Crítica | O Lar das Crianças Peculiares

estrelas 3

Já é bem nítido o fim de carreira que Tim Burton veio se entregando mais ou menos na altura de Peixe Grande. Ainda que hajam bons filmes desde lá, incluindo esse próprio Lar das Crianças Peculiares, seu olhar de fascínio diante do desconhecido vem cada vez mais aglutinando-se às próprias noções estéticas do diretor, enquanto afasta-se de qualquer tentativa de inovação. Morre a inquietação de um cineasta que, por mais irregular que tenha sido sua carreira, sempre errou buscando novas ideias, e hoje se amarra à opressão artística que o levou ao sucesso (Grandes Olhos não seria sobre isso?).

E está tudo aqui de novo em seu último filme: estética nadando entre o fofo e o macabro; uma atriz bonita fetichizada pelos olhos do diretor (Helena Bonham Carter devia estar de férias); delírios visuais cada vez menos autênticos e cada vez mais parecidos com a experimentação de um aluno de cinema fã do Spike Jonze. Não vejo muita pretensão em pegar um material tão enlatado pros meios de produção do Tim, mas de fato funciona melhor do que a maioria das coisas que ele vinha tentando fazer, já que busca sua estética não pela domesticação mas sim pela constatação e aceitação do gênero por vias do cinema gótico típico do diretor.

O que há de mais interessante, e talvez seja o breve respiro de personalidade que os filmes de Tim Burton vem tendo, é o olhar direcionado ao passado, de certa forma, reavaliando o cinema que influenciou o próprio artista. De forma literal isso acontece, com a ida de Jake ao orfanato que seu recém falecido avô cresceu, onde encontra o orfanato que o faz voltar no tempo. Lá o rapaz se depara com um tempo passado onde habitam seres muito mais incríveis que os que via em seu próprio tempo. Tim Burton, mesmo sendo um diretor noventista, nunca deu a mínima pro próprio tempo que vivia, muito menos um suposto futuro do cinema.

Suas obsessões cercavam ícones já em decomposição, por excelência Ed Wood e seus dois filmes sobre o Batman. Os corpos opulentos que habitam o seu cinema são os heróis de seu próprio passado, um garoto interessado numa arte canonizada mas, que para o grande público de hoje em dia, não passa de um bando de besteira que deve ser deixado pra trás. Burton é um romântico, cuja paixão pelo clássico é introduzida em seu cinema por meio de uma híper-estilização, supostamente renovadora dos gêneros esquecidos. Um caso parecido é o Tarantino, que recicla movimentos perdidos no tempo como o Blaxploitation e o faroeste em cima da sua roupagem contemporânea.

Os últimos trabalhos de Burton pouco tiveram haver com a fertilidade de sua imaginação diante de uma criação cinematográfica intensa, mas este Lar das Crianças Peculiares é justamente sobre o olhar que o diretor teve lá em 1985 quando resolveu lançar-se ao sucesso. Este filme muito tem a ver com uma espécie de Vaudeville, um show comum na Europa da virada do XIX para o XX, onde as novidades do mundo como cinema e arte eram apresentadas ao público. Um jovem que volta no tempo e é laçado pelo fascinante mundo distante do seu, vendo meninas flutuantes e garotos invisíveis, e com medo de não reencontrar esse brilhantismo onde vive, apega-se ao passado e o carrega.

Autocríticas sempre são bem-vindas, e aqui ele acerta mais do que erra, mas Tim Burton parece desacostumado em renovar-se. Pelo menos metade do filme serve apenas como essa demonstração de novidades e efeitos especiais, com um ritmo bastante leve e calmo para um filme do diretor, mas esse tempo de calmaria acaba destacando fragilidades no texto e na condução da obra, que acaba engrandecendo-se mais para o fim quando a direção mergulha dentro da própria bizarrice emposta, contrariando o que vinha sendo a carreira de Burton, que vinha com medo de ir com tudo dentro de suas excentricidades, e vinha tornando-se cada vez mais convencional. Esperamos que tudo venha a dar certo em sua próxima produção, Dumbo, cujo material é o misto perfeito de fofura, nostalgia e pavor, características que coroaram sua filmografia.

O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children) — Reino Unido/ Bélgica/ EUA, 2016
Direção:
Tim Burton
Roteiro: Jane Goldman (baseado no romance de Ransom Riggs)
Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench, Rupert Everett, Allison Janney, Terence Stamp, Ella Purnell, Finlay MacMillan, Lauren McCrostie
Duração: 127 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.