Crítica | O Justiceiro – 2ª Temporada

O Justiceiro é um personagem que, em sua origem nos quadrinhos, nunca exigiu histórias complicadas para dar certo. Ele é um veterano de guerra que, depois que sua família é assassinada, torna-se um psicopata que caça bandidos e os mata sem dó nem piedade (se pararmos para pensar, não é muito diferente do Batman). Ponto final. Mas é justamente essa premissa que o torna difícil de ser adaptado no mundo moderno que não parece mais ficar satisfeito com simplicidade e precisa abordar tudo com elevadas questões morais por trás que emprestam significados maiores a Frank Castle e sua vingança contra a bandidagem em geral. Os anos 80 entendiam isso e talvez a primeira adaptação cinematográfica do personagem ainda seja a melhor, apesar da tosquidão latente, mas não é isso que vemos na abordagem da Marvel com a Netflix.

E, se não é simplicidade que podemos ter, com um homem armado até os dentes, com uma caveira no peito, matando a torto e a direito porque o mundo politicamente correto corre em desespero quando um história ficcional envolvendo armas e mortes a sangue frio não oferecem mais do que puro entretenimento, então ganhamos uma narrativa pseudo-complexa, cheia de palavreado bonito, para impressionar os mais inocentes e para relativizar absolutamente tudo o que vemos. Frank Castle não pode nem mesmo ser um anti-herói. Que lições passaremos para nossos filhos se a palavra herói for utilizada próxima a um personagem tão violento, meu Zeus? Que mundo é esse que “aceita” um homem que é juiz, júri e executor? Onde está a Justiça? A moralidade?

A parceria televisiva da Marvel com a Netflix, que está em seus estertores, trouxe o Justiceiro na 2ª temporada de Demolidor de maneira muito eficiente. Na 1ª temporada da série solo do personagem, porém, apesar de a essência do Justiceiro ter permanecido de forma razoavelmente intacta, faltou ousadia em lidar de maneira mais gutural com o personagem, mesmo que o saldo final tenha sido positivo. Agora, na 2ª temporada, o Justiceiro passa a ser um sujeito perturbado cercado de gente mais perturbada ainda, em uma espécie de competição para ver quem é a pessoa mais problemática.

Mas, antes da sessão psiquiátrica coletiva e alongada começar, a temporada vai muito bem. Toda a narrativa inicial que coloca Frank Castle (Jon Bernthal mais intenso e psicótico do que nunca) esbarrando em uma garota que está fugindo de assassinos frios é “Justiceiro raiz” sem tirar nem por. Mesmo com a ação sendo intercalada com o que “sobrou” da temporada anterior, ou seja, seu arqui-inimigo Billy Russo (Ben Barnes) recuperando-se de seus vários “encontros faciais” com os espelhos do carrossel onde a família Castle foi exterminada, os três primeiros episódios são repletos de ação e mostram o Justiceiro fazendo o que faz de melhor, além de apresentar um inimigo novo, frio, calculista e fanático religioso, o que estabelece um caminho promissor.

No entanto, esse caminho promissor logo ganha um gigantesco desvio e toda a trama envolvendo a jovem que Castle salva – Amy, vivida por Giorgia Whigham – fica em segundo plano, quando a não menos maluca agente Dinah Madani (Amber Rose Revah) resolve trazer Castle de volta para Nova York para ele caçar o recém-foragido Russo, que se envolve com sua psiquiatra (que também não bate nada bem) Krista Dumont (Floriana Lima) que vem tratando de sua profunda amnésia há meses. É essa providencial amnésia que faz com que o lado psiquiátrico da temporada ganhe extremo relevo ao ponto de se tornar cansativo e, mais do que isso, repetitivo. A quantidade de texto expositivo que é enxertado nos roteiros de maneira a martelar a ideia de que Russo é uma pessoa mudada faz com que a temporada reapresente os mesmos problemas da anteriores, só que de forma invertida. Se antes Russo era frio e calculista e Castle era o louco furioso, agora Russo é movido por paixão e por uma tábula rasa que o deixa desesperado. Ele é odiado sem saber o porquê, sem sentir o porquê e faz de tudo para remediar isso, só que esse “tudo” é, basicamente, repetir o que vimos anteriormente.

Mesmo que a trama envolvendo o novo e silencioso assassino que conhecemos apenas pelo prenome John e pelo sobrenome (ou alcunha, não sei) Pilgrim nas legendas (vivido por Josh Stewart) seja mantida viva por intermédio de irritantes mistérios, como a recusa boba de Amy de contar o porquê de um exército tentar matá-la e de eventos que não têm relação direta com o Justiceiro, como o passado de John voltando para espancá-lo, a grande verdade é que Billy Russo acaba ganhando os holofotes por muito – MUITO – mais tempo do que precisava ou merecia. E, com essa escolha do showrunner Steve Lightfoot, a temporada vai aos poucos perdendo sua urgência e sua importância, tornando-se só mais um exercício nada convincente de como manter a história funcionando ao longo dos regulamentares 13 episódios.

E é evidente que não havia estofo para essa duração toda. Se os três episódios iniciais divertem pelo tipo de ação que lembra muito Rambo – Programado para Matar, o miolo composto pelos seis episódios seguintes mal consegue se segurar de pé. A narrativa de Russo/Madani/Dumont é o equivalente televisivo do cachorro correndo atrás do rabo, com um fim em si mesmo e uma conexão forçada até mesmo com Castle. Durante esse tempo, Pilgrim é apenas aquela presença impassível e infalível que ganha uma razoavelmente interessante vida pregressa, mas não muito mais do que isso. Somente quando a temporada começa a caminhar para seu fim, com linhas narrativas que muito mais tangenciam do que se cruzam, é que o espectador ganha razão para acordar de seu estupor. Mas é pouco demais para realmente valer a pena o esforço de desbravar tantos episódios de quase uma hora de duração.

A tentativa de se criar uma camada intelectual fica só mesmo na tentativa. Toda a alegoria de que Billy Russo – o vilão Retalho ou Jigsaw dos quadrinhos – é um quebra-cabeças literal, ou seja, um desafio psiquiátrico e não alguém cujo nome é ditado pela aparência (a quantidade de cicatrizes que ele tem não condiz com o que Castle faz na 1ª temporada) cai por terra quando o assunto não anda, quando seu desenvolvimento não serve para nada a não ser tentar dizer que Castle é quem está errado nessa equação toda e que é por causa dele que tanta gente sofre. Isso até poderia ser verdade, mas a história contada simplesmente não bate com o que os personagens querem nos dizer, sendo absolutamente patético ver o policial Brett Mahoney (Royce Johnson voltando ao papel) acreditar piamente que Castle é um bandido como outro qualquer, capaz mesmo de matar inocentes. Não custava muito manter a lógica interna, mas, pelo visto, Lightfoot não liga muito para isso e precisa usar Mahoney como o avatar das idiotices que absolutamente ninguém consegue ouvir sem revirar os olhos.

O Justiceiro era para ser um personagem pão-pão-queijo-queijo, daqueles que não pedem muitos embelezamentos para funcionar nas telonas e telinhas. Se volta e meia temos um John Wick ou um Protetor da vida chegando para mostrar que pancadaria descerebrada pode ser boa, porque logo o Justiceiro precisa ganhar tratamento pseudo-vip com pseudo-intelectualidades para mostrar a pseudo-correção política de seu showrunner? Porque um cara com uma caveira no peito e armado até os dentes precisa hesitar para apertar o gatilho de uma arma apontada para um bandido? Perguntas retóricas, eu sei, mas elas precisam ser feitas de toda forma…

O Justiceiro – 2ª Temporada (The Punisher, EUA – 18 de janeiro de 2019)
Criação:
 Steve Lightfoot
Showrunner: Steve Lightfoot
Direção: Jim O’Hanlon, Jeremy Webb, Iain B. MacDonald, Stacie Passon, Jamie M. Dagg, Jet Wilkinson, Michael Offer, Salli Richardson-Whitfield, Alex Garcia Lopez, Meera Menon, Stephen Kay
Roteiro: Steve Lightfoot, Ken Kristensen, Angela LaManna, Dario Scardapane, Christine Boylan, Felicia D. Henderson, Bruce Marshall Romans, Laura Jean Leal
Elenco: Jon Bernthal, Ben Barnes, Amber Rose Revah, Jason R. Moore, Josh Stewart, Floriana Lima, Giorgia Whigham, Royce Johnson, Tony Plana, Mary Elizabeth Mastrantonio, Corbin Bernsen, Annette O’Toole, Rob Morgan, Deborah Ann Woll, Alexa Davalos
Duração: 13 episódios (entre 47 e 58 min.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.