Crítica | O Machão

estrelas 3,5

Da “Alemanha gângster” de O Amor é Mais Frio Que a Morte, Fassbinder passa para uma Alemanha vítima de sua própria juventude, condenada a um futuro xenófobo e sem um plano político em pauta, sem profundidade de campo (questão metafórica explorada pelo diretor na estética) e pautada por uma repetição mecânica do sexo como fuga e como comércio.

O Machão é a forma ampliada de uma peça escrita por Fassbinder para o Antiteatro, um coletivo de atores cujo objetivo era levar ao palco as mudanças sociais da Alemanha do pós-guerra, numa estrutura cênica e textual inspirada em Brecht. No cinema, Fassbinder transitaria de forma curiosa entre o palco e a tela, um tráfego que marcaria a primeira fase de sua filmografia (antes do contato com Douglas Sirk e Max Ophüls), e cuja marca estética principal foi a Nouvelle Vague.

Ao colocar em cena um imigrante grego chamado Yorgos e toda sorte de preconceitos em relação a ele, o diretor faz um teatro de fantasmas, brincando com as sombras perigosas do nazismo, ao menos em seu conceito eugênico e de justificativa quase sagrada para o direito ao espaço vital e à superioridade do homem alemão. No roteiro há um momento em que isso é quebrado da forma mais simbólica e desafiadora possível: um dos personagens comenta para o grupo de jovens protagonistas que Yorgos era mais desenvolvido que eles [alemães]. Um dos jovens pergunta, quase como se quisesse desafiar a informação: “aonde?”. Ao que o interlocutor responde: “no pênis”.

Esse jogo de afronta entre a libido aflorada e a nulidade de politização não só torna O Machão um filme repleto de símbolos políticos como também toca em feridas de grupo ou particulares, a maior parte delas relacionadas ao impacto causado pela presença do estranho homem que, de uma forma ou de outra, se torna o centro das atenções do bairro. Os protagonistas falam cada vez mais dele com o passar do tempo e este se torna assunto até para os personagens secundários, vistos em montagem paralela ou simultânea às conversas do grupo principal, quase sempre encostado a uma parede de grandes janelas, cortinas e plantas ao fundo.

Essa dualidade de ações também é uma arma calibrada no roteiro de Fassbinder, porque mostra uma certa sensibilidade ou agressividade que em público desaparece ou é exercida de outra forma. Por mais alienados e reprodutores de um ódio instintivo e ignorante em relação a tudo quanto é novo, os jovens de O Machão parecem sofrer de uma maldição secular que os tornam vítimas deles mesmos e reféns de um grupo social venenoso, fazendo-os sofrer imensamente porque não estarem certos de nada.

Tudo aquilo em que os protagonistas acreditam é tênue e desconstruído por Fassbinder ao longo do filme, situação que os fazem blindados a todo tipo de agressão verbal, ética ou moral possível. Desse modo, não é estranho que eles se xinguem, se batam ou vivam em um ciclo inevitável de traições amorosas e fraternas que jamais precisam esconder. Quando não odeiam alguém externo ao grupo, eles passam um bom tempo odiando uns aos outros e, quando isso não acontece, parecem odiar a si mesmos. A única ironia em tudo isso é a cortina que se estende em duas abordagens sexuais: a do caso de prostituição homossexual e a do caso de amor vampírico e prostituído entre dois membros do grupo.

Através de planos fixos e quase nunca livres de uma constituição chapada — exceção interessantíssima às cenas verticais de personagens de braços dados, tendo um prédio residencial ao fundo e o único tema musical do filme, um pequeno acompanhamento ao piano composto por Peer Raben — Fassbinder nos mostra a fermentação do futuro da Alemanha, uma então jovem massa de cidadãos entregues ao gozo mecânico, à violência banal, à segregação e a valores machistas e anticomunistas que refletiam com exatidão o tom dos anos 1960.

Curiosamente, o ranço dessa juventude germânica sessentista estendeu-se por quase todo o Ocidente e chegou ao século XXI revestido de valores tão extremos, apolíticos, desmemoriados e alienados quanto os de sua origem. A diferença de um tempo para outro é que a História, décadas depois, ofereceu muito mais ícones e experiências para se distorcer ideias e disseminar ódio e desinformação, com toda a diversidade tornou-se, via de regra, um alvo cada vez mais fácil.

O Machão (Katzelmacher) – Alemanha Ocidental, 1969
Direção:
Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Rainer Werner Fassbinder, Hanna Schygulla, Lilith Ungerer, Rudolf Waldemar Brem, Elga Sorbas, Doris Mattes, Irm Hermann, Peter Moland, Hans Hirschmüller, Harry Baer, Hannes Gromball
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.