Crítica | O Método Kominsky – 2ª Temporada

Sandy e Norman, os dois velhos rabugentos de O Método Kominsky, gostosa série que discute a vida, a morte e a terceira idade na veia de Grace and Frankie, retornam para mais uma temporada e, dessa vez, Chuck Lorre, seu criador e showrunner, realmente acerta no tom, tornando os personagens vividos respectivamente por Michael Douglas e Alan Arkin duas efetivas partes de um todo coeso, corrigindo grande parte dos problemas que detectei na 1ª temporada. Talvez por Lorre ter concentrado a redação dos roteiros quase que integralmente nele, há uma bem-vinda coesão maior ao longo da história, sem que personagens sejam esquecidos ou subaproveitados, em um conjunto harmônico, engraçado – por vezes melancólico – e rico, muito rico.

As linhas narrativas tangenciais dos protagonistas coloca, de um lado, Norman recomeçando sua vida amorosa com Madelyn (Jane Seymour ainda linda no alto de seus 68 anos) uma namorada que teve há 50 anos e tentando reconciliar-se com sua filha Phoebe (Lisa Edelstein) que sai mais uma vez da clínica de tratamento e, de outro, Sandy lidando com o diagnóstico de câncer no pulmão, tentando voltar o namoro com Lisa (Nancy Travis) e descobrindo que sua filha Mindy (Sarah Baker) está namorando Martin (Paul Reiser), um homem bem mais velho, quase de sua idade. Parece muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas a grande verdade é que, mesmo com apenas oito episódios de duração padrão de sitcom, Lorre costura muito bem as histórias fazendo com que a temporada realmente avance em termos de construção de personagem e de desenvolvimento da premissa da série, que começa com a morte da esposa de longa data de Norman, Eileen (Susan Sullivan) que tem sua participação “fantasmagórica” reduzida, mas que ainda se faz presente em momentos relevantes.

O elenco expandido, notadamente Reiser (quase irreconhecível em um excelente trabalho de maquiagem e caracterização) e Seymour, trazem frescor relevante para a narrativa e seus personagens efetivamente contribuem para que Sandy e Norman cresçam e lidem com suas respectivas vidas de maneira honesta e, diria, catártica, sem lamentos além das hilárias rabugices padrão dos dois que os atores, mesmo com a idade avançada (Arkin tem impressionantes 85 anos, 10 a mais que Douglas!), parecem tirar de letra, brincando com todas as limitações físicas que vem a reboque das décadas sem perder o ritmo e o timing cômico. Vale especial destaque para a química instantânea entre Douglas e Reiser, algo que é explorado extensivamente dentro da série já que Sandy e Martin muito rapidamente tornam-se melhores amigos, tendo muito mais em comum entre eles do que Martin com Mindy, algo que era de se esperar, mas que deixa a jovem desesperada.

Arkin, por seu turno, ganha os diálogos mais pesados, por assim dizer, com a tendência de seu personagem de ser honesto com seus sentimentos até o último fio do cabelo (com trocadilho) funcionando como elemento auto-destrutivo, cujo rumo precisa ser alterado constantemente por Sany que se mostra muito mais sábio aqui, em uma espécie de boa inversão de papéis se compararmos com a 1ª temporada. O destaque, claro, fica com a relação para lá de estremecida de Norman com Phoebe, com o pai cansado de dar chances que nunca são aproveitadas pela filha e completamente sem esperanças de que algo mudará agora. São sequências que até são escritas apelando para o humor, mas que tem um fundo dramático profundo e até perturbador, considerando-se que Phoebe é a eterna viciada que precisa de todo o apoio para vencer o que lhe aflige, mas que só recebe patadas de seu próprio pai. Apenas o relacionamento amoroso de Norman com Madelyn é que não alcança o nível que poderia aqui, ficando mais como um apoio narrativo que é sim relevante, mas sem a relevância que poderia ter.

Amadurecendo logo em sua 2ª temporada de maneira muito semelhante justamente a Grace and Frankie, O Método Kominsky realiza todo o seu potencial cômico e dramático e estabelecendo de vez a dupla principal como puro ouro cômico, acompanhados de perto pela excelente adição de Paul Reiser ao elenco e a um Chuck Lorre afiado em seus textos do começo ao fim. Mal posso esperar para as novas rabugices desses dois velhos amigos.

O Método Kominsky – 2ª Temporada (The Kominsky Method, EUA – 25 de outubro de 2019)
Criação: Chuck Lorre
Direção: Andy Tennant, Beth McCarthy-Miller
Roteiro: Chuck Lorre, Al Higgins
Elenco: Michael Douglas, Alan Arkin, Sarah Baker, Nancy Travis, Lisa Edelstein, Ramon Hilario, Jane Seymour, Kathleen Turner, Paul Reiser, Haley Joel Osment
Duração: 23 a 29 min. (oito episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.