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Crítica | O Mar Mais Silencioso Daquele Verão

por Kevin Rick
249 views (a partir de agosto de 2020)

O tempo é uma ferramenta tão poderosa no cinema. Rapidez ou lentidão, contemplação ou agilidade, e tudo entre os extremos, dão a base temporal de como a audiência absorve a imagem e penetra a atmosfera. Takeshi Kitano, um diretor com uma abordagem extremamente meditativa visualmente, cheio de longos planos estáticos focados em personagens sem se movimentar, refletindo ou passeando pelas trivialidades da vida, parece deturpar o tempo.

Já no início de sua carreira, com Policial Violento Boiling Point, podemos ver esse estilo contemplativo do cineasta japonês. Contudo, em seu terceiro longa-metragem, O Mar Mais Silencioso Daquele Verão, Kitano se distancia completamente da violência e do obsceno, procurando uma história introspectiva e natural sobre um casal melancólico com deficiência auditiva. Depois que o rapaz passa a ficar interessado no surf, os jovens passam a ir constantemente à praia para que ele aprenda o esporte. Acompanhamos um pequeno hobby se transformar em completude, propósito e felicidade.

Cada extensa cena de personagens imóveis e inertes é esticada ao ponto de se tornarem significativas com as menores nuances e os detalhes mais banais, desde um olhar cansado ou um sorriso torto, fazem com que o costumeiro ganhe importância, demonstrando o tremendo valor do simples. Dessa forma, o tempo de Kitano parece fluir fora da realidade. Acompanhar um personagem andando ou olhando para o horizonte por alguns minutos contam a história de toda uma vida. O silêncio e o ordinário pelas lentes contemplativas, quando colocados nas mãos de alguém especial, transformam o tempo em uma ferramenta de imaginação. Passamos a imaginar os pensamentos, o passado e a personalidade desses personagens. E assim, o tempo é constantemente alterado.

O trabalho atmosférico de melancolia e meditação é amarrado por cada elemento cinematográfico. Já articulei bastante sobre os planos de Kitano, mas vemos a construção da ideia como unidade também nos cenários. O uso da praia e do mar, nessa abordagem de infinito e horizonte da juventude, cheio de possibilidades, assim como temores. O período do verão, até meio clichê no seu uso para coming of ages deste tipo, mas que se encaixa perfeitamente nesse uso do tempo, afinal, que parte anual mais soa atemporal que o verão? Além disso, temos a trilha sonora estagnada, composta por finas camadas de piano e instrumentos de corda que agregam bastante ao sentimento de melancolia; e a própria narrativa, que superficialmente parece vazia, mas é na verdade um profundo estudo de intimidade, desilusão e propósito imagético, como no romance dos personagens principais que vai lentamente se tornando mais corporalmente próximo ou então a maneira que as feições do protagonista vão ficando mais sorridentes à medida que ele domina o esporte. É um filme que se constrói na sutileza.

No entanto, a obra de Kitano me perde em dois quesitos: o retrato da surdez e o desfecho trágico. No primeiro ponto, é interessante como o diretor/roteirista tenta usar a deficiência auditiva como mais um elemento estilístico para compor sua forma fílmica atmosférica como o restante dos aspectos que pontuei, e a ideia de dois personagens que não dizem uma palavra reforça a relação observacional, mas não deixa de ser estranha. Os personagens sequer se comunicam em linguagens de sinais ou com outras pessoas de maneira mais básica, passando um sentido de que a surdez os deixa alienados, o que não engradece o veículo pessoal da obra. Ademais, o final catastrófico, se ainda coeso com a ideia de mais “impacto quieto”, me parece deslocado narrativamente. Uma espécie de tentativa de emocionar com surpresa em um filme construído inteiramente na beleza e tristeza do comum.

Takeshi Kitano continua sua caminhada experimental no início de sua cinebiografia. A cada novo filme, podemos ver um gigantesco artista moldando sua forma e voz. O Mar Mais Silencioso Daquele Verão é mais um degrau importantíssimo na evolução artística de Kitano, em que vemos o diretor mais habilidoso com o manuseio do tempo e a imagem, como também o maior investimento no íntimo e não tanto em organismos. Apesar de alguns pontos negativos, o terceiro filme de Kitano é uma fantástica viagem pela forma cinematográfica, como transcender o texto com o visual e o sensorial. Certamente é o tipo de filme rotulado como “tedioso” ou “que não acontece nada”, mas eu não acho. É o tipo de arte que te instiga e desafia a se comprometer com a sutileza, a atenção às minúcias e envolver-se com a atmosfera. Para a contemplação de Kitano, o tempo é detalhe; só existe o infinito cinematográfico.

O Mar Mais Silencioso Daquele Verão (あの夏、いちばん静かな海 / Ano natsu, ichiban shizukana umi) — Japão, 1991
Direção: Takeshi Kitano
Roteiro: Takeshi Kitano
Elenco: Claude Maki, Hiroko Ohshima, Sabu Kawahara, Susumu Terajima, Katsuya Koiso, Tetsu Watanabe
Duração: 101 min.

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