Crítica | O Julgamento de Deus

Por que sofrem os justos? Eis uma das mais espinhosas perguntas feitas tanto pela religião como pela filosofia em todos os momentos de nossa história. Respostas a elas podem ser encontradas em páginas que vão desde a filosofia antiga ao livro de Jó, passando obviamente por filósofos modernos como Leibniz e Voltaire. Como seria, entretanto, se convocado fosse para responder a essa pergunta a própria figura de Deus, sentado em um banco dos réus? Como seria inverter a premissa de um Deus onipotente, que julga, pune e felicita e transformá-lo em um réu submetido ao escrutínio dos homens? A lenda de que um grupo de prisioneiros de Auschwitz certa vez se reuniu, já no fim da guerra, para realizar esse improvável julgamento ganhou as telas em 2008 na forma de um longa-metragem lamentavelmente pouquíssimo conhecido.

O Julgamento de Deus, filme britânico estrelado por Stellan Skarsgard, Antony Sher, Rupert Graves e Jack Shepherd, surpreende por seu conteúdo tão denso e tão arredio a didatismos (ainda que isso afaste alguns de sua dura discussão). Seu tom é bastante teatral e, exceto por alguns planos-detalhe, alguns efeitos de flashback da montagem e por intervenções extradiegéticas discretíssimas da trilha sonora, poderíamos pensar a obra em grande medida como uma peça teatral filmada e em ato único. Nesse sentido, ganham enorme destaque as interpretações do competente elenco e o roteiro possante, complexo e que evoca pontos fulcrais da Torá, da ciência moderna e da filosofia ocidental para engrossar o debate. A essência de O Julgamento de Deus não é expurgar o sofrimento dos judeus nem condenar os atos dos nazistas. Nesse julgamento só há um réu e isso torna esse um dos filmes mais originais sobre o tema.

Engana-se também quem pensa que a discussão se resuma ao óbvio. Apesar de curto, o longa-metragem irá muito além de lugares-comuns, como a maldade intrínseca do ser humano e seu livre-arbítrio. Aliás, em uma fala poderosíssima, um dos personagens já demole brutalmente essa ideia. O pai judeu, que teve que escolher pela vida de apenas um de seus três filhos, pergunta para um júri em silêncio: “Que escolha eu tive?”. A pergunta constrange e desarma o próprio público. Como pode o livre arbítrio explicar tanto mal, se ele parece ser privilégio apenas dos que praticam a vileza? E assim O Julgamento de Deus avança, sem que se possa obter um veredito seguro até o último minuto, já que tanto as acusações como as defesas de Deus encontram rapidamente o seu contraditório na boca dos próprios jurados. Essa coesão extraordinária do roteiro captura um espectador tão confuso quanto ansioso por uma resposta tão difícil.

Há argumentos de ataque a Deus bastante ferinos, como o do físico, que evoca o caráter histórico e político das religiões como poderosas fontes de poder e dominação sobre os povos. O inteligente cientista (e também um judeu com sua fé combalida) parece ressoar o Diabo em seu diálogo com Jesus em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Deus é bom, é mau ou simplesmente foi criado como uma astuta ideia para que homens dominem e exterminem uns aos outros? A resposta que recebe, entretanto, desorganiza por completo o argumento. Afinal, crendo ou não crendo em Deus e manifestando-se contra ele ou em seu nome, a morte e a bárbarie sempre atingiu a todos. Sem exceção. Mais uma vez, O Julgamento de Deus esgarça os argumentos mais frequentemente usados tanto para defender como para atacar a figura de Deus. A obra torna-se uma quase insuportável sequência de aporias. É admirável como o texto do roteirista mergulha de fato na complexidade da questão.

Mas o mais belo do longa-metragem britânico é notar que o veredito é obtido sem qualquer viés religioso ou ateísta. Não se pretende com a conclusão afirmar a existência ou a inexistência de Deus, mas sim mostrar que a figura, antes excelsa e agora acusada pelos homens, ainda é uma inesgotável fonte de afeto, similitude e confraternidade para aqueles que nele crêem. Yuval Harari, em seu magnífico Sapiens, demonstra que a capacidade de sobrevivência da nossa espécie em seus momentos mais críticos sempre se deveu à nossa capacidade de criar crenças compartilhadas e afetos que nos unem por meio delas. Existindo ou não, culpado ou inocente, não seria Deus uma das figuras centrais na nossa transformação de seres frágeis e individuais a seres fraternos e resistentes? O roteiro, brilhante do começo ao fim, arremata: “Nós ainda estamos aqui”. Só a beleza dessa resposta já deveria tornar este um clássico do gênero.

O Julgamento de Deus (God on Trial, Reino Unido – 2008)
Direção: Andy de Emmony
Roteiro: Frank Cotrell Boyce
Elenco: Stellan Skarsgard, Antony Sher, Rupert Graves, Jack Shepherd, Dominic Cooper, Eddie Marsan
Duração: 85 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.