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Crítica | O Legionário (1998)

Van Damme no deserto.

por Ritter Fan
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O Legionário era um dos poucos filmes dos anos 90 de Jean-Claude Van Damme que não havia assistindo ainda e, nesta minha abordagem cronológica da carreira do ator e lutador belga, devo confessar que fui muito positivamente surpreendido pelo longa que, como marca da época do começo do declínio de seu sucesso, foi lançado direto em vídeo nos EUA. Não que ele seja uma maravilha, pois não acho que consiga classificar filme algum de Van Damme assim, mas ele com certeza encontra-se na prateleira de cima da filmografia do ator.

E a maior razão para isso é que O Legionário é um drama puro e simples, honesto de verdade. Sim, é carregado de clichês, mas mesmo assim é um longa que se segura não pelas lutas estreladas por Van Damme e também não pelas sequências de ação, mas sim pela história, pela reconstrução de época – ele se passa em 1925, primeiro em Marselha e, depois, no Marrocos – e, por incrível que pareça, pelo trabalho dramático do belga, que tem espaço de sobra para oferecer algo mais do que apenas caras e bocas ou mostrar seu físico invejável. Esse é um dos pouquíssimos filmes de sua carreira que teria se beneficiado e muito de uma duração maior, que permitisse que seu personagem fosse mais explorado, assim como os que gravitam imediatamente ao redor dele.

Em mais uma parceria com Sheldon Lettich, que co-escreveu nada menos do que três dos melhores longas de Van Damme, O Grande Dragão Branco, Leão Branco, o Lutador sem Lei e Duplo Impacto (tendo também dirigido este último), a premissa é básica, com o boxeador Alain Lefèvre (Van Damme) fazendo como Butch, em Pulp Fiction, ou seja, mesmo prometendo ao mafioso local entregar uma luta, muda de ideia e acaba nocauteando seu oponente, tendo que fugir desesperadamente, o que o leva a se alistar na Legião Estrangeira. O interessante é que não há correria e todo o primeiro terço do filme é dedicado a essa construção do protagonista, ainda que, infelizmente, haja pouquíssimo espaço para que seu interesse romântico, a bela Katrina (Ana Sofrenović), ganhe o destaque devido, com o restante da obra permanecendo fiel à premissa de transformar Lefevre em um legionário lotado no Marrocos durante a chamada Guerra do Rife.

O que quero dizer com essa fidelidade, é que o roteiro não inventa saídas fáceis e não retorna o personagem ao “mundo civilizado” ao final, ainda que haja, claro, indicação disso. O foco fica integralmente em seu treinamento como legionário, na construção de amizades com um inocente e apaixonado italiano (Guido, vivido por Daniel Caltagirone), um veterano ex-militar britânico (Mackintosh, interpretado por Nicholas Farrell) e um afro-americano que foge da segregação racial nos EUA (Luther, personagem de Adewale Akinnuoye-Agbaje) e na relação com o duro líder do batalhão, o sargento Steinkampf (Steven Berkoff). Claro que o passado de Lefèvre retorna para infernizá-lo em determinada altura, mas tudo é construído dentro do serviço dele como legionário.

A direção de arte é cuidadosa tanto na forma como aborda Marselha, com figurinos de época e uma aparentemente legítima visão da cidade nos anos 20, como a Legião Estrangeira em si, com foco principal nos figurinos militares e nas armas tanto dos legionários quanto dos berberes liderados por Abd El-Krim (Kamel Krifa), líder real do povo que defende seu território contra a invasão europeia. Com isso, a imersão é garantida imediatamente, algo em que a fotografia de Douglas Milsome (Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões) também ajuda muito ao realçar as paisagens desérticas naturais do Marrocos e do forte que a Legião ocupa. No entanto, assim como acontece com os personagens, havia espaço para mais desse ambiente hostil ser mostrado e explorado no longa.

Mesmo com sua curta duração, porém, Van Damme e os três atores que formam o quarto legionário principal, além de Berkoff como o sargento, dão conta de fazer O Legionário ser mais do que mais uma obra descartável na carreira do lutador, algo que o diretor Peter MacDonald, em seu terceiro e último longa cinematográfico, percebeu e explorou ao máximo. Com os anos 90 chegando ao fim, é bom saber que Jean-Claude Van Damme ainda foi capaz de protagonizar uma obra que merece ser destacada em sua variada – e, na grande maioria das vezes, sofrível – filmografia.

O Legionário (Legionnaire – EUA, 1998)
Direção: Peter MacDonald
Roteiro: Sheldon Lettich, Rebecca Morrison (baseado em história de Sheldon Lettich e Jean-Claude Van Damme)
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Steven Berkoff, Nicholas Farrell, Jim Carter, Ana Sofrenović, Daniel Caltagirone, Joseph Long, Mario Kalli, Joe Montana, Kim Romer, Anders Peter Bro, Paul Kynman Rolf, Vincent Pickering, Takis Triggelis, Tom Delmar, Kamel Krifa
Duração: 99 min.

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