Crítica | O Mistério das Duas Irmãs

O Mistério Das Duas Irmãs deve ser considerado uma das refilmagens tardias do calabouço de ideias fornecidas pelo sistema de produção oriental. Com traços conectados ao terror psicológico desenvolvido em Medo, escrito e dirigido por Jee-Woon, baseado num conto popular sul-coreano. A sua versão estadunidense é o geralmente já esperamos de reproduções que basicamente são cópias do trabalho alheio: divertida, com momentos intrigantes, mas muito óbvia. De tão óbvia, o filme está mais para um vídeo explicativo dos traços ambivalentes do sul-coreano, pois constrói a sua narrativa com base em nossa interpretação para as possíveis questões expostas pela produção oriental e seu encaminhamento para um desfecho aberto.

Assim, O Mistério das Duas Irmãs é uma oportunidade para o público dos Estados Unidos ter acesso ao conteúdo de Medo, haja vista a declaração de Sam Raimi na ocasião de lançamento de O Grito: “a refilmagem destas produções está ligada ao desinteresse dos estadunidenses em acompanhar narrativas que não estejam em sua língua”, isto é, o público, de maneira geral, é bastante limitado culturalmente, além de exibir prepotência em seus mais altos graus, algo que já sabemos, por sinal, basta olhar o panorama da geografia política ao longo do século XX. Com direção de Charles Guard e Thomas Guard, a realização teve o roteiro assinado pela dupla formada por Doug Miro e Craig Rosemberg, grupo que busca construir uma história de terror interessante, algo alcançado, mas muito subserviente aos clichês.

Na trama, acompanhamos Anna (Emily Browning), uma jovem que tenta o suicídio depois da morte de sua mãe, vitimada por um incêndio. A situação a leva para o internamento, mas no filme, a personagem já está preparada para retornar para casa e reencontrar a sua família, isto é, Steven (David Straitharn) e Rachel (Elizabeth Banks), pai e madrasta, respectivamente, e a sua irmã, Alex (Arielle Kebbel), jovem que parece dialogar apenas com Anna, sem contato direto com as pessoas ao redor. Por que será, hein? Sem forças para recordar os acontecimentos que demarcaram a morte de sua mãe, Anna precisa da ajuda do seu psiquiatra, o Dr. Silberling (Dean Paul), profissional que depois de várias sessões de análise, afirma que a garota já está pronta para seguir em frente com a sua vida.

Diante do exposto, temos a chegada de Anna na casa onde a tragédia ocorreu há algum tempo, uma bela habitação à beira mar, bem conectada com o status de seu pai, um escritor renomado. Anna aparenta certo distanciamento, além de tentar, mas não conseguir mais confiança com a madrasta, mulher que tal como sabemos, foi a enfermeira de sua mãe. Inicialmente a garota tenta, mas a sua irmã envenena a relação a todo instante, até que a leva a desconfiar que a morte da matriarca tenha sido um plano diabólico da enfermeira para ficar com o seu pai. Será por meio deste conflito que seguiremos numa linha investigativa, até descobrir o que já está transparente na produção: Anna apresenta alguns distúrbios de ordem psicológica e sua irmã na verdade já está morta, vitimada pelo incêndio.

Tem mais: a tragédia foi promovida por Anna, num momento de fúria ao testemunhar o seu pai dando alguns amassos na enfermeira, haja vista a distante vida sexual diante da doença da esposa, justificativa para o adultério. E neste ritmo, seguimos pelos breves 87 minutos de narrativa, trilha de clichês que não ajudam em seu desenvolvimento, mas o torna óbvio e sem identidade. O Mistério das Duas Irmãs não é ruim, funciona como um terror médio, telefilme talvez, caso você não o associe demais com o seu suposto ponto de partida, isto é, Medo. Com humor vacilante, sustos que se prendem às entidades sobrenaturais ao estilo O Grito, com sons guturais e cabelos assustadores, em consonância com os efeitos visuais de Bruce Woloshyn, o filme não ousa em momento algum e mantém a sua subserviência diante do ponto de conexão oriental, demonstrando-se ineficaz.

Digo isso, mas não é no interesse de parecer cult. É comum dizer que os orientais fazem terror de maior classe, que o cinema hollywoodiano não presta pra nada, mas são colocações categóricas que precisam ser pensadas. As minhas colocações conectam-se com a obviedade do plot twist da irmã imaginária, do elenco que faz o possível para dar dignidade ao filme, mas fracassa em suas intenções. Além disso, como não criticar o uso excessivo de jumpscare, oriundo do design de som da equipe de Scott Hecker, irritante com tantos ferrões sonoros ao longo do filme, aparentemente um banquete de sustos para o público, mas também dispersivo e responsável por atrapalhar algumas partes da boa trilha sonora de Christopher Young. Pontos para o design de produção cuidadoso de Andrew Menzies e para a eficiente direção de fotografia de Daniel Landin, adequada em seus ângulos que representam isolamento e nos truques revelados no desfecho.

O Mistério das Duas Irmãs (The Uninvited) — Alemanha/Canadá/Estados Unidos, 2009
Direção: Charles Guard, Thomas Guard
Roteiro: Craig Rosenberg, Doug Miro
Elenco: Emily Browning, Arielle Kebbel, Elizabeth Banks, David Straithairn, Maya Massar, Kevin McNulty, Jesse Moss, Dean Paul Gibson, Skyler Shaye, Brittany Curran, Don S. Davis, Lex Burnham, Danny Bristol, Matthew Bristol
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.