Crítica | O Mistério da Casa Verde, de Moacyr Scliar

O que seria de Itaguaí, pergunta, se não tivesse uma Casa Verde mal-assombrada?

A primeira coisa que precisa ficar clara para o leitor de O Mistério da Casa Verde (2000) é o contexto de sua produção. A obra infantojuvenil faz parte de um projeto da Editora Ática chamado Coleção Descobrindo os Clássicos, cuja proposta é apresentar obras icônicas da literatura para um público que queira um impulso (ou facilidade) em relação ao primeiro contato com o original. Coube ao gaúcho Moacyr Scliar fazer a ligação entre O Alienista, de Machado de Assis, com a linguagem jovem e no tempo presente (nesse caso, do ano 2000) que o projeto exigia.

Em certa medida, portanto, O Mistério da Casa Verde é uma continuação da obra machadiana, passando-se séculos depois do tempo em que Simão Bacamarte realizou o seu sonho de curar dos loucos da vila, um projeto que acabou revelando a sua própria loucura — ou sanidade, dependendo de como olhamos a questão. No presente livro, o grupo de garotos formado por Arturzinho ‘Xereta’, André Catavento, Léo e Pedro ‘Bola’, todos em idade escolar, acaba chegando à antiga Casa de Orates depois de muito procurar por um espaço para fazer música e bastante barulho (o que não podiam fazer em casa). E essa é a “desculpa” para que o autor coloque os jovens em contato com o local da famosa obra de Machado de Assis, e é inclusive com muitos (muitos!) trechos dela que um mistério e uma quase-investigação acontece aqui.

O início do livro não tem tanto brilho quanto o seu desenvolvimento e final. Os diálogos parecem forçados para o tipo de adolescente que Scliar nos apresenta e a intenção geral da trama ainda é bastante reticente. Aos poucos, porém, nos acostumamos com o cenário e começamos a nos aproximar dos meninos, a partir do momento em que começam a mostrar mais si mesmos, seja na discordância com os outros, seja na maneira como exprimem o que pensam de toda a empreitada inicialmente proposta por Arturzinho. Como complemento para a nossa construção geral dos personagens, o autor fornece informações sobre meio social em que eles vivem, mostra que fazem parte de diferentes classes sociais, mas não explora nenhum tipo de condição ou predisposição a partir desse ponto. Nada além das inerentes dificuldade sofridas pelo garotinho pobre que mora no subúrbio e da facilidade até para chegar nos lugares de encontro que os meninos do centro possuem.

O maior problema do livro, disparado, é o capítulo em que o grupo vai consultar a professora Isaura sobre O Alienista. A leitura de inúmeros trechos da obra, entrecortada por observações muitíssimos didáticas chega a quebrar por completo o ritmo da aventura e tem ainda um problema a longo prazo: parte dessa mesma saga é repetida ao final, na peça de teatro encenada por Jorge, parente distante de Simão (relação explicada de maneira não muito convincente no livro, embora não seja algo assim tão impossível de se imaginar — e só pra constar, eu não acho que condiz com a personalidade de Bacamarte).

Os eventos finais alternam novamente alguns diálogos forçados (porém poucos, dessa vez) e uma boa visão do autor para o que deveria ser feito da Casa Verde, depois de resolvido o mistério que dá origem ao livro. À parte alguns diálogos e à repetição sucessiva de trechos do original (com informações que poderiam ser melhor espalhadas no livro e tomando os meninos como protagonistas de sua descoberta), O Mistério da Casa Verde traz linhas de interpretação muito boas para o original, adaptando-as ao mundo atual de maneira coerente e, exceto pela exposição da descendência de Simão, respeitando a essência do original. É um complemento interessante, coberto por uma trama simples e típica das aventuras infantojuvenis para lhe dar apoio. Não vale como substituição da leitura de O Alienista para qualquer pessoa acima dos 13 anos — embora a gente saiba que este é o seu propósito editorial — mas com certeza vale como revisão ou expansão daquela história sob novos (e seculares) pontos de vista.

O Mistério da Casa Verde (Brasil, 2000)
Coleção Descobrindo os Clássicos

Autor: Moacyr Scliar
Editora: Ática
88 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.