Crítica | O Meu Caso

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Experimental e inteligentíssimo, O Meu Caso (1986) é um filme de Manoel de Oliveira que apresenta um estudo cênico de palavra e imagem, de ideias e atos que se expandem a partir das três bases nas quais o diretor se inspirou para escrever o roteiro: a peça homônima de José Régio; o Pour en Finir et Autres Foirades de Samuel Beckett e O Livro de Jó, do Antigo Testamento. A exposição metalinguística — elemento que o diretor foi incorporando de maneira cada vez mais intensa em sua filmografia — está aqui em forma de um ciclo, onde o espetáculo da vida, da morte, das ideias e dos atos (em resumo, “os muitos casos“) se unem para falar da importância e nulidade dos acontecimentos da vida de alguém, vistos de fora.

Quem não quer ser importante? Em O Meu Caso, essa pergunta ronda todos os personagens, marcados por uma aura de Pirandello através da peça de José Régio: eles procuram seu lugar de destaque no pequeno mundo (o palco, a tela), deixam claras suas intenções de se pronunciarem a respeito da vida pessoal (suas dores e alegrias) e assumem suas falhas desde sempre, embora estejam em uma linha comportamental que os façam a voltar atrás aqui e ali, em relação à própria loucura, exageros e importância. Na primeira encenação, temos a peça mais ou menos como foi concebida. Oliveira faz uma rápida passagem visual e narrativa do cinema para o teatro, lançando mão de coisas que ambos têm em comum, em essência, a plateia. Um fato curioso então se ergue: ao mesmo tempo que olhamos para essa representação como algo distanciado de nós, somos ligados aos dissabores humanos de cada um dos que entram em cena.

Já comentei aqui sobre a abordagem metalinguística tomada como um ciclo nesse filme. Somando-se a isso, direção e roteiro não se furtam em adicionar elementos dessa mesma ordem na própria construção dos atos, jamais escondendo o caráter teatral e a fusão cinematográfica da proposta. Em pouco tempo, porém, tudo começa a dar errado. Um homem qualquer — desesperado, como todo aquele que acredita que tem algo muito importante para falar a todos — entra em cena e toma a palavra para expor “o seu próprio caso“. O espectador deve ficar atento para a forma como essa encenação é captada pela câmera, porque nos blocos 2 e 3 teremos exatamente a mesma dinâmica, mas abordada de outras maneiras: uma muda e em preto e branco, basicamente em planos mais fechados; e outra em planos gerais, com as vozes dos autores rodadas de trás pra frente.

Cada um desses momentos mostram “casos pessoais” acrescidos de “casos alheios“. No filme, todos desejam que seus dilemas íntimos e familiares chamem a atenção dos personagens e do público, numa verdadeira peleja para conseguir atenção. Os temas são, em tese, os mesmos, mas no bloco de representação muda (o mais afetado de todos) temos o texto de Beckett que dá abertura para a força da miséria e fraqueza humanas diante da vida, da natureza e de suas próprias invenções antropológicas, algo que irá se conectar perfeitamente com o último ato, onde uma encenação anacrônica (no início e no fim) do Livro de Jó é realizada. A cada novo segmento, uma camada de tragédia é adicionada e as diferenças que observamos nas três primeiras representações se aglutinam para mostrar “o verdadeiro caso de todos os casos“, a história da maior baixeza e da maior elevação da vida de um homem — nesse ponto, em contato com o Divino, provedor de suas derrotas e vitórias.

No fim, tudo muda. Uma indicação disso já podia se ver na reta final do terceiro ato, quando o filme dentro do filme mostrava a vida real, o “caso verdadeiramente importante“, mais trágico e mais mortal do que os dilemas aveludados dos alienados e revolucionários no palco. Guerra, fome, doença e mortes são, neste mundo farsesco, os casos sombrios encobertos pelos casos cheios de mimos daqueles que comem, vestem e vivem bem. O dilema é posto de maneira tão brilhante pelo roteiro, que o diretor escolhe a quebra total de espaço e tempo para concluí-la. Então, como disse, tudo muda. A direção de arte cria uma cidade do século XX destruída, onde um anacrônico Jó e um elenco vestido de trapos conversam sobre o que faz alguém cair (ou ser colocado) na mais absoluta miséria. O “caso sem explicação“.

Mas… não é “sem explicação”, certo? Esta é apenas a primeira impressão que temos dele. O diálogo bíblico que sucede a Régio e Beckett poderá ser lido de diversas formas, começando pela superfície (a óbvia leitura religiosa) e chegando às raias do Senhor da Guerra que a tudo destrói. O maior de todos os casos é explicado. E é justamente onde o diálogo alcança o patamar de sacrifício, solicitação de ação e entendimento do por quê tudo aquilo ocorre (e onde todos, enfim, param de falar de si mesmos) que o “milagre” acontece e um caso dá lugar a outro, na utópica recriação de Piero della Francesca.

A irrealidade é tamanha que o espectador se sente incomodado e Oliveira, muito ciente de como o peso de um contexto literal poderia jogar na vala todo o simbolismo da sequência (agora fotografada com luzes diretas e abundância de cores claras) nos retira da utopia através da movimentação da câmera, cortando (sem cortar) o difícil mergulho num caso impossível para a maioria das pessoas. É com este distanciamento transformado em enigma (na tela e no sorriso de uma famosa mulher) que o diretor nos deixa. Nenhum caso importa mais. Todos eles já chegaram à sua conclusão. O que era o “caso deles” torna-se agora o caso de cada um de nós. A vida, simplesmente.

O Meu Caso (Mon cas) — França, Portugal, 1986
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira (baseado em texto de Samuel Beckett, na peça de José Régio e no Livro de Jó)
Elenco: Bulle Ogier, Luís Miguel Cintra, Axel Bogousslavsky, Fred Personne, Wladimir Ivanovsky, Héloïse Mignot, Grégoire Oestermann, Henri Serre, Teresa Madruga
Duração: 92 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.