Crítica | O Mistério do Baú Espanhol (Agatha Christie’s Poirot 3X08)

plano critico The Mystery of the Spanish Chest poirot

estrelas 4

Eu sempre achei a forma cruel com que Agatha Christie escrevia alguns crimes um exercício fascinante de observar a crueldade humana para, no momento seguinte, contrastá-la ao lado curioso, humanista e justo que algumas pessoas podem ter. Os bons livros e contos da autora basicamente coloca essa dualidade como centro de diversas discussões, tornando as investigações de seus detetives uma caminhada cuidadosa também pela moral e ética, tendo aqui e ali nuances e críticas históricas, sociais; conflito de gerações, ganância, ideologias e crimes passionais para se analisar.

Baseado no conto de mesmo título, O Mistério do Baú Espanhol faz parte da coletânea A Aventura do Pudim de Natal (1960), estando neste livro como uma versão expandida de um conto publicado pela autora em 1932. No original, a rede de suspeitos e pistas falsas é bem maior que a desta adaptação, roteirizada por Anthony Horowitz, mas mesmo assim existe uma excelente manutenção do tom contido na literatura, ao menos nesse aspecto de criação de mistério. O final talvez exagere este lado, mas no todo, o ciclo acaba se fechando bem, mesmo que o caminho utilizado pelo autor tenha deixado boas justificativas de lado, mantendo aí um ar de intriga e um caso de amor que claramente se estabeleceu entre Marguerite (Caroline Langrishe) e Major Rich (Pip Torrens).

Com Hastings em cena (cronologicamente estamos no início da carreira de Poirot como detetive particular, mas eu acharia bem mais interessante que tivessem mantido Miss Lemon na história, que foi colocada de lado com a justificativa de que estava de férias), temos uma ajuda irônica e um pouco cheia de elementos morais, mostrando parte da chatice do personagem, especialmente sob interpretação de Hugh Fraser, cujo olhar perdido e risadinhas cúmplices de alguma coisa vão irritando aos poucos o espectador. A impressão é que sempre houve um impasse na presença de Hastings na série Agatha Christie’s Poirot e isso se refletiu na má escrita do personagem na maioria dos episódios em que ele aparece. E isso é menos culpa do ator e mais do roteirista, que o coloca como um observador moralista majoritariamente sem energia, não raramente sendo engolfado por coadjuvantes que aparecem bem menos em cena.

A direção de Andrew Grieve se aproveita das deixas do conto e faz da sequência da festa a melhor de todo o episódio. Mesmo para quem não leu o original, sabe que ali é o ponto central da história e muita coisa está acontecendo. Poirot dança Charleston (momento hilário e impagável) mas também observa, questiona e realiza comentários espirituosos, o que faz com que ele questione, no dia seguinte, a notícia que o Inspetor Japp vem lhe trazer. A relação entre os dois é novamente colocada como um elemento cômico, e isso cai como uma luva ao aspecto de disputa e ao mesmo tempo de grande respeito que um tem pelo outro.

Há uma passagem pouco modulada de tensão do meio para o final da narrativa. Claro que isso não é de todo grave e nem tem um impacto absurdamente diminuidor de qualidade do episódio, mas é um ponto que certamente incomoda. Passamos do mistério engrandecido pela trilha sonora e pela fotografia escura para um ponto mais didático, quase anticlimático, com portas e janelas abertas para um romance, mesmo que não tire a capacidade de divertir o espectador através de uma ótima história de detetive, criada a partir de uma paixão descontrolada, motivando um crime terrível. A cena em que o assassinato ocorre é medonha, embora a gente não veja a vítima sendo atingida diretamente, uma perfeita escolha do diretor ao se aproveitar apenas das expressões de ódio e comprometimento do personagem de John McEnery para mostrar o fato-gerador do mistério do tal baú espanhol. Um tenebroso baú, diga-se de passagem.

O Mistério do Baú Espanhol (The Mystery of the Spanish Chest – Agatha Christie’s Poirot 3X08) — Reino Unido, 17 de fevereiro de 1991
Direção: Andrew Grieve
Roteiro: Anthony Horowitz (baseado na obra de Agatha Christie)
Elenco: David Suchet, Hugh Fraser, Philip Jackson, John McEnery, Caroline Langrishe, Pip Torrens, Malcolm Sinclair, Antonia Pemberton, Peter Copley, Sam Smart, Edward Clayton, Metin Yenal, Richard Cawte
Duração: 50 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.