Crítica | O Menino Que Descobriu o Vento

“Deus é como o vento que tudo toca.”

Quando se tem a oportunidade, as coisas mais geniais podem surgir dos lugares supostamente mais inóspitos, assolados pelas maiores dificuldades. O artista britânico Chiwetel Eijofor, conhecido por papéis como ator, redescobre, agora no seu debute diretorial, uma história edificante sobre um garoto que, contra todas as adversidades, domou o vento e conseguir trazer prosperidade para a sua vila, no Malawi. O cineasta, porém, assegura-se no conforto da premissa, naturalmente engrandecedora desse personagem e da sua mensagem sobre a importância que tem a educação. Em contrapartida, reduz a potência dramática, um envolvimento e até a visão crítica do seu projeto.

O contexto do longa-metragem, pontuado brevemente pelo texto, é conciliado com os ataques do 11 de setembro, nos Estados Unidos. Já no Malawi apresentado, a atual situação político-econômica é muito complicada, ainda mais desfavorecida pelo acaso da natureza, que traz irregularidades climáticas. O povo então sofre. Pois William Kamkwamba (Maxwell Simba), vindo a escrever a obra que inspirou Eijofor, vai para escola e usa o que aprendeu não para ganhar uma vaga numa universidade, mas para conseguir alimentar as pessoas mais próximas a ele. E, sob um ponto mais superficial, Eijofor captura perfeitamente o espírito do garoto e a nossa empatia por ele.

Contudo, as mazelas, enquanto uma uniformidade mais claustrofóbica às esperanças, e não cenas pontuais, não são transportadas como verdade intrínseca ao roteiro. O Menino Que Descobriu o Vento, na verdade, tumultua-se narrativamente em tramas que não impulsionam, dramaticamente, a jornada do herói. Chiwetel Eijofor também pega uma função para si, interpretando o pai do protagonista, que é pouco favorecida. Na estruturação do roteiro, o personagem movimenta-se, mais para frente, como interessado por manifestações políticas, porém, essa é uma vontade subjugada sem justificativa. O pai é quem, curiosamente, possui mais proeminência no argumento.

Mas O Menino Que Descobriu o Vento é uma produção sobre William, mesmo que Eijofor não consiga compreender, dentro dos alicerces do seu filme, quem é protagonista e quem não é. O drama e o ritmo são desregulados por conta disso, como quando todo o cerne se mistura com o breve aumento da participação do Chefe Wembe (Joseph Marcell) no enredo. Já no restante, o cineasta vai trocando de escopo, o ponto de vista e o centro narrativo, sem muita discriminação. O longa acaba se rendendo a uma lógica mais casual, esperada pela abordagem segura, no seu terceiro ato, quando o garoto começa a construir a máquina que o título já entrega sua importância.

O engrandecimento, a jornada de edificação, está presente, entretanto, é acompanhada por uma manipulação de grandiosidade bem barata, que expõe a simplicidade do projeto. A exemplo, o trabalho de cinematografia captura muito mais as pequenas belezas, como a iluminação avantajada e uma riqueza cultural notada pontualmente, que as possíveis imundícies, sugeridas com receio por um roteiro que prenuncia evidenciar mais a influência governamental, mas nunca enxerga isso de uma maneira de fato sóbria. Essa estreia em longas continua sendo, ao menos, uma ode à importância da educação, que não deve ser restrita a quem pode, no entanto, universal.

O Menino Que Descobriu o Vento (The Boy Who Harnessed the Wind) – EUA, 2019
Direção: Chiwetel Ejiofor
Roteiro: Chiwetel Ejiofor
Elenco: Maxwell Simba, Chiwetel Ejiofor, Aïssa Maïga, Lily Banda, Joseph Marcell, Lemogang Tsipa, Philbert Falakeza, Noma Dumezweni, Khalani Makunje, Robert Agengo
Duração: 113 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.