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Crítica | O Milagre da Cela 7 (2013)

por Iann Jeliel
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O enredo de Milagre na Cela 7 é naturalmente comovente, o que nas mãos erradas pode se tornar malandro, facilmente passível de cair na armadilha da empatia pela pena, tanto que sua nova versão turca, distribuída originalmente na Netflix, foi um fenômeno em 2020 no streaming  justamente por esse aspecto desleal que buscava desesperadamente o apelo e manipulação emocional fácil para ganhar uma lágrima de seu telespectador. Já sua matéria-prima coreana felizmente se dirige para o extremo oposto (ou quase isso), ao se dispor da liberdade da comédia para levantar os questionamentos sociais e tornar o exercício empático mais simpático e verdadeiro.

Os desdobramentos narrativos são praticamente idênticos, com uma ou outra mudança de contexto. Mesmo assim, este é outro filme pelo seu charme próprio e diferencial na condução desses desdobramentos de modo devidamente mais saudável. O timing de transição entre tons é o fator mais importante para entender o jogo sentimental mais honesto do longa. É só observar como alguns acontecimentos primordiais são desviados de algo explícito (que poderia cair no território melodramático) para serem sentidos em termos mais subjetivos, naturalmente chamando o público a ser um personagem observador mais íntimo na história.

Pegando, por exemplo, a cena do “crime”, que não é mostrada intencionalmente para propor ao público o desafio de acreditar no deficiente aos poucos e apenas por sua palavra, processo por qual todos ao seu redor passaram ao longo do filme. Uma bolha levemente plantada de otimismo é colocada, e vai se alastrando conforme a lógica interna do filme vai se revelando, adotando uma linha lúdica, às vezes estranhamente alegre, mas que pouco a pouco converte as dificuldades do protagonista no lugar mais ingênuo do humor. Isso é verdade, gera uma espécie de esquizofrenia à narrativa, mas é positiva por ser intencionalmente calcada na estrutura de unidade bem definida do filme.

Ela que mais parece uma fantasia, mesmo, porque segue a mesma linha de pensamento do moço especial, sem discernimento da seriedade das acusações direcionadas e do tão encrencado que ele está na situação na qual se encontra, principalmente considerando todos os aspectos burocráticos por trás da refutação de uma provável inocência. Na verdade, ele está pouco se lixando para isso, leva tudo como uma brincadeira que normalmente faz com sua filha, e pouco a pouco, essa ingenuidade compactada em todo o jogo cênico, e interações com os outros membros da cela, vai conquistando naturalmente o espaço emocional do público e de outros personagens aparentemente um tanto maniqueístas no início.

Por mais que pareça uma solução absurda, esse aspecto exagerado inverte o processo do turco, que a cada minutagem só se tornava cada vez mais conveniente e maniqueísta, enquanto esse só se mantém mais coerente com a base de flashback em que se inicia, entretanto sem ser incoerente com o tom que adota. A tragédia anunciada reflete uma lembrança efetiva positivista, nesse sentido, metalinguisticamente, a direção é precisa em conduzir a narrativa nesse longo contraste para que o sentimento da narradora pelo personagem seja compreendido, e as emoções que ela sente falem por si só nas interações.

Essa mescla de gêneros vem sendo a especialidade do cinema coreano, e a escola demonstra uma habilidade genuína em fazer com que uma complemente ou reduza a outra, quando necessário. Desse modo, os momentos que precisam da catarse emocional ficam fortes sem apelação, e os cômicos não perdem a linha de seriedade. A corda bamba fica num equilíbrio verossímil, e o legado daquele excêntrico personagem é respeitado sem que se sinta pena de suas limitações, e sim que se orgulhe do que ele conseguiu fazer, apesar delas.

OBS: Existem ainda outras duas versões, uma indiana (Pushpaka Vimana, de 2017) e outra de Brunei e Filipinas (Miracle in Cell No. 7, de 2019, assim como o turco). Além deles, já está anunciado um para este ano (2020), da Indonésia.

Milagre na Cela 7 (7-beon-bang-ui seon-mul / Coreia do Sul, 2013)
Direção:
Hwan-Kyung Lee
Roteiro:
Hwan-Kyung Lee
Elenco:
Kal So-won, Park Shin Hye, Seung-Yong, Ryoo Jeong, Man-Sik, Lin-young Lung, Jo Jae Yoon, Kang Seung-Wan, Kim Lung Tae, Kim Ki-Cheon, Kim Se-Dong, Lee Yun-Heet.
Duração:
127 minutos

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