Crítica | O Mensageiro do Diabo

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Não é de hoje que o cinema americano demonstra tanto apreço em construir suas obras de horror em cima dos temores mais primários do ser humano: a solidão do mundo, o medo do desconhecido, o enfrentamento iminente da morte. São medos que atravessam nosso imaginário desde a infância, e é com base neles que Charles Laughton, em seu único trabalho atrás das câmeras, dá vida ao seu conto lúdico que perpassa por temas como feminicídio, religiosidade e ganância.

Vítima de um fracasso comercial motivado, muito provavelmente, pela difícil aceitação do enredo em plenos anos 50, O Mensageiro do Diabo é ambientado nos EUA dos anos 30, ainda se recuperando dos efeitos da recessão econômica (e isso jamais é verbalizado pelo filme, as imagens deixam claro por si só), Ben Harper (Peter Graves, de Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu!) é um pai de família que após um fatídico assalto a um banco, esconde a quantia roubada na boneca de sua filha Pearl (Sally Jane Bruce), fazendo ela e seu irmão jurarem jamais revelar a localização da quantia. Condenado a execução, Ben conhece na cadeia o inescrupuloso Harry Powell (Robert Mitchum, de Fuga do Passado), que após a execução de Ben, se disfarça de pregador religioso para se aproximar da família Harper e descobrir onde está o dinheiro, aproveitando a oportunidade para casar com Willa (Shelley Winters, de Winchester’ 73), viúva de Ben.

Ao mesmo tempo em que Charles Laughton se sentiu tão decepcionado com a recepção negativa ao ponto de prometer nunca mais dirigir outro filme (mas seguiu atuando em grandes títulos como O Corcunda de Notre Dame, Testemunha de Acusação e Spartacus), é compreensível a recusa do público em relação ao projeto, uma vez que nossos tempos são muito mais suscetíveis a encarar o cinismo extremo de Henry Powell do que os frágeis anos 50, mesmo com uma história que dispensa a violência gráfica, mas desnorteia com um tom lúdico e fantasmagórico, mesmo não havendo nada de sobrenatural, que muito aproxima O Mensageiro do Diabo de um autêntico pesadelo.

A identidade estética de Laughton ao lado do diretor de fotografia Stanley Cortez ressaltam isso com gosto. Tomando para si a escola do expressionismo alemão, Laughton e Cortez apostam em enquadramentos inusitados, que brincam com a sombra e a luz de forma ressaltar não somente o perigo da presença de Powell, mas a própria dicotomia entre o bem e o mal, algo que o roteiro de James Agee jamais nos permite esquecer (e talvez faça isso mais que o necessário) ao enfatizar a religiosidade cega dos que acreditam na suposta devoção extrema de Powell, se entregando ao mastigado “providência divina”. E nisto, as imagens de O Mensageiro do Caminho caminham num prazer estético valioso, como a figura de Robert Mitchum iluminada por um lampião que agiganta sua sombra ou o momento em que um corpo é revelado no fundo de um rio, talvez o frame mais catártico do filme. Nada mais completo, porém, que a sequência onde as crianças fogem num barco enquanto elementos “gigantes” da natureza as observam.

Mitchum, aliás, é responsável por uma das caracterizações vilanescas mais idolatradas e temidas do imaginário popular americano. Dono de bom porte, voz mansa, rosto bondoso e repleto de discursos que condizem com a moral cristã daquele lugar, Henry Powell atinge um nível de ganância e crueldade que certamente assustaram a classe média americana, em especial pela imposição assustadora de Mitchum em cena. Reparem, por exemplo, na cena em que o vilão chega ao ponto de insultar a pequena Pearl, um momento difícil de encarar. E Mitchum se faz tão imponente que, querendo ou não, ofusca o trabalho de quase todo o elenco, algo quebrado somente perto do clímax quando a senhora Rachel Cooper (Lilian Gish, de Intolerância) entra em cena e se digladia, quase literalmente, com Powell. Uma das grandes cenas (mais uma) do filme é protagonizada por Gish e Mitchum, num misto de tensão e lirismo que o cinema americano raramente atingiu novamente.

Por ter construído uma carreira notável como ator, é lamentável que O Mensageiro do Diabo fique tão relegado ao último plano na carreira de Laughton, mesmo que o passar dos anos tenham aberto os olhos da crítica sobre o valor e a influência do filme (a Cahiers du Cinèma o elegeu, em 2015, como um dos mais belos 100 filmes da história, ficando atrás somente de Cidadão Kane). Houve uma refilmagem televisiva nos anos 90, e que claramente não chegou aos pés da importância artística da obra original de Charles Laughton.

O Mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter) – EUA, 1955
Direção: Charles Laughton
Roteiro: James Agee, baseado em livro de Davis Grubb
Elenco: Robert Mitchum, Shelley Winters, Billy Chaplin, Lilian Gish, Peter Graves
Duração: 93 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.