Crítica | O Mecanismo – 2ª Temporada

  • Leia, aqui, a crítica da temporada anterior.

Seja qual for o lado de seu espectro político, O Mecanismo não é uma série que deveria ser ignorada ou rechaçada na base de chavões simplistas. Mesmo muito longe de ter a sofisticação e a qualidade de House of Cards (pelo menos até a penúltima temporada), a obra comandada por José Padilha e Elena Soarez, exatamente por estar galgada em várias medidas na realidade, deveria ser conhecida e discutida para não deixar que percamos de vista a magnitude do que é abordado. E enganam-se aqueles que acham que a série é propagandística de apenas um viés ideológico, outro reducionismo comum quando ela é objeto de conversas. A segunda temporada, que continua exatamente do ponto onde a primeira acabou, com os agentes federais capitaneados pela delegada Verena Cardoni (Carol Abras) atrás do masterminder do cartel de empreiteiros, Ricardo Bretch (Emílio Orciollo Netto), deixa ainda mais evidente que a metralhadora de Padilha e Soarez é giratória e, nessa linha, não sobra pedra sobre pedra de quem quer que seja no castelo de cartas de décadas da corrupção brasileira.

Sem o artifício usado na temporada inaugural de “esconder” o agente Marco Ruffo (Selton Mello) por boa parte de sua duração, os roteiros o colocam no centro das atenções como um lobo solitário que não desiste de sua caça mesmo não sendo mais da Polícia Federal e mesmo perdendo sua mulher e filha no processo. É ele que fundamentalmente faz as peças se moverem na temporada, começando pela localização da secretária do esquema de propinas de Bretch, e trazendo-a para depor. Mas seu alvo mesmo é o sempre elusivo doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Díaz), quase que uma obsessão considerando o quão “ensaboado” é o sujeito e o quanto ele está profundamente envolvido no “mecanismo” desde priscas eras. Se a temporada pinta Ricardo Bretch quase que como um vilão de James Bond, com direito a uma mansão minimalista, frieza no rosto e uma inteligência fora do normal, o que empresta uma divertida cor à caçada, Ibrahim continua sendo a estrela vilanesca daquele seu jeito malandro de ser que Díaz faz tão bem, roubando todas as cenas em que aparece.

Aliás, mesmo que a perseguição a Bretch traga aquela satisfação maior ao espectador, é o lado pessoal que coloca Ruffo e Ibrahim em uma caçada de gato e rato que dá verdadeira vida à temporada, mergulhando-a em um lado investigativo mais para o lado de um thriller clássico, algo que faltou na primeira temporada. Ruffo é obstinado, obcecado, doentio mesmo e Selton Mello mais uma vez tira de letra o personagem de cabelo ensebado e desgrenhado, mesmo que isso signifique que tenhamos que aturar sua costumeira (e irritante) dicção para dentro, nada que não posso ser resolvido com a ativação de legendas, claro. Díaz, por seu turno, cria aquele tipo de vilão que não temos vergonha alguma de dizer que amamos, com aquele seu deboche típico que nos mantém 100% do tempo com vontade de esmurrá-lo, mas com carinho.

Carol Abras, por seu turno, com a presença constante de Mello na série, perde um pouco de seu espaço, recuperando-o um pouco mais para o final, mas sem conseguir tirar o destaque do protagonista. Aliás, na seara da Polícia Federal efetivamente, as subtramas amorosas, apesar de serem trabalhadas com razoável organicidade, acabam ganhando um desagradável tom novelesco, especialmente no tocante ao asqueroso MP Cláudio Amadeu (Lee Taylor) e sua esposa Renata, também MP. A exceção fica mesmo com o sempre quieto e inteligentíssimo Guilhome (Osvaldo Mil, excelente), que tem um bom arco de desenvolvimento que imprime aquele heroísmo puro à série, talvez o único personagem verdadeiramente assim.

O trabalho de direção continua cambando para o burocrático, jamais fugindo dos maneirismos padrões de séries de televisão mais antigas, com constantes e completamente desnecessários establishing shots e uma decupagem tão didática quanto a narração de Mello (já volto a isso). A fotografia, porém, amadureceu. Bem mais do que na temporada anterior, a paleta de cores amarelada podre e azul melancólica e desesperançosa toma conta da narrativa e funciona muito bem – mais do que os planos de Padilha e Daniel Rezende – para determinar atmosfera e para fechar a ambientação ao redor de Ruffo, em uma tentativa bem-sucedida de sufocá-lo narrativamente. O cuidado com a cenografia também vale destaque, com novos ambientes sendo adicionados à trama, notadamente o sítio de Ruffo e o apartamento de Guilhome, ambos transparecendo muito realismo e veracidade, algo que contrasta com a mansão de concreto e vidro de Bretch que, por seu turno, serve como pareamento visual para as construções de Brasília.

Aliás, falando na capital do país, as sujeiras políticas são inteligentemente deixadas para a segunda metade da temporada, com a primeira sendo dedicada às já mencionadas investigações. Com isso, apesar de haver uma concentração maior desse jogo pérfido de bastidores nos quatro episódios finais, ele funciona bem para desmistificar a ideia da “perseguição a um só partido” e a alegada “glamourização” da Lava Jato e do Juiz Moro, digo Rigo (Otto Jr.), na série. É aqui que a tal metralhadora giratória de Padilha e Soarez é mais fortemente sentida, com uma visão macro aterradora do esquema político profundamente enraizado no Brasil.

Mas a série não consegue desvencilhar-se de seu maior problema: o didatismo extremo. Sei que isso talvez cumpra uma “função social” de explicar o mecanismo do título para todos os espectadores, sejam eles brasileiros ou estrangeiros, considerando que a série é distribuída mundialmente pelo Netflix. No entanto, existe o didatismo bom e o didatismo ruim. Christopher Nolan é mestre no primeiro tipo, por exemplo, mas O Mecanismo é o exemplo clássico do segundo. Nada – absolutamente nada – ao longo dos oitos episódios da temporada é deixado nas sombras da dúvida ou para a interpretação do espectador. Tudo é minuciosamente explicado não uma, não duas, mas pelo menos três vezes, com o ponto alto sendo os literais castelos de cartas construídos por Ruffo já na estirada final. Não tenho dúvida que os meandros das falcatruas precisavam de explicações, mas os roteiros de Soarez não tentam nem mesmo usar de sutileza ou algum tipo de originalidade (à la Adam McKay em seus dois mais recentes filmes, por exemplo). Não. Tudo é chapado na base da narração em off forçadíssima de Ruffo que, muito longe de emprestar uma atmosfera noir, transforma o que estamos vendo em palavras, em um bis in idem consideravelmente irritante.

Mesmo com seus problemas, a segunda temporada de O Mecanismo consegue superar a primeira por focar mais no lado de ação investigativa e por trazer dois grandes e bem diferentes vilões (Bretch e Ibrahim) dentro de um contexto ainda mais apavorante. Deixar de pelo menos dar uma chance para a série é fechar os olhos para uma conversa séria que todos precisam ter, especialmente aqueles que só leem ou seguem quem traz pontos de vista amaciados e convenientemente iguais aos seus.

O Mecanismo (Brasil, 10 de maio de 2019)
Showrunner: José Padilha, Elena Soarez
Direção: José Padilha, Daniel Rezende
Roteiro: Elena Soarez (baseado em obra de Vladimir Netto)
Elenco principal: Selton Mello, Caroline Abras (Carol Abras), Enrique Díaz, Otto Jr., Jonathan Haagensen, Antonio Saboia, Lee Taylor, Leonardo Medeiros, Susana Ribeiro, Osvaldo Mil, Anna Cotrim, Emílio Orciollo Netto, Helena Ranaldi, Karla Tenório
Duração: 383 min. (8 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.