Crítica | O Irlandês (2019)

Eu ouvi dizer que você pinta casas.

O Irlandês (2019) acabou se tornando (“sem querer“, nas palavras do próprio diretor), o maior filme de Martin Scorsese. Ficção que sucede o seu Silêncio (2016), a película tem como base um livro de título grande (I Heard You Paint Houses: Frank “The Irishman” Sheeran and Closing the Case on Jimmy Hoffa), lançado em 2004 e escrito pelo ex-promotor, investigador e advogado de defesa Charles Brandt, cuja narrativa em forma de crônica — e é muito importante ter este gênero em mente — nos conta a história de Frank, veterano da Segunda Guerra Mundial que se filia a um sindicato e, por motivos mais ou menos simples, acaba se tornando um assassino a serviço da máfia. No momento em que a obra começa, o personagem está rememorando sua vida e sua carreira no mundo do crime organizado, contando aí a ligação com a família Bufalino e o desaparecimento de um famoso e admirado líder trabalhista de quem foi amigo por muitos anos.

Nesta crônica concebida por Steven Zaillian, que faz uma excelente adaptação do material original, temos um filme que acontece em duas dimensões dramáticas, cada uma trazendo uma porções de significados adicionais para si mesma. Na primeira delas, o Universo fílmico, a saga que tem em seu núcleo três personagens desenvolvidos da maneira mais clássica possível: homens duros, filhos de um tempo com limites hoje irreconhecíveis e diante dos quais vemos a vida passar e tudo se alterar na política, nos negócios, na família e… no próprio corpo desses homens, que ao cabo de suas vidas, do alto de seu grande poder — desta vez não estamos lidando com mafiosos dados a espetáculo ou de importância local, como em Os Bons Companheiros, por exemplo. Estamos falando da máfia sóbria, também política, majoritariamente silenciosa e poderosa a nível federal — precisam lidar com seus próprios demônios, buscar paz interior e enfrentar de verdade o inimigo prometido desde sempre: a morte.

Em O Irlandês há o silêncio. Os personagens não precisam berrar o tempo inteiro. Não há a necessidade de música o tempo inteiro. E a direção de Scorsese está a tal ponto afiada, que ele consegue construir longas sequências de tensão para cada bloco da obra apenas através do que conhecemos desses personagens, de seus comportamentos, do que são capazes e das implicações de suas ações nos mais diferentes níveis da sociedade, tudo isso dentro de um recorte intimista.

Note como o diretor desenvolve Russell Bufalino, o personagem de Joe Pesci, que assim como seus parceiros de cena, está gigante neste filme (vale nota para o fato de que Pesci está praticamente aposentado e precisou de convencimento e insistência de seus amigos de longa data para entrar em mais esse projeto… ainda bem!). Ele não precisa de muito para exprimir a sua ameaça. Ele é um homem velho, cansado, com sono o tempo todo, mas cuja influência é capturada de maneira sublime pela câmera do diretor e graças à forma como o ator encarna o seu papel. Na mesma linha, temos a classe com que Robert De Niro (Frank Sheeran) assume esse papel de aprendiz que pouco a pouco ganha espaço num território dominado por italianos. Tudo o que De Niro faz aqui se torna a coisa mais orgânica, mais natural possível, a ponto de conseguir com que a gente se esqueça que este é só um personagem! Suas falas surgem com uma naturalidade inacreditável e o crescimento do ator ao longo do filme é refletido com a mesma qualidade na risada, nos pequenos gestos, na maneira de olhar o mundo e na forma como demonstra a decadência do corpo. Na outra ponta da régua temos o novo membro da gangue scorseseanaAl Pacino, interpretando Jimmy Hoffa. Sua caraterização é tão cativante e demanda tanta atenção, que cada linha que ele pronuncia parece uma declaração de guerra debochada que vai pouco a pouco entrando em confronto com as estritas regras do restante do grupo. Que personagem!

Olhando para esse imenso rigor do diretor na condução dos atores e da trama, na forma como orientou a montagem — que aqui flui como um rio, num dos trabalhos mais brilhantes de Thelma Schoonmaker, conseguindo fazer um filme de 3h30 ser dinâmico e prender a nossa atenção com a mesma intensidade do começo ao film, o que relativiza a nossa percepção do tempo –, chegamos à outra dimensão da obra, com O Irlandês servindo de olhar analítico do próprio Scorsese para sua carreira, trabalhando com seus amigos e colocando na tela o sinal cinematográfico de uma Era… ou o fim de um tipo de filme que o grande público de hoje em dia, por diversas razões, não quer mais, não aprecia mais, não vê seu valor intrínseco. É quase como ir para a década de 60 e testemunhar o fim dos gigantescos épicos de estúdio como Ben-Hur ou Cleópatra. Assim como Silêncio antes desse, Scorsese não vem encontrando mais conexão com o público de hoje e outros grandes diretores de sua geração também não, o que resulta em uma quantidade ridiculamente pequena de filmes desse naipe, que se baseiam unicamente em relações humanas, que não se valem de pirotecnia para prender a atenção e que tomam seu tempo para desenvolver uma narrativa incrível que permite aos atores todo o espaço do mundo para oferecer interpretações nuançadas de aquecer corações.

Chega a ser irônico que só Netflix — um símbolo da sociedade mais dinâmica e de interesses mais efêmeros — é que foi em frente e bancou uma produção dessas, ao mesmo tempo permitindo que ela chegasse ao público pela maneira mais democrática possível quando sair no streaming, mas também “matando” o glamour que esse tipo de obra merece, ou seja, o tratamento vip da experiência cinematográfica. E olhem que o longa celebra (ou retrata com certa melancolia, no melhor sentido do termo) esse passado temático/cinematográfico através de um magnífico trabalho estético, com pesquisa de época que servem para os excelentes figurinos, direção de arte e até os experimentos da fotografia, o que se reflete também na maneira como Scorsese arrisca em marcar o tempo de maneira diferente na tela. Não existem datas nos blocos cênicos, apenas a documentação para a morte de cada personagem secundário — reparem a ironia — e imagens de arquivo ou diálogos que nos indicam a passagem do tempo (principalmente) entre os governos Eisenhower, Kennedy, Johnson e Nixon. E com o tempo, o método, as lutas e as atitudes desses personagens se alteram, cavando ainda mais uma solidão individual que cresce à medida que eles envelhecem e os forçam a buscar coisas que nunca pensaram em buscar.

Talvez por este motivo a grande surpresa da obra — e decepção para os mais afeitos à “normalidade ágil” do cinema massivo hoje — seja o fato de que ela não tem pressa em entregar lutas, em mostrar personagens gritando ou as muitas mortes banais e violentas como esperamos dos filmes do diretor. Scorsese faz o que deveria ser feito em um divisor de águas para uma Era: ele não concede que as manias do novo tempo interfiram no fechamento da porta que ele quer fechar, a porta de seu próprio cinema e de sua visão geral da Sétima Arte nesta década que termina em 2019. A maior voz aqui é dada para os personagens polêmicos, enquanto as mulheres e outros indivíduos seguem num contexto secundário, de poucas ou nenhuma fala, pois esse tipo de história não é a história deles. E se o espectador que viveu pelo menos vinte anos assistir ao filme e não entender esse tratamento dado pelo cineasta e pelo roteirista, fica aí a pergunta: em que mundo você acha que está vivendo?

Vale também dizer que o trabalho de envelhecimento ou rejuvenescimento dos personagens é algo que certamente irá gerar controvérsias pelo caráter possível de uncanny valley, o que é esperado. A colocação aqui, dada pelo próprio Scorsese é simples: no ano de 2019, quando o filme foi finalizado, tudo o que havia de possibilidades para se fazer com esse tipo de tecnologia, foi feito no filme. Particularmente não tive nenhum problema em nenhuma cena da obra com o uso dessa tecnologia, que é aplicada de maneira pesada em poucos momentos, alternada com muitas cenas de complemento do programa para a excelente maquiagem dos atores (na coloração, elasticidade e linhas de expressão), mas também vale dizer que na maioria das vezes a maquiagem está ali sozinha, sem ajuda digital alguma, e o resultado é igualmente espetacular.

Na reflexão sobre a vida, sobre o fim de uma Era, sobre a velhice e o contraste da essência calejada de um indivíduo com os novos tempos em torno dele (notem que, nesta mesma safra, Era Uma Vez em… Hollywood e Dor e Glória fazem exatamente a mesma reflexão, em tempos e abordagens distintas) temos por fim a divulgação de uma lenda contrastada com o medo final de seu narrador… e o filme sobre esse dilema, mostrando os últimos momentos de alguém com um passado grandioso. Este é O Homem Que Matou o Facínora da nossa Era, com uma revisão de carreira no crepúsculo de uma década, na mudança do público e do jeito de se produzir, exibir, entender e discutir a Sétima Arte. O Irlandês é um filme histórico feito sob medida para quem realmente ama CINEMA. A obra que concentra a essência do trabalho de Martin Scorsese e apresenta uma linha de abordagem que será melhor compreendida, fortalecida e relevante à medida que o tempo passar. Em outras palavras, eis aqui um clássico.
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  • Os trechos em cor verde são de autoria do meu perseguidor implacável (que para efeito de manter as aparências chamarei de amigo), o Sr. Ritter Fan, que me mandou um e-mail muito bonitinho comentando sua impressão da obra — nós vimos o longa em sessões Especiais, em cidades diferentes, no mesmo dia — e que achei tão bom e tão idêntico à minha própria visão do filme (de vez em quanto ele consegue escrever algumas coisas legais, bora lá…) que não pude deixar de inserir esses trechos do e-mail dele na minha crítica.
  • Crítica originalmente publicada em 15 de novembro de 2019, dia seguinte de sua estreia limitada nos cinemas.

O Irlandês (The Irishman) — EUA, 2019
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Steven Zaillian (baseado na obra de Charles Brandt)
Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Jesse Plemons, Anna Paquin, Joe Pesci, Stephen Graham, Bobby Cannavale, Harvey Keitel, Jack Huston, Kathrine Narducci, Domenick Lombardozzi, Dascha Polanco, Aleksa Palladino, Ray Romano, Sebastian Maniscalco, Paul Ben-Victor
Duração: 209 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.