalmente publicada em 12 de outubro de 2013. Revisada para republicação em 20/08/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

O Pensionista / O Inquilino Sinistro (The Lodger: A Story of the London Fog) – UK, 1926
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Eliot Stannard, Alfred Hitchcock (baseado na obra de Marie Belloc Lowndes)
Elenco: Marie Ault, Ivor Novello, Arthur Chesney, June Tripp, Malcolm Keen
Duração: 68 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.