Crítica | O Irlandês, de Charles Brandt

Qual é o verdadeiro valor de uma confissão? Sob o ponto de vista jurídico, uma confissão não pode ter valor absoluto e, desacompanhada de elementos que a corroborem, não prova absolutamente nada, até porque ela pode ser, como muitas vezes é, utilizada para justamente desviar uma investigação da verdade ou pode ter sido obtida por meios ilegais, como a tortura. Por outro lado, sob o ponto de vista pessoal e/ou espiritual, uma confissão, sozinha, pode ser de extrema serventia, tirando do peito do confitente a pressão da culpa que o martela. O Irlandês, obra de Charles Brandt originalmente publicada sob o título I Heard You Paint Houses (ou “Ouvi Dizer que Você Pinta Casas“) é o resultado de anos de um minucioso trabalho do autor para extrair um sem-número de confissões de Francis Joseph Sheeran, braço direito, por décadas, de um dos mais renomados mafiosos com atividade nos EUA, Russell Bufalino.

Essas confissões, muito bem organizadas por Brandt em um razoavelmente longo livro que até poderia ser chamado de romance documental, mas que não é exatamente isso, são exatamente o que parecem: confissões. Confissões de crimes que Frank Sheeran disse ter cometido e de outros em que ele disse ter participação, mas que nunca foram provados, nunca passaram pelo crivo final da Justiça e, portanto, são normalmente engavetados como teorias, por vezes até “da conspiração” em razão da importância de algumas coisas que o ex-assassino confessou. Portanto, muitos simplesmente descartam O Irlandês como uma obra de ficção, sem qualquer valor intrínseco.

E essas pessoas estariam muito erradas em fazer isso. Na verdade, é um desserviço ao cuidado extremo que Charles Brandt claramente teve para reunir os dados que ele apresenta em seu livro e que ganhou uma bela adaptação cinematográfica por Martin Scorsese, em 2019. Quem quiser rechaçar as confissões mais quentes de Sheeran, conhecido como “O Irlandês”, não só precisará trazer argumentos robustos e significativos – o que não é algo tão fácil assim -, como também perderá o objetivo maior da obra, que é entregar um panorama amplo da chamada máfia silenciosa que atuava de forma organizada nos EUA até ser desbaratada pela inclemente ação do FBI nos anos 70 e 80. Claro que o próprio Brandt bate no peito seu feito de finalmente desvendar um dos crimes mais famosos dos EUA, o desaparecimento do líder do sindicato dos caminhoneiros Jimmy Hoffa, uma verdadeira lenda em sua época, mais famoso que muito astro de Hollywood, mas O Irlandês – o livro – é muito mais do que apenas isso.

Apagando-se da narrativa, Brandt deixa Sheeran falar, intrometendo-se apenas em trechos selecionados para contextualizar historicamente o leitor e, com isso, o mafioso ganha voz livre, com o leitor gradativamente envolvendo-se em sua longa e cada vez mais complexa história que começa quando ele ainda era criança, passando por seus inacreditáveis 411 dias de combate durante a 2ª Guerra Mundial (a média era de 100 dias!) e chegando até seu extenso trabalho para Bufalino e Hoffa nas mais diversas capacidades, dentre elas a “pintura de casas”, nada mais do que um código para o assassinato de quem estivesse incomodando a máfia em determinado momento. O resultado é uma panorama detalhado e assustador do quão capilarizada e organizada era a cosa nostra por todos os Estados Unidos, com grande foco na região nordeste, central e, claro, no oeste, mais precisamente Las Vegas e seus cassinos, sem deixar de fora as conexões espalhadas nos Três Poderes, especialmente no Executivo. Sim, já vimos muita coisa disso em filmes como Cassino, Os Bons CompanheirosDonnie Brasco e, de maneira ainda mais romântica, na Trilogia O Poderoso Chefão, mas, em O Irlandês, o ponto de vista de alguém profundamente enfronhado nessa mecânica em um nível elevado, mas não exatamente no topo, permite um mergulho detalhado nessa teia de conexões.

Brandt tem muito cuidado com nomes, já que eles são muitos e eles poderiam confundir o leitor muito facilmente. Para evitar isso, o autor peca pela repetição. Muitos pronomes que poderiam ser usados foram trocados por nomes e apelidos que acabam sendo repetidos à exaustão para fins de fixação, uma escolha prática que, de certa forma, macula o lado literário da obra, mas por uma boa razão. Afinal, é muito importante saber quem é quem para que seja possível apreciar o tamanho da questão sendo descrita por Sheeran em entrevistas que duraram quase cinco anos, com o mafioso já idoso, depois de sair da cadeia e que foram consequência de contatos iniciais de Brandt – originalmente defensor público e advogado especialista em interrogatórios – duas décadas antes.

A versão que li do livro é a mais recente à época da redação da presente crítica, já com o título da adaptação feita por Scorsese (na verdade, até onde pude verificar, no Brasil o livro foi originalmente publicado como O Irlandês mesmo) e com dois adendos, um deles em que Brandt finalmente se insere na narrativa contando sobre seu trabalho com Sheeran e trazendo elementos corroboradores das confissões e outro que aborda especificamente seu trabalho de consultoria para a produção do filme, que toma um formato de anedotário. Se o epílogo, apesar de desnecessário, abre os olhos do leitor não só para a tarefa enorme que Brandt empreendeu em suas pesquisas – ele sabe muito bem o pouco valor jurídico de confissões -, como também para as provas paralelas de momentos-chave nas confissões de Sheeran que trazem relevância ao que ele disse, o capítulo dedicado à produção pareceu-me desinteressante e perdido, por vezes alongando e repetindo a narrativa, mas desta vez sob o ponto de vista exclusivo de Brandt, o que quebra um pouco a magia, por assim dizer.

Mesmo aqueles que preferirem torcer o nariz para os momentos mais relevantes das confissões de Sheeran encontrarão riquíssimo material que permite uma visão privilegiada da história da máfia italiana nos EUA. Aos que forem um pouco menos descrentes, a riqueza será ainda maior e o caráter de thriller confessional – sei lá se isso existe! – ganhará ainda mais relevo na fascinante história de um dos raros irlandeses no seio siciliano da cosa nostra.

O Irlandês (The Irishman: Frank Sheeran and Closing the Case on Jimmy Hoffa, EUA – outubro de 2019)
Publicado anteriormente nos EUA como:
– I Heard you Paint Houses: Frank “The Irishman” Sheeran and the Inside Story of the Mafia, the Teamsters, and the Final Ride of Jimmy Hoffa (capa dura) – junho de 2004
– I Heard you Paint Houses: Frank “The Irishman” Sheeran and Closing the Case on Jimmy Hoffa – abril de 2008
Publicado anteriormente no Brasil como:
– O Irlandês: Os Crimes de Frank Sheeran a Serviço da Máfia – fevereiro de 2016
Autor: Charles Brandt
Editora original: Steerforth Press
Editora no Brasil: Editora Seoman (Grupo Editorial Pensamento)
Páginas: 312 (versão atualizada de 2019)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.