Crítica | O Médico e o Monstro: Ou o Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson

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Se você caiu nesta crítica e, por algum motivo muito obscuro, não conhece a história de O Médico e o Monstro, deixo avisado que este texto trará spoilers do livro.

Escrita pelo escocês Robert Louis Stevenson, esta novela gótica (ou uma ficção de horror gótico, como alguns gostam de chamar) é um verdadeiro clássico da literatura que já recebeu um número gigantesco de referências e adaptações nas mais diversas mídias ao longo dos anos. Lançado em 1886, o volume tem como temática central a dualidade dos seres humanos, e sua trama se passa em Londres, iniciando-se com um passeio de Richard Enfield ao lado do advogado Utterson, em cuja conversa vem à tona o primeiro relato ligado à bizarra figura de Mr. Hyde.

Como é frequente na literatura gótica, o autor (que teve a ideia para o livro em um sonho e o escreveu em poucos dias) trabalha do começo ao fim da obra com momentos selecionados da vida dos personagens, deixando muita coisa para que o leitor complete e, a partir daí, tire as suas conclusões. Embora isso tenha um efeito um pouco negativo para a própria finalização da narrativa sobre a dupla personalidade, certamente contribui para manter ativo o interesse do leitor, que está o tempo inteiro querendo saber mais e procurando completar ações bruscamente interrompidas desses indivíduos. O momento mais forte disso no livro é quando Dr. Jekyll está na janela, pacificamente conversando com o amigo Utterson e seu parente e, de repente, algo acontece. Ele fica pálido e entra para a casa, fechando a janela bruscamente. Pelo contexto, o leitor já sabe exatamente o por quê daquilo, mas a ação em suspenso gera ainda mais curiosidade e vontade de colher pistas para completar a cena.

Como há uma forte marca de construção e influências sociais na obra — pela relação do indivíduo com o meio e o conflito entre a pessoa pública e a pessoa privada –, quem assume a narração aqui é o advogado Utterson, inconformado com as condições do testamento de seu amigo Jekyll, beneficiando um Sr. Hyde, homem até então desconhecido para o advogado. A partir dessa inserção social dos personagens em um ambiente que todo o tempo dialoga com eles (notem a importância realista e simbólica que roupas, acessórios, meios de transporte e casas têm para a obra), o leitor pesca elementos da moral vitoriana e também de suas contradições no livro. A repressão e a liberdade, a vontade de parecer “um bom cidadão” versus a vontade de “aproveitar a vida sem freios” são marcas que justificam o constante desejo do Dr. Jekyll em usar a poção e fazer a separação dele para a sua versão maléfica, desregrada, viciada.

Os conflitos entre bom e mau, a exploração do autocontrole e os grilhões colocados pelo comportamento de classe são coisas que fascinam muito mais o Dr. Jekyll do que apenas a curiosidade quase infantil e também científica de experimentar a sua própria essência, algo que lhe custaria a vida, no fim de tudo. Mas essa dualidade dentro dele, as contradições de ser e sentir-se humano não são apenas as únicas trabalhadas na obra. Ao mesmo tempo que temos essa vertente que preza pelas festas entre amigos de alta classe, pela ajuda aos necessitados, pela religião, o autor nos traz pequenas cenas que nos deixam antever a pobreza de Londres, o crime e certas indicações sexuais que são sugeridas desde o início, tanto como possível causa para a “subserviência” de Jekyll a Hyde (como se estivesse sendo subornado por “coisas que fez na juventude“) quanto como possíveis ações libidinosas do próprio Hyde quando saía para se divertir — algo que Jekyll precisava fazer usando as máscaras sociais que não o satisfaziam.

À medida que se aproxima do final, o livro abraça cada vez mais o tom sombrio e misterioso, já com as respostas sendo fornecidas e explicações científicas ou sugestões de como algumas coisas podem ter acontecido. A impessoalidade cavada pelo autor, não deixando que a gente se apegasse a nenhum personagem, acaba sendo uma ótima arma para um julgamento mais distanciado de suas ações, que até mesmo no final deixa para que o leitor imagine a sequência imediatamente após a leitura do relato do Doutor Jekyll, agora definitivamente desaparecido depois que Mr. Hyde teve coragem de se envenenar. É um final tenebroso, de um domínio da maldade e do puro impulso do homem sobre a sua persona socialmente moldada e aceitável. Um pesadelo que diz muito sobre a nossa própria estrutura emocional, nossos desejos e como precisamos barrá-los, escondê-los e ignorá-los para que a vida em sociedade seja possível. Eis aí a grande força dessa obra de Stevenson: ela dá vida a uma luta primal que existe em todos nós e que nunca se cansa de nos pressionar e impressionar.

Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde (Reino Unido, 5 de janeiro de 1886)
Autor: Robert Louis Stevenson
Editora original: Pearson Longman
Edição lida para esta crítica: Editora Record, 2016
Tradução: Ana Julia Perrotti-Garcia
89 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.