Crítica | O Menino Que Queria Ser Rei

“Alexander Elliot, foi você que retirou a espada! Esse reino enfrenta um perigo mortal!”

O Menino Que Queria Ser Rei não esconde as suas inspirações mais marcantes, que são ícones da cultura popular, importantíssimas para as últimas gerações. Cita constantemente, por exemplo, Harry Potter e até mesmo Star Wars, pautando-se, mais uma vez, na jornada daquele que é escolhido para uma jornada grandiosa e mágica. Essas são narrativas inspiradas, por sua vez, em clássicos britânicos, como Os Cavaleiros da Távola Redonda, reimaginado aqui aos olhos de um outro século e também aos olhos de adolescentes, confusos e melequentos. Uma trilha sonora comum ao sub-gênero medieval, no entanto, marcando presença em um cenário contemporâneo, se apresentará, sugerindo uma novidade quando, na verdade, o que temos é apenas mais um exemplar de premissa vivida sem ter coragem para se debruçar com intensidade em sua trajetória.

Em primeira instância, o que é grandioso e mágico dentro do universo escolar? Supostamente, nada. Pois a resposta que Joe Cornish possui para responder a tal pergunta mora unicamente no seu terceiro ato, imaginativo e um tanto empolgante, contrário à execução no restante, que é bastante automática para essa reimaginação com apenas uma camada de nuance: o que é verdade e mentira nas lendas. Essa mistura entre realidade e misticismo, contudo, não ultrapassa esse ultimato, um suspiro de espirituosidade para uma duração com traços de cansaço. O que permanece mesmo é a busca do cineasta e do longa, uma adaptação, por repensar o que movimenta um herói, ou seja, o que torna alguém escolhido. De uma maneira, é uma reimaginação que remete até a Os Últimos Jedi. Mas uma competente ideia não moldará um projeto competente.

A que somos destinados? Os nossos passados, os nossos antepassados, moldam quem nós somos? Essas são questões, comuns às narrativas e aos personagens comentados na obra, a serem pinceladas no decorrer da jornada do jovem Alexander (Louis Ashbourne Serkis). O garoto encontra, misteriosamente, a Excalibur em um terreno abandonado – nessa versão, a Espada na Pedra e a Excalibur são consideradas as mesmas – e precisa encarar a ameaça de seres malignos. Uma pena que os caminhos a serem superados por esse personagem e seus amigos sejam tão artificiais. Um exemplo bobo de início: o uso de um livro, que conta a história do Rei Arthur, para auxiliar os heróis em suas aventuras, só existe por conta do pretexto dramático que apresenta – um celular o substituiria. Esse é um presente, dado pelo pai do protagonista ao garoto.

Enquanto um épico se origina naturalmente – cenas de ação misturarão a paisagem realista com os símbolos mais mágicos -, um estafamento nasce aos espectadores, que são confrontados por muitos diálogos insuficientes para a construção de um senso por aventura. Uma chamada ao heroísmo. E, paralelamente, surge uma ânsia por uma temática central, pontualmente comentada e pretendida ser a essência do projeto – sobre o que significa ser um herói -, contudo, que não é conjugada a todos os capítulos da jornada. O longa-metragem é muito menos esperto do que parece, com ares mais genéricos que inventivos. O personagem Merlin (Angus Imrie), no caso, é uma manivela narrativa extremamente inconsistente, trazendo ensinamentos e necessidades que não são orgânicas à aventura, contudo, obrigatoriedades dispostas por um roteiro sem as costuras.

Opta-se, em contrapartida, por um roteiro que só quer prosseguir essa narrativa o mais simplificadamente que puder, mas sem que a jornada seja mesmo sentida com a inocência em questão. É um longa, em oposição a esse pensamento, muito mais sujo e que se enxerga como mais sério do que deveria ser. Louis Ashbourne – e que tem mesmo um parentesco com Andy Serkis – passa por um arco pessoal muito introspectivo, movido por várias frustrações e amarguras. O maniqueísmo costumeiro, acerca do bem contra o mal, funcionaria em terrenos mais espirituosos. Joe não está nem trajando um divertimento, nem uma mensagem, muito menos uma paixão à obra. Sem sagacidade, o texto irá referenciar ao espectador, citando Harry Potter, o que margeia o cerne de O Menino Que Queria Ser Rei, em detrimento de insinuações mais inteligentes.

Já os coadjuvantes tornam-se impulsos obrigatórios – e pouco naturais – a uma narrativa que se mantém despreocupada em construir um maravilhamento ou uma auto-importância que crianças gostariam de possuir. Você também pode ser um Rei? Rejeitando priorizar uma mensagem mais profunda como essa aí, a obra meramente quer reiterar aquilo que já referencia, porém, superficialmente. O amigo gordinho, interpretado pelo mais adorável Dean Chaumoo, é uma mais que clara referência a Sam, de Senhor dos Anéis. Lance (Tom Taylor) precisa ser Lancelot, apesar do ator não possuir a mínima carisma e o seu arco estar tropeçando em repetições atrás de repetições e não desenvolvendo-se. Mesma coisa com a sua irmã. Ora, a magia enfim foi revelada para vocês e justamente vocês. Isso não é suficiente para que acreditem em seus reais potenciais?

O que significa ao público quando personagens muito menos interessantes e simpáticos do que os próprios conquistam os louros de uma aventura com possibilidades tão espirituosas? O Menino Que Queria Ser Rei nunca compromete-se em ser verdadeiro e possuir um coração para si, amarrando-se com ideias criativas, possivelmente até engraçadas, mas que funcionassem dentro de uma lógica interna também coerente. O personagem Merlin, por exemplo, só serve para causar graça mesmo, uma graça bem mequetrefe que impede o espectador de enxergá-lo como alguém mais sábio e importante. Em suma, O Menino Que Queria Ser Rei termina colocando a grande Rebecca Ferguson como uma antagonista qualquer, encarnando uma ameaça que deveria ser pretexto para uma jornada e não o fim por si só  – e pensa arcos de personagens sem ter alma.

Em termos de Jornada do Herói, a compreensão de que existe uma subversão é interessante, no entanto, muito mal executada. Os personagens param e os segredos são revelados, sem mais a por. E o maior problema é, curiosamente, a escalação do protagonista, interpretado por um garoto que não recebe a oportunidade de transmitir simpatia ao público, que pouco se associará a seu temperamento ranzinza e injusto até – como encara sua mãe. Enquanto Harry Potter era parte de uma trama igualmente inerente a sua existência – O Menino Que Sobreviveu -, ou Luke Skywalker cruzava os sistemas para confrontar o grande antagonista da Aliança Rebelde, o menino precisa ir atrás do seu pai perdido, que guarda a linhagem do Rei Arthur em seu sangue. Esse menino quer ser Rei, entretanto, merece ser Rei?   E por que não mantiveram só o Patrick Stewart como Merlin?

O Menino Que Queria Ser Rei (The Kid Who Would Be King) – Reino Unido, 2019
Direção: Joe Cornish
Roteiro: Joe Cornish
Elenco: Louis Ashbourne Serkis, Denise Gough, Nathan Stewart-Jarrett, Patrick Stewart, Rebecca Ferguson, Dean Chaumoo, Tom Taylor, Rhianna Dorris, Angus Imrie, Noma Dumezweni, Mark Bonnar, Alexandra Roach, Genevieve O’Reilly
Duração: 120 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.