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Crítica | O Lobo do Deserto

por Luiz Santiago
52 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

Com um único ator profissional no elenco (Jack Fox) e filmado na mesma região em que David Lean rodou Lawrence da ArábiaO Lobo do Deserto (Theeb, estilizado, no original; palavra que em árabe significa “lobo” — transliterada como diibdi’b, dhi’b, etc. — e que na cultura beduína é símbolo de virilidade) conta a história de dois irmãos beduínos que guiam um oficial britânico até o seu regimento, em algum lugar do deserto, próximo à ferrovia recém-construída. Apesar da viagem ser prevista como perigosa, nem os irmãos e nem o primeiro guia do oficial imaginavam que as coisas teriam o desfecho que tiveram.

O filme é a estreia do diretor Naji Abu Nowar em longas-metragens e o novato surpreende pela segurança e elegância atrás das câmeras, tanto ao guiar atores não profissionais quanto ao nos guiar pelo deserto, partindo do estabelecimento da relação entre os irmãos Theeb e Hussein e terminando com uma realidade amarga, solitária e dolorosa para o “lobo do deserto”, status que acaba fazendo do filme um longo ritual de passagem.

Com um ponto de partida simples, o roteiro se preocupa inicialmente em apresentar para o espectador elementos cultuais dos beduínos, seus valores, hospitalidade, relações. Embora não vejamos uma única mulher na obra, o casamento do irmão mais velho, Hussein, é citado, abrindo um pouco o leque social diegético para mais esse elemento da cultura ali representada. Essa ausência feminina pode parecer estranha à primeira vista, mas o espectador entende o contexto em que isso é citado e, considerando a sequência e a linha dramática central da obra, uma citação desse tipo se mostra suficiente.

Após exibir o comportamento dos beduínos, o roteiro começa a trazer mudanças, e isso se segue até a última cena da fita. Progressivamente, vemos Theeb diante de situações que o farão pensar, recuar e avançar conforme a sua coragem e experiência, que evoluem rapidamente. Cenas anteriormente tidas apenas como exposições simples do cotidiano dos personagens, tais como a brincadeira ao redor do poço e Theeb fingindo que ia esfaquear o irmão, ganham impacto futuro em um momento de crise ou enfrentamento de algum perigo por parte do garoto, como na cena em que ele tem a oportunidade de matar um animal ou quando ele escala o poço.

Nessa sequência de crescimento diante de crises e horrores, vemos a humanidade de Theeb ser engrandecida e polida, dando-nos a oportunidade de conhecer um não-ator mirim com um os olhares mais penetrantes, ameaçadores e ao mesmo tempo compreensivos dos últimos anos. Com um personagem que atravessa o deserto e passa por progressivos testes e decisões a serem tomadas, Theeb vai aos poucos ganhando o status do “forte que come o fraco“, como lhe ensinara seu pai. Mas é notável que, mesmo em se tratando de sobrevivência o tempo inteiro, os sentimentos e os laços familiares do personagem jamais são deixados de lado. Na verdade, eles se fortalecem, talvez bem mais do que a sua capacidade de decidir quando atirar, quando ser impiedoso, relutante ou vingativo.

Com uma fotografia espetacular tanto em noturnas quanto diurnas e uma trilha sonora pontual muitíssimo bem colocada na obra, O Lobo do Deserto / Theeb nos pega pela mão e nos faz acompanhar uma caminhada de crescimento pautada pela lealdade e pela fraternidade. O longa é econômico nos diálogos, mas bastante eficiente em criar linhas dramáticas que tocam o espectador em nuances diferentes — até o McGuffin é bem trabalhado–, conjunto que dá grande riqueza à obra além de torná-la muito interessante de se ver.

Existem muitas formas e inúmeros momentos da criança ou do adolescente perceber que cresceu, que não é mais o mesmo de antes, que ganhou pelo menos um pouco da dor e do ódio que o mundo ao seu redor exala. O Lobo do Deserto/Theeb é uma das histórias de como isto aconteceu.

O Lobo do Deserto (Theeb) — Emirados Árabes, Catar, Jordânia, Reino Unido, 2014
Direção: Naji Abu Nowar
Roteiro: Naji Abu Nowar, Bassel Ghandour
Elenco: Jacir Eid Al-Hwietat, Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen, Hassan Mutlag Al-Maraiyeh, Jack Fox
Duração: 100 min.

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2 comentários

Steampunk Vagaroso 9 de fevereiro de 2016 - 13:13

Theeb é interessante, mas penso que sua indicação ao Oscar foi mais simbólica do que técnica.

O cinema jordaniano deu um grande passo.

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Luiz Santiago 9 de fevereiro de 2016 - 18:22

Isso é verdade. Ele tem uma fotografia muito bonita, mas não ultrapassa tantos limites interessantes assim não. A indicação certamente foi simbólica. O romeno “AFERIM!” foi deixado de lado injustamente… Podia ter entrado no lugar de “Theeb” ou mesmo de “Cinco Graças”. Esse é o inconveniente dessas premiações. A gente sempre sabe que acontecerá coisas assim, mas ver na prática é bem… estranho.

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