Crítica | O Loiro no Cinema – Um Estudo Analítico, de Armando Filho

Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras. Madonna em Corpo em Evidência. Sharon Stone em Instinto Selvagem. Kim Basinger em 9 ½ Semanas de Amor. Glenn Close em Atração Fatal. Vera Fischer e Xuxa Meneghel em Amor Estranho Amor. A presença do “loiro” no cinema é ampla e tema de estudo no livro do professor Armando Filho. Em sua escrita há passeios por outras dimensões loiras, tais como o desempenho de David Bowie em Fome de Viver e Labirinto, o provocativo personagem de Björn Andrésen em Morte em Veneza e os machões Giuliano Gemma e Anthony Steffen. Resumindo: um longo trajeto que requer um estudo aprofundado e bem delineado, o que não acontece ao longo das 127 páginas de O Loiro no Cinema – Um Estudo Analítico.

O autor pretende atravessar um extenso panorama para no capítulo central, analisar o loiro em cinco produções do cinema brasileiro da pós-retomada. O problema é que tal como alguns trabalhos de conclusão de curso, independe que seja graduação, especialização, mestrado ou doutorado, o que se vê é muito fôlego (mas não o necessário) nos primeiros capítulos, para a análise que deveria ser central, aparecer, ao final, pouco expressiva, com anotações praticamente descritivas. Em suma: exposição sem análise.

Dividido em cinco partes, o livro de Armando Filho se estrutura em (01) A Maquiagem e a Produção de Imagem, (02) A Produção Midiática do Loirismo e a Indústria Cosmética Contemporânea, (03) Os Artifícios do Loiro no Cinema, (04) O Loiro em Cinco Filmes da Pós-Retomada e (05) Fim do Filme – A Máscara se Gruda ao Rosto e Dá Lugar à Maquiagem. Em (01) há um breve passeio por considerações de Bakthin, máscaras e representações e a importância da maquiagem. Ao chegar em (02), o autor esboça algumas análises sobre os vários lados loiros do cinema e da televisão, nos fazendo questionar os motivos das personagens morenas em séries como Jeannie é Um Gênio e A Feiticeira, sempre surgir pela via do negativismo, antagonistas que atrapalham os planos de felicidade dos protagonistas.

Faz lembrar o elucidativo capítulo 05 de O Guarani, de José de Alencar, Loura ou Morena, excelente fonte de análise destas questões já no século XIX. Mas isso, caro leitor, não está no livro, são apenas pensamentos que pulularam a leitura que por deixar muitas lacunas, nos faz sair em busca de complementação. Neste mesmo capítulo há um panorama de outras loiras que desaguam nas fatais, as personagens citadas na abertura da crítica, ao chegar em (03), prévia das análises que considero insuficientes em (04), pois há muito mais a se dizer de filmes como O Homem do Ano, Amarelo Manga, Cidade Baixa, Rua Seis, s/n. O trecho é ainda mais complicado porque todo o financiamento para imagens coloridas deveria ficar ao final, para contemplar as análises centrais do livro, mas ao contrário, surge um panorama de imagens em cores ao lado de outras em preto e branco, algo que se alia ao processo de diagramação inexpressivo e sem uma boa identidade visual. Sem isso, a leitura se torna ainda mais complicada, pois não há compensação pela escassez crítico-analítica.

O prefácio do professor Sérgio Duarte Julião da Silva informa que o livro pretende sair da linguagem acadêmica, mas isso não é verdade, pois a estrutura de O Loiro no Cinema – Um Estudo Analítico nos remete aos trabalhos de conclusão de curso, inclusive no que concerne aos trechos com citações, elementos que poderia muito bem se situar no rodapé, tendo em vista dar maior fluência ao texto. As teorias sobre semiótica e os conceitos de habitus (Pierre Bordieu) e performance (Paul Zumthor) sobrevoam as análises, mas não pousam nunca. Quando sentimos que o livro vai avançar, o autor passa para o tópico seguinte e a sensação que se tem é a de um estudo verdadeiramente analítico, haja vista a situação praticamente inédita do assunto em publicações e trabalhos acadêmicos no Brasil.

Foi com muita curiosidade e ansiedade que esperei o dia de entrega do livro em questão. As consultas ao site do serviço de entrega, na tentativa de driblar a ansiedade por meio do acompanhamento com o código de rastreamento, tendo em vista saber se haveria muita espera para que eu pudesse tê-lo em minhas mãos foi algo que se transformou, infelizmente, em decepção. Seria leviano desqualificar o trabalho de Ademir Filho. Ele não é um profissional qualquer. Premiado com o Troféu Avon Color de Maquiagem em 1999, Filho é mestre em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi, além de ter formação em Arte Dramática pela USP. Professor do Curso Superior de Estética e Cosmética da mesma instituição que lhe concedeu o título de mestre, a sua carreira é sólida e cheia de aspectos interessantes. O problema é que o seu livro possui todas as imprecisões citadas anteriormente, o que nos impede até mesmo de trabalha-lo em sala de aula ou indicar para outros leitores, algo que talvez uma nova edição, reformulada e revisada pudesse resolver, afinal, estamos diante de um tema interessantíssimo e de grande importância para a compreensão de um setor pouco teorizado nos estudos acerca da linguagem audiovisual.

O Loiro no Cinema – Um Estudo Analítico (Brasil, 2016)
Autor: Armando Filho.
Editora: Appris Editora
Páginas: 127.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.