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Crítica | O Invencível (1956)

por Luiz Santiago
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Segunda parte da Trilogia de Apu, O Invencível começa com o estabelecimento da família protagonista em Varanasi (ou Benares), um recomeço após os eventos trágicos de A Canção da Estrada. Apu ainda é criança e o diretor Satyajit Ray dividiu a obra em dois momentos emocionais bem distintos, explorando detalhadamente o comportamento desse indivíduo em cada bloco. O primeiro, focado na figura paterna, traz Apu brincando com os amigos, participando de festividades, correndo para todos os lados. O segundo, focado na figura materna, traz Apu já crescido, trabalhando e empenhado ao máximo nos estudos, o que resulta em um maior afastamento dele em relação à mãe, desembocando num triste acontecimento ao final do filme que, apesar de ter alguma possibilidade de leitura ética desconfortável, não é utilizada pelo diretor com esse fim, como uma acusação moral.

Levando em conta as perdas do protagonista, Aparajito é tanto um filme sobre o seu amadurecimento precoce quanto um filme sobre a sua construção de caráter, com detalhes sobre sua personalidade, seus gostos, seus interesses acadêmicos e sua relação com os pais. A mudança em comparação ao filme anterior é que aqui existe uma quantidade bem menor da magia infantil, da delicada apresentação do mundo através do olhar curioso de um menino inquieto, com paupérrimas condições de vida, mas bastante feliz (veja como o fotógrafo Subrata Mitra torna as panorâmicas e a profundidade de campo algo recorrente nos quadros em que Apu aparece, mostrando a ânsia por liberdade, por explorar novos territórios). Nessa segunda parte da jornada, Ray intelectualiza as experiências do garoto e nos mostra os últimos anos da vida mais tranquila de Apu (Pinaki Sengupta), levando-nos suavemente para o amadurecimento do menino e sua chegada à idade universitária, quando passa a ser interpretado pelo simpático Smaran Ghosal.

O isolamento do personagem pode ser visto na forma como o cineasta escolhe filmá-lo. O comportamento explorado pelo roteiro também ressalta isso, e vemos a típica introspecção adolescente aparecer; notamos a melancolia com que o diretor filma as cenas de poucas palavras do jovem nas conversas com a mãe e também as coisas que o desviam desse contato materno. O espectador sente profundamente a progressiva separação, mas isso não surge na tela como uma acusação a Apu: não existe maniqueísmo aqui. Satyajit Ray explora o crescimento do personagem e faz com que seu comportamento seja entendido como parte daquilo que a idade traz. Não há uma construção vilanesca ou fatalista aí. Apenas a exposição de um adolescente agindo como um adolescente, tendo interesses muito diferentes de sua mãe e insistindo em seguir o caminho dos estudos, que é algo que lhe dá prazer. A dor do amadurecimento externo que também causa outras dores, num processo natural que apesar de não ser necessariamente feliz, é compreendido como parte da vida.

A estadia de Apu em Calcutá termina por delinear algumas tensões e adicionar um pouco mais de amargura no coração de dele e de sua mãe. Para ambos, a sequência de tragédias parece não dar trégua, e no caso de Apu, isso parece ser um ponto ainda mais intenso, porque ele segue em formação pessoal e intelectual. Desse modo, O Invencível passa a ser um filme sobre a celebração das conquistas, sobre abraçar sonhos e oportunidades, mas também sobre não negligenciar atenção a quem merece. Por mais ocupações, compromissos e falta de tempo que estejam em jogo, é sempre importante lembrar que esse mesmo tempo passa para os mais velhos, para aqueles que estão mais próximos da eternidade do que do gozo da vida, e em algum ponto das relações, o não aproveitamento correto desses momentos virão cobrar o seu preço. Vinda a tragédia, não há mais nada a fazer além de chorar e seguir sobrevivendo com essa dor e o possível arrependimento. Uma postura de invencível adquirida através de atos egoístas, mas não necessariamente maus, que certamente terminam por moldar o amadurecimento de qualquer um.

O Invencível (Aparajito / ‘অপরাজিত’) — Índia, 1956
Direção: Satyajit Ray
Roteiro: Satyajit Ray, Kanailal Basu (baseado na obra de Bibhutibhushan Bandyopadhyay)
Elenco: Kamala Adhikari, Lalchand Banerjee, Kali Bannerjee, Kanu Bannerjee, Karuna Bannerjee, Panchanan Bhattacharya, Harendrakumar Chakravarti, Hemanta Chatterjee, Meenakshi Devi, Subodh Ganguli, Smaran Ghosal, Charuprakash Ghosh, Santi Gupta, Ajay Mitra
Duração: 110 min.

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