Crítica | O Mistério de Marie Rogêt, de Edgar Allan Poe

O Mistério de Marie Rogêt, de Edgar Allan Poe plano crítico

Basta dizer que faz parte de uma série infinita de erros que surgem no caminho da Razão em virtude de sua propensão de buscar a verdade em detalhes.

Muitíssimo diferente do que tivemos na apresentação do Detetive Dupin aos leitores, com o excelente Os Assassinatos na Rua Morgue (1841), O Mistério de Marie Rogêt depõe contra a grandeza de Edgar Allan Poe, sendo até hoje a pior obra famosa que eu li dele. E sim, existe uma tonelada de contexto em torno da produção e publicação deste conto, mas obra pronta é obra pronta: o contexto nos faz apenas entender/explicar o motivo de sua configuração, mas não é uma borracha estética, não apaga os problemas que ela porventura tenha. Avaliação crítica de uma obra nunca se dá pelo que ela deveria ter sido ou por intenções pretendidas, mas não aplicadas a ela, seja lá por qual motivo. Analisa-se a obra exatamente pelo que ela é, pelo que foi entregue ao público. O contexto “só” nos ajuda entender os motivos de tudo isso.

Serializado na Snowden’s Ladies’ Companion entre o final de 1842 e o início de 1843, este conto tem um caráter bastante peculiar. Poe o concebeu como uma continuação de Rua Morgue, mas desta vez, usou os talentos de seu detetive para tentar solucionar um caso real, o assassinato da bela jovem Mary Cecilia Rogers (que no conto, ambientado em Paris, virou Marie Rogêt), ocorrido em 28 de julho de 1841, em Hoboken, Nova Jersey. O autor estruturou o conto como um espelho para o que aconteceu na vida real, mudando elementos necessários para justificar a ficionalização, mas aplicando exatamente todos os eventos em torno do mistério que, infelizmente, nunca foi solucionado pela polícia.

Na vida real, Mary trabalhava em uma tabacaria, era conhecida por sua beleza e pela forma como atraía a freguesia da casa, chegou a sumir por alguns dias em 1838, mas retornou. Em 25 de julho de 1841, ela disse ao noivo Daniel Payne que iria visitar uma tia, mas não retornou. Três dias depois, seu corpo foi encontrado no Rio Hudson. Essa mesma dinâmica, inclusive com alusões à grande repercussão do caso na imprensa, são aludidas e explicadas no conto, com Dupin assumindo a investigação e dando voltas e mais voltas em torno de situações já bastante claras ou que poderiam desenvolver-se de maneira menos intricada.

O curioso é que em Rua Morgue Poe adotara o mesmo estilo de abordagem, mas com um resultado final completamente diferente, justamente poque não havia a fixação de sobrepor camas de conceitos científicos a camadas de dedução, de explicação das contradições dos jornais e de provocação (fictícia, mas nem tanto) à forma como a polícia guiou o caso e a alguns depoimentos por ela colhidos. Em meio a isso, no entanto, o leitor encontrará momentos genuinamente interessantes aqui, onde a enrolação dá lugar a uma abordagem que faz jus à semente da literatura policial plantada anteriormente pelo próprio autor… e também ao papel de Dupin nesse caso, que mesmo dando as maiores voltas para chegar a um ponto relativamente simples do argumento, é capaz de nos munir de diversas pistas e fazer as mais interessantes relações no que diz respeito ao comportamento dos suspeitos — a forma como ele constrói a justificativa de que na verdade não se tratava do trabalho de uma gangue e sim de um único assassino é um dos melhores momentos do relato, assim como a explicação (cortando o excedente) sobre a flutuação ou afundamento de um corpo num rio.

Para piorar ainda mais a situação final da obra, o editor do SLC cortou um trecho final do manuscrito de Poe, colocando uma observação editorial que mata completamente o raciocínio conclusivo de Dupin e que, talvez, pudesse dar maior sentido ao encerramento da aventura, que claramente procura estreitar relações entre o início e o final (aludindo à dinâmica do espelho entre ficção e realidade), mas parece que está discursando sobre algo completamente diferente. Dessa vez, quase tudo contribuiu para desfavorecer a obra. O resultado é um conto medíocre (na melhor das hipóteses) do grande Edgar Allan Poe. Até hoje não conheci quem realmente gostasse dele. Se você, leitor, é um desses raros que amam a obra, manifeste-se aqui nos comentários e vamos trocar impressões sobre.

O Mistério de Marie Rogêt (The Mystery of Marie Rogêt) — EUA
Publicação original: Snowden’s Ladies’ Companion, novembro e dezembro de 1842 e fevereiro de 1843
No Brasil: Edgar Allan Poe: Medo Clássico – Vol. 1, DarkSide Books, 2017
Autor: Edgar Allan Poe
Tradução: Marcia Heloisa
50 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.