Crítica | O Matador (1989)

“Você não pode vencer todas as vezes. Mas você não pode perder para sempre também.”

O grande protagonista de O Matador é um assassino contratado, supostamente sem escrúpulos, sem misericórdia e também sem moral. Já o antagonista, colocando-se no caminho do mercenário Ah Jong (Chow Yun-Fat), é um policial comprometido, aparentemente mocinho, dentro da ordem, vivendo um moralismo correto e inofensivo. Os opostos, contudo, se atraem. E esses personagens são muito parecidos, transformando em equivocados os estereótipos presumidos a esses dois homens, prestes a entrarem numa jornada escandalosa sobre moral, honra e amizade. Um dos clássicos projetos de John Woo, esse marco importante ao cinema norte-americano surge sobre pretextos comuns às narrativas do gênero de ação, porém, torna-se um dos grandes exemplares do espetáculo cinematográfico.  Qualquer cineasta de ação precisa espiar o cinema de Hong Kong.

Tão importante ao cinema norte-americano que essa seria uma enorme influência a nomes de peso na indústria, como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. Mesmo assim, pouquíssimas obras consequentes conseguiram equiparar-se a John Woo em esmero, espirituosidade e compaixão à arte. Muitos artistas, porém, aumentaram na complexidade, pois o enredo que o cineasta usa é simples, com temáticas já vistas no cinema de ação e de forma mais encorpada até. O Samurai, de Jean-Pierre Melville, é um dos grandes alicerces de Woo, com a pianista sendo substituída pela cantora no primeiro ato. O que não torna O Matador genérico – muito pelo contrário, extraordinário – é a condução que o diretor dá ao seu projeto, contendo uma aura particular vigorosa e que casa-se perfeitamente com o drama estabelecido aos personagens. Os gritos, os choros, os tiros e tudo.

O longa-metragem quer, antes de qualquer coisa, constantemente repensar essas suas figuras centrais, sempre com um alma que calca-se na exclamação. O detetive Li Ying (Danny Lee), por exemplo, é envolvido em casos nos quais o seu instinto mostra ser mais necessário que um manual, colocando-o em contradição. Por isso o seu fascínio por Ah Jong – chamado de Jeffrey Chow em legendas internacionais -, um criminoso com honra. John Woo, em vista desse encontro de opostos, torna urgente a tensão que existe entre tais polos. Cenas como a do hospital – onde uma criança salva pelo protagonista é encaminhada – são exemplos inconfundíveis do que rola entre esses personagens. Uma garotinha sendo cuidada no meio do enquadramento e dois homens nos extremos, com armas apontadas um ao outro.  É uma dinâmica entre a vida e a morte.

Essa rixa origina um melodrama que se assume um melodrama intenso de ação, abnegando da melancolia mascarada, como se em algum momento quisesse ser um drama mais sisudo, para assumir um caos interno a esses personagens que se consolida com os excessos. John Woo concilia o caráter dramático de sua obra – pautada, inicialmente, em um caso no qual uma mulher é acidentalmente ferida pelo protagonista -, com o teor “caótico” – embora nunca descontrolado ou incômodo, e sim estimulante – que imprime no conjunto em si. O mercenário Ah Jong entrará em missões visando os cuidados de sua nova amada, sua culpa do passado, a cantora Jennie (Sally Yeah), gravemente machucada em um acidente. Sua última tarefa será conseguir o dinheiro para uma cirurgia que, possivelmente, irá retomar a visão da mulher. O amor é cego e a justiça também.

Enquanto tudo pode soar um tanto piegas – a trilha sonora melódica e aquecedora é retomada sempre em momentos-chave -, a verdade é que existe uma sinceridade imensamente engajante nas abordagens espalhafatosas do diretor aos dramas específicos – amizades desconstruídas e amizades construídas – e aos casos que seus personagens vivem. É um cinema urgente, em que cada linha de diálogo é um epitáfio poderoso. “Honra agora é uma palavra suja”, comenta Ah Jong. Impressionante como O Matador constrói tanta coisa, com tanta agilidade e determinação, em pouquíssimo tempo, apesar de sempre estar renovando suas intenções. E as cenas de ação são algumas das melhores que o cinema de Hong Kong já proporcionou. Uma montagem que acompanha uma noção coreografada por si só, porque a linguagem é a dança e o cinema é o balé.

Essa é uma obra que movimenta-se sempre com agilidade, sempre com intensidade. Mas o longa não se cansa e apenas cresce com o tempo, com a profundidade psicológica que carrega aos seus personagens – não complexidade, profundidade. Os impasses do herói e os impasses do vilão. Sempre há impasses. Sempre há uma questão no meio do caminho entre um e outro. O terceiro ato se encaminha para um fogo cruzado com dimensões épicas e conclui-se no desespero, no ultimato. Quando Ah Jong toca sua harmônica, na conclusão, uma experiência montada cuidadosamente se encerra. John Woo cria a sua obra-prima dos pares. O auge dessa conversa, aqui, mora em cenas como a do apartamento, em que o policial assimila os passos do matador e os planos intercalam-se até conseguir uni-los, mesmo que em tempos diferentes.  É ação e poesia.

O Matador (Dip huet seung hung/The Killer) – Hong Kong, 1989
Direção: John Woo
Roteiro: John Woo
Elenco: Chow Yun-Fat, Danny Lee Sau-Yin, Sally Yeh, Paul Chu Kong, Kenneth Tsang, Shing Fui-On, Tommy Wong, James Ha, Ricky Yi Fan-Wai, Barry Wong, Parkman Wong
Duração: 110 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.