Crítica | O Jardim das Delícias (1970)

El-jardin-de-las-delicias-AKA-The-Garden-of-Delights-1970-o jardim das delícias plano crítico

Vindo depois de dois filmes definidores logo no início da carreira de Carlos Saura, a saber, A Caça (1966) e Peppermint Frappé (1967), O Jardim das Delícias (1970) traz o diretor abraçando uma série de questões políticas, sociais e culturais da Espanha de Franco, mas sem fazer referências diretas a isso ao longo da obra. Até a representação de manifestantes comemorando o início da Segunda República Espanhola (1931 – 1939) está revestida de outra camada aqui. É através do delírio, da metáfora e de um forte tempero surreal (algo muito caro ao diretor) que todos os arranjos pessoais são realizados. Já para um leitor alheio às questões políticas do país de Buñuel ou das intenções de Saura nesta primeira fase de sua carreira, O Jardim das Delícias será apenas um filme sobre a bizarra fase de recuperação para um grande empresário, após um acidente de carro.

O protagonista quase silencioso é vivido de maneira excelente por José Luis López Vázquez, que captura nos mínimos detalhes o comportamento de alguém com movimentos, fala e cognição afetados por uma tragédia, assim como constrói muito bem a recuperação deste indivíduo, mostrando uma face agressiva e violenta que antes não imaginávamos nele. O roteiro se desenvolve a partir deste personagem, que é a cabeça de uma empresa familiar, o detentor do segredo do cofre na parede da casa e da localização misteriosa de uma conta na Suíça. É do interesse financeiro de todos que Antonio recupere a memória, mas isto não é algo que parece estar próximo de acontecer…

Por mais simples que seja a direção de Saura aqui — embora seu seu trabalho ganhe maior rigor através da montagem –, existem cenas que mostram uma grande habilidade em criar cenários fantasiosos, cômicos ou oníricos, algo constantemente reforçado pela direção de fotografia e principalmente pela direção de arte. Nesse jogo de encenações para que o protagonista consiga recuperar a memória revivendo eventos de sua vida, o espectador tem contato com o absurdo e o ridículo desse projeto familiar, algo que tem menos a ver com a saúde do acidentado e mais com aquilo que ele pode trazer de lucro para os parentes. E se existe alguma dúvida em relação a isso, num primeiro momento, basta esperar até a cena de “retorno” do personagem ao escritório da empresa, onde uma reunião de negócios termina sendo o local definitivo para o seu escanteio. Ele está convalescido e não gera mais lucros, logo, não é mais necessário. Sentimentalismos não enchem os bolsos.

Sequestrado por um estado de saúde que tira-lhe o poder sobre os outros, Antonio prova muita coisa de seu veneno. Sua dificuldade de fala e de locomoção, mesmo que vá melhorando ao longo da fita, o impedem de agir como quer e isso o frustra tremendamente. Ao seu redor, pessoas mudam de roupa, colocam maquiagem, fingem representar papéis do passado, querem trazer-lhe cenas da infância, da juventude e do começo da vida adulta, como se o olhar para o passado fosse a cura para as desgraças do presente.

O Jardim das Delícias é a história de uma queda, da perda de força de um poderoso, embora seu veneno, sua raiva e sua vontade de matar ainda estivessem com ele. Um retrato de como estava o governo de Franco em 1970, cinco anos antes da morte do infame ditador: um governo ainda vivo, ainda afetando negativamente a tudo e a todos, mas sobrevivendo de glórias, farsas e conquistas passadas. Um Estado que deliberadamente encenava situações de beleza, harmonia e valores religiosos, familiares e sentimentais para o povo, mas que na realidade já experimentava o seu Inferno, emulando o tríptico de Hieronymus Bosch do qual Saura tirou o título deste filme. A obra é simples, um tantinho confusa e com um final que merecia tratamento mais acurado do diretor e de seu parceiro Rafael Azcona no roteiro, mas cuja mensagem e o impacto sobre o público são certeiros.

O Jardim das Delícias (El jardín de las delicias) — Espanha, 1970
Direção: Carlos Saura
Roteiro: Rafael Azcona, Carlos Saura
Elenco: José Luis López Vázquez, Luchy Soto, Francisco Pierrá, Charo Soriano, Lina Canalejas, Julia Peña, Mayrata O’Wisiedo, Esperanza Roy, Alberto Alonso, Luis Peña, José Nieto, Antonio Canal, Eduardo Calvo, Marisa Porcel, Luisa Fernanda Gaona
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.